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Feitiço é Feitiço. Doença é Doença.

Reportagem apresentada no Repórter Brasil.

Veja aqui como ficou.

Um pouco mais abaixo (e aqui também) você vê como eu tratei o mesmo assunto na Agência Brasil.

Afinal, se feitiço é feitiço e doença é doença, TV é TV. Agência é agência.

AIDS, cultura, poligamia, curandeirismo

Reportagem publicada na Agência Brasil

02/08/2010
Cultura e tradições locais desafiam profissionais de saúde africanos no tratamento da aids

Eduardo Castro
Correspondente da EBC na África

Maputo – Além da falta de recursos e da agressividade natural da aids, médicos e agentes de saúde africanos enfrentam mais uma dificuldade para prevenir a difusão do vírus HIV e promover o tratamento dos doentes: a adaptação do discurso da necessidade de prevenção, testagem e medicação correta à cultura local.

Na capital, Maputo, e em outras grandes cidades moçambicanas, é grande o número de outdoors que pregam a fidelidade, a abstinência e o uso de preservativos. Uma campanha que está atualmente na televisão pergunta: “Sabes com quem andas?” e também usa a gíria local para dizer que é bastante perigoso ter vários parceiros sexuais (“Andar fora é maningue arriscado”). Outro outdoor assegura que “Amores a mais é demais”. As mensagens também são difundidas pela rádio e ensinada nas escolas, na capital e pelo interior moçambicano.

Além da pregação da fidelidade e da abstinência sexual, comum na abordagem feita por entidades norte-americanas, a palavra de ordem escolhida, por exemplo, pelo governo brasileiro de “fazer sempre sexo seguro” também aparece, seja em campanhas que pedem o uso do “jeito” (gíria local para o preservativo) nas relações sexuais ou na distribuição gratuita de camisinhas.

“É muito difícil fazer a inferência sobre qual é a prática ou o discurso que está a fazer real influência na comunidade”, afirma o porta-voz do Ministério da Saúde moçambicano, Leonardo Chavane. Mas, diz ele, massificar a informação é uma forma de atingir às várias camadas etárias e sociais. “Por exemplo, a mensagem da abstinência é importante para os jovens que não iniciaram a vida sexual. A última sondagem mostrou que, em Moçambique, cerca de 25% das meninas tiveram sua primeira relação sexual antes dos 15 anos”.

A lei moçambicana não prevê a poligamia, mas a prática de ter mais de uma esposa é muito comum, principalmente no interior, onde a família numerosa era fundamental para o trabalho no campo. Também é grande o número de muçulmanos no país, o que traz o costume também para a cidade. Sem contar a infidelidade nos casamentos monogâmicos.

Olga, Gilda e Moisés moram na periferia de Maputo. Dividem a mesma casa há 21 anos. Olga não pode ter filhos, o que fez Moisés buscar uma segunda esposa. “Para nós é normal, diz Olga. “Foi um pouco complicado no início, mas hoje vivemos bem.”

Como o marido trabalha nas minas de carvão da África do Sul e passa meses sem voltar a Maputo, a convivência maior é entre as esposas. Gilda tem três filhos com Moisés, e divide a casa com Olga, as crianças e agora também com um netinho, de 1 ano.

A intimidade vira cumplicidade na hora de prevenirem-se contra o HIV. Moisés não usa preservativo com as esposas. “Nós confiamos um no outro. Temos que ser um do outro. Nesta parte, não temos medo”, assegura Gilda.

Rafael Mavota já conseguiu convencer vários homens HIV-positivo a trazerem as esposas para fazer testes no centro de saúde. Há nove anos ele trabalha no aconselhamento de soropositivos e também na prevenção à aids no Centro de Saúde 1º de Maio, no bairro de Maxaquene, mas com cuidado especial ao abordar os pontos mais delicados. “É preciso respeitar as tradições. Respeitando as tradições podemos entrar melhor na vida das pessoas.”

Ele não concorda quando o discurso prega a mudança total dos hábitos e dos costumes. “Não pode pregar ‘parem tudo’, porque seríamos muito agressivos. E, quando há agressividade, não há compreensão”. Agressividade, defende Rafael, só na mensagem sobre o efeito da doença sobre as pessoas. “Precisa impressionar mais, entrar mais.”

A dificuldade em “entrar mais” também é vista nas outras etapas do tratamento. Muitos se recusam a fazer o teste. E vários que, depois de testados, descobrem estar contaminados custam a acreditar que a aids não é resultado de trabalhos espirituais ou feitiços. Buscam os curandeiros mesmo ouvindo deles próprios que o lugar de tratar aids é no hospital.

“Feitiço é feitiço. Doença é doença”, diz Fernando Mathe, médico tradicional há 20 anos e também porta-voz da Associação dos Médicos Tradicionais de Moçambique (Ametramo). “Nunca vi curandeiro curar sida [aids]”, diz, usando a nomenclatura mais comum em Moçambique. “A recomendação que damos aos pacientes é ir ao médico convencional. E, na associação, pedimos ao curandeiros para reforçar isso.”

Mas é comum o paciente resistir, diz ele, citando um senhor que insiste em receber banhos com ervas. “Ele toma antirretrovirais no hospital, pensando que é uma combinação que faço com os banhos que dou nele aqui. Mas eu sempre o empurrei para o hospital. Ele não entende que está sendo curado pelos antirretrovirais, e não pelos banhos que estou a lhe dar. Mas, se paro com os banhos, ele não vai ao hospital.”

E agora? Como leio isso?

Tem gênio espalhado por redação por aí que diz que, quando o nome próprio na matéria é estrangeiro, devemos pronunciar “o mais próximo possível do original”.

Sempre achei isso uma bobagem. Pra mim soa prepotente, meio que uma vontade de mostrar que sabe falar línguas, ser cidadão do mundo.

Bacana é como fazem os portugueses, que aportuguesam tudo. Bordeux é Bordéus (em que pese a confusão que falar isso no ar pode causar), Stuttgard é Estugarda e Amsterdã é Amisterdão. Sem lembrar que mouse é rato e por aí afora.

Sempre que vinham com essa coisa de “não é Ramála, é Ramalá”, eu pegava o nome da cidade escrito em árabe e pedia pro gênio ler e me falar onde tá o acento, por favor. E o gênio ainda tentava! E lendo vindo da esquerda pra direita…

Pois bem. Depois desse mês aqui na África do Sul, quando os gênios internacionalizados vierem me pedir pra ler “certo”, vou entregar a eles o cartão de um dos meus entrevistados de hoje – Mxolisi Evan Tyawa. Publicitário cuja língua é Xhosa.

Ele bem que tentou me explicar como pronunciava Mxolisi – “assim, com a frente da boca, não com o fundo”, dizia ele, fazendo um estalado típico do idioma.

Não houve jeito. Na matéria, que vocês vão ver hoje à noite no Repórter Brasil, fui pelo mais fácil: identifiquei o cavalheiro pelos dois últimos nomes. Não cometo barbaridade, nem incomodo os gênios da raça jornalítica.

Como? Nem imagina como é o som do Xhosa? Clique aqui e veja um post mais antigo com várias músicas da mítica Miriam Makeba em Xhosa. Uma delas, “Click Song”, tem esse nome por causa dos “cliques” que a língua faz pra falar em Xhosa.

Dia da África na TV Brasil

Aqui, a reportagem que fiz aqui em Maputo. Ouve duas das maiores personalidades moçambicanas do mundo das artes e cultura: a atriz Lucrécia Paco (já falei dela aqui outro dia, quando ela contou na TV aqui de Moçambique que a única vez que foi vítima de racismo foi no Brasil – óiaqui) e Severino Nguenha, bacharel em Teologia, Doutor em Filosofia e professor da Universidade Lousanne, na Suíça.

Na mesma gravação você vê o quadro “Repórter Brasil Explica” com as razões pelas quais 25 de maio é o Dia da África.

E teve mais. Ó: esta reportagem veio da Bahia. Também sobre o Dia da África.

Lucrécia Paco e o racismo


Lucrécia Paco é um símbolo de Moçambique. Atriz, interpreta em ronga, português, inglês, francês e alemão. Já esteve na Europa toda, África toda, América toda, representando personagens e todo um país.

Hoje foi a entrevistada do programa do Gabriel Junior, o “Moçambique em Concerto” (já falei deles aqui).

Durante a conversa, relatou pra Moçambique todo que sentiu racismo na pele uma única vez. E…oh!… foi no Brasil. Não disse onde exatamente, mas contou que foi numa casa de câmbio, enquanto participava de um festival de teatro no Instituto Itaú Cultural, que fica na Avenida Paulista, dando a entender que (oh! de novo) foi em São Paulo.

Segundo Lucrécia, uma senhora protegeu a bolsa ao vê-la na fila, e disse que ali “não era lugar pra ela estar”. Não houve queixa formal. Discreta (sempre, aliás), não quis escândalo.

Lucrécia, querida. Antes de tudo, as desculpas sinceras e envergonhadas dos brasileiros que não pensam assim e não são assim. Depois, seria bom que você tivesse feito queixa. Porque há brasileiro que acha, defende e bate o pé – até escreve livro – afirmando que no Brasil não há racismo. Gente mal informada que precisa conhecer a realidade que – oh! – não está nas novelas de maior audiência, mas nos shoppings centers de nossa maior e mais diversa cidade.

Novelas que, por sinal, são vistas – muito vistas – aqui também.

Aqui, link prum texto da revista Época que relata o caso.

A procissão na TV

Aqui a reportagem que foi ao ar do Repórter Brasil de segunda-feira, dia 17, da peregrinação à Namaacha.

E pra quem acha que não tem frio na África, recomendo ir à Namaacha. Não é Buenos Aires, mas bate uma bela brisa. Aliás, o templo foi montado ali por causa das montanhas. Segundo eles lá, lembram as colinas que cercam Fátima, em Portugal. Tive o privilégio de, ao longo da vida, sentir frio nos dois lugares.

Namaacha

O povo em frente à igreja em Namaacha

No fim de semana, fomos a Namaacha, a 75 km aqui de Maputo. Uma vila com 15 mil habitantes que recebeu quatro vezes sua população para louvar a Virgem de Fátima.  Foi interessante ver a adoração a algo tão europeu na divisa de Moçambique, Suazilândia e África do Sul.  Gostemos ou não, é algo incorporado à vida do lugar.

Créditos das fotos – e da idéia de levar a máquina – para Sandra Flosi, minha companheira nessa e em todas as viagens.

Estevão fazendo as imagens que fecharam o VT

Começamos! Na TV Brasil…

A minha primeira apuração feita aqui na África foi sobre a influência brasileira no continente, especialmente nos páises de língua portuguesa. Não sabemos nada sobre eles, mas nossa cultura nos faz muito conhecidos aqui – ou, ao menos, bem mais conhecidos aqui do que eles aí.

Música, literatura e principalmente, televisão, são os canais de divulgação da língua e modo de vida do Brasil pra cá. É claro que é algo parcial: é só o que é retratado pela TV – até agora, só TV comercial, com os problemas que já conhecemos – e só pra quem entende português. Mas aqui em Maputo, capital moçambicana, altera o jeito de falar e a percepção de mundo.

Vejá lá. – link é esse aqui. Se gostar, elogia. Se detestar, me conte porquê.

Começamos! Na agência…

A mesma apuração gerou uma matéria que foi publicada assim em vários veículos e no site da prórpia agência (que você enontra nos links aí ao lado).

O texto dela foi pro ar assim, ó…

Cultura brasileira influencia modo de vida em Moçambique

Eduardo Castro
Correspondente da EBC para a África

Maputo – Localizado na costa sudeste do Continente Africano, antiga colônia portuguesa e país independente desde 1975, Moçambique registra hoje forte presença da cultura brasileira em seu cotidiano. Em primeiro plano, ou lado a lado com manifestações locais, aparecem a música e as novelas brasileiras, cantores, compositores, atores e atrizes que influenciam o modo de vida e até a maneira de falar e de se vestir dos moçambicanos.

A maior influência chega pela televisão, que funciona em Moçambique há 30 anos e sempre mostrou telenovelas brasileiras. O primeiro grande sucesso foi O Bem Amado, com Paulo Gracindo no papel do prefeito Odorico Paraguaçu, exibida em Moçambique em 1986. Hoje em dia, o moçambicano pode assistir aos capítulos de Malhação na TVM, emissora estatal pioneira no país, Caminho das Índias na STV, e Escrava Isaura e Bela, a Feia na TV Record Moçambique, controlada pela emissora brasileira e até o ano passado conhecida como TV Miramar.

“A novela é um momento absolutamente sagrado da vida moçambicana”, afirma o sociólogo Carlos Serra, pesquisador do Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane, a maior do país. “As famílias, especialmente à noite, param, desde os anos 80, para ouvir, ler, interpretar, ver e comungar aquilo: as história trazidas pela novela brasileira”, diz Serra. “Ainda não se tem um estudo aprofundado sobre o tema, mas fatalmente ele será feito para avaliar como a trama, os personagens e o enredo influenciam a nossa forma de ser urbana.”

Atrizes das novelas têm suas vidas acompanhadas de perto por programas de variedades na televisão e comentadas entre os moçambicanos, a exemplo do que ocorre no Brasil. As atitudes e roupas dos atores influenciam o jeito de vestir e de viver das jovens.

Isso pode ser notado facilmente nas conversas, no jeito de falar. “Entre amigas, a gente fala assim… sai sem perceber”, confirma a estudante de direito Cristina Saúde, usando a expressão “a gente” de forma abrasileirada. “Tá querendo me enganar, é?” exemplifica a também estudante Arrucina Santos, usando uma expressão que, segundo ela, é “brasileira e muito repetida por toda a gente – ou como vocês dizem, ‘por todo mundo’”.

“O português de Moçambique é infiltrado pela forma de os brasileiros falarem português”, confirma o professor Serra. “ Muitos dos nossos jovens fazem exclamações, usam termos e corriqueiramente aplicam o gerúndio em substituição ao infinitivo, como é no português clássico de Portugal – ‘comendo’, ‘falando’, em vez de ‘a comer’ e ‘a falar”.

Serra aponta ainda “outra vertente de influência brasileira”, que já é grande, a dos pastores evangélicos neopentecostais, principalmente da Igreja Universal do Reino de Deus que, a exemplo do que faz no Brasil, transforma antigos cinemas em templos (um grande está sendo construído na área histórica de Maputo) e espalha sua palavra pelos meios de comunicação. “É algo que também carece de estudo acadêmico mais aprofundado, para que seja medida a extensão da influência”, afirma o professor.

Há cinco anos em Moçambique, Nair Telles chefia o Departamento de Sociologia da Universidade Eduardo Mondlane. Para ela, o moçambicano gosta do brasileiro e tem o Brasil como “uma referência, algo a ser atingido, mas não copiado”. “Eles querem chegar ao nosso grau de desenvolvimento econômico, intelectual e social, mas do modo deles, com a linguagem daqui”, diz a professora. “É, aliás, um espaço que os brasileiros deveriam ocupar melhor. Eles querem fazer mestrado e doutorado no Brasil. E nós investimos pouquíssimo em Moçambique.”

Muito populares são também os cantores brasileiros. A baiana Ivete Sangalo e o grupo KLB estão entre os mais conhecidos. “Eles são muito famosos aqui”, diz Bélia Machava, locutora da Rádio Comunidade, uma emissora FM de Maputo, capital moçambicana. “O grupo já veio aqui e fez muito sucesso. Eu toco muita música dele”, completa. As duas apresentações que a maranhense Alcione fará no próximo fim de semana ocuparam meia página no jornal O País e foram notícia no programa Tinzhava, da STV, o canal de maior audiência na TV aberta. Tinzhava, no idioma xangana, língua nativa mais falada na região de Maputo, quer dizer fofoca em português.

Roberto Carlos é um ídolo de várias gerações. Lindomar Castilho, Wando, Teixeirinha, Ângela Maria também são citados pelos mais velhos, ao lado de estrelas moçambicanas como Lalarita, João Cabaço e Aída Humberto como referências populares do país.

Edição: Nádia Franco