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Na RD Congo, estupro é arma de guerra

 

E a ONU anuncia a prisão de um suspeito de estar envolvido nos casos de violência contra cinco mil mulheres e crianças.

Pra fugir, mulheres – e homens e crianças – vagam pela África, pelos campos de refugiados.

Conhecer um é ir a outro mundo, dentro do nosso.

Veja como eles são aqui, na reportagem da TV Brasil.

Pra saber mais, leia os textos que escrevi sobre o assunto clicando aqui.

No Congo, a dura volta para casa

Duas reportagens publicadas em conjunto, na Agência Brasil.

Aproveitei os dados mais recentes para contar detalhes da visita que fiz ao campo de refugiados de Gihembe, durante minha viagem a Ruanda (veja o post que escrevi na época clicando aqui).

Por esses dias vamos editar um especial para a TV Brasil. Será um programa Caminhos da Reportagem que falará de Ruanda como um todo. Se der tudo certo na edição (que dá um trabalho miserável – aqui e no Brasil), ele será exibido em novembro.

Estevão de Abreu faz imagens para a TV Brasil. As crianças observam tudo bem de perto.

22/09/2010
Aos poucos, refugiados da guerra civil do Congo voltam para casa

Eduardo Castro
Correspondente da EBC para a África

Maputo (Moçambique) – Mais de 210 mil refugiados congoleses conseguiram retornar ao país natal desde 2004, segundo levantamento mais recente do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, fechado em agosto. E o número será maior no fim de setembro. Só na semana passada, mais de 4 mil refugiados deixaram a cidade de Zemio, na República Centro-Africana, e voltaram ao Congo.

Outro movimento parecido foi registrado na região congolesa de Katanga, para onde regressaram, até o dia 18, 846 pessoas provenientes de Zâmbia, de acordo com boletim do Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da Organização das Nações Unidas (ONU) no país.

Por outro lado, mais de 1,1 mil pessoas fugiram de suas casas na mesma área, depois de três ataques do Exército congolês a grupos rebeldes. E o retorno de moradores do território de Beni foi suspenso por causa de operações militares contra guerrilheiros ugandenses.

Idas e vindas são comuns na região central da África, onde campos de refugiados surgem e desaparecem de acordo com a intensidade das batalhas. Por causa da guerra civil – responsável pela morte de cerca de 5 milhões de pessoas em 15 anos – a estimativa é de que 1,5 milhão de congoleses vivam espalhados em campos de refugiados montados nos países vizinhos, como Uganda, Ruanda, Angola, Burundi, Tanzânia e Moçambique.

A República Democrática do Congo tem 62 milhões de habitantes e ocupa o sexto lugar entre os piores índices de desenvolvimento humano (IDH) do mundo, segundo a ONU, mesmo sendo rica em diamantes, ouro, petróleo e outros recursos minerais. Uma sucessão de conflitos motivados por interesses políticos, étnicos e econômicos convulsiona o país, que chamava-se Zaire até 1997. Uma missão de paz da ONU (identificada pela sigla Monusco) atua no Congo desde 1999 para acompanhar acordos de cessar-fogo entre grupos rivais, nunca integralmente cumprido.

No começo do mês, o Exército congolês reforçou a atuação em Walikale, depois da denúncia que grupos rebeldes passaram a estuprar mulheres e crianças na região. Para enfraquecer os guerrilheiros, o governo decidiu fechar minas nas áreas do Kivu Norte, Kivu Sul e Maniema. Observadores internacionais acreditam que, apesar de melhorar a segurança na região, a medida pode gerar ainda mais miséria, pois o garimpo é praticamente a única atividade econômica que oferece oportunidade de trabalho para milhares de congoleses.

Em Ruanda, refugiados congoleses estão seguros, mas querem voltar para casa

Eduardo Castro
Correspondente da EBC para a África

Maputo (Moçambique) – A Agência Brasil visitou Gihembi, em agosto, um dos campos de refugiados que recebem congoleses em Ruanda. Localizado a 50 quilômetros (km) da fronteira com a Uganda e a 200 km do Congo, Gihembi foi criado em 1996 como solução temporária para receber congoleses que fugiam da guerra civil. Transformou-se em uma cidade de 20 mil habitantes, na maioria membros das etnias banyamulenge e banyamasisi, ligadas aos tutsi ruandeses.

Nos 60 km que separam o campo de refugiados da capital ruandesa Kigali é possível ver plantações de banana e arroz. A estrada é estreita e sinuosa, mas inteiramente asfaltada e sem buracos. Depois de uma hora e meia de viagem surgem casas de taipa enfileiradas nas encostas da colina mais alta da região. Na entrada de Gihembi não há cancelas ou portões. Uma corrente separa o campo da pequena cidade de Byumba. Os refugiados podem circular apenas pela vila. Para ir mais adiante, precisam de autorização do serviço de imigração ruandês. Para facilitar as idas e vindas, cartões de identificação devem ser distribuídos.

O campo também tem uma escola primária – que atende a 4 mil alunos – feita de paredes de barro e telhado de zinco coberto de poeira marrom. Assim também são todas as casas, erguidas pelos próprios moradores. Muito plástico, pedaços de zinco e tábuas dominam o cenário geral. O chão é de terra batida. Há torneiras pelo campo, onde os moradores buscam água em baldes e garrafões. As construções são mais sólidas do que as barracas de lona vistas em outros campos de refugiados da África Central.

Em uma área fechada por cercas de caniço há salas de consulta médica e atendimento psicológico, onde um médico e cinco enfermeiras recebem os doentes. Casos graves são encaminhados à cidade. Também está instalada uma farmácia, que distribui os medicamentos receitados, inclusive para aids, muito comum em toda a região. Só no campo de refugiados, 248 pessoas estão em tratamento contra a aids.

Anemia a carência nutricional em adultos são casos comuns. Ao lado dos consultórios, uma cozinha com fogões de lenha reforça a alimentação de 148 crianças desnutridas. Lactantes (300) e mulheres grávidas (86) também recebem complemento alimentar. Cada refugiado tem direito a 2.200 calorias por dia. Arroz, milho, feijão e óleo são distribuídos uma vez por mês.

No dia que a equipe da EBC visitou o campo de refugiados de Gihembi, em agosto, era dia de distribuição do suprimento de lenha, que deve durar dois meses. A distribuição é feita em uma praça central, onde também estão montadas bancas de frutas e verduras. A movimentação é intensa. Centenas de mulheres e crianças subiam as ruas de terra com toras de madeira equilibradas na cabeça.

As mulheres, maioria visível em Gihembi, vestem panos coloridos amarrados na cintura e na cabeça. Fogem da câmera, assim como os homens mais velhos. Alguns vestem roupas com marcas conhecidas – piratas ou verdadeiras, vindas de doações distribuídas por toda África.

Já as crianças mostram-se curiosas com os visitantes. Sorridentes, fazem poses para a câmera e puxam o repórter pelo braço. Gritam “muzungu, muzungu” (“branco, branco” em kinyarwanda, língua predominante na região) e acompanham de perto o trabalho do cinegrafista da TV Brasil. A maioria fala ou, ao menos, entende francês. E na escola ensina-se inglês. São muitos cumprimentos de “good morning, muzungu (bom dia, branco)”.

Elas correm pelas ladeiras de terra, jogam basquete em uma quadra perto da entrada do campo. Também gostam de futebol. Adolescentes mais arredios aproximam-se ao ver a bandeira verde-amarela no colete da TV Brasil. E tentam se comunicar enfileirando nomes de jogadores brasileiros – alguns com sobrenome: “Kaká, Robinho, Ramires, Ronaldo Nazário de Lima”.

Como a vila vizinha é pequena, poucas são as oportunidades de emprego – tanto para ruandeses quanto para refugiados. Por isso, poucos congoleses vão à cidade. Além das barracas de frutas e verduras, pequenos comércios vendem refrigerante e crédito para telefone celular pré-pago, além de algumas poucas conveniências.

Alguns refugiados conseguem dinheiro (pouco) fazendo melhorias nas casas dos vizinhos. As enfermeiras também são moradoras e recebem uma pequena contribuição pelo trabalho, bem como os professores. Segundo os moradores, há gente com diploma que vive ali, sem perspectiva, esperando há anos para poder voltar para casa. O máximo que consegue é dar aulas na escola primária.

“Aqui estamos totalmente seguros”, diz Gerard Damascene Toma, um dos indicados pelos representares do governo de Ruanda e das Nações Unidas para falar com a Agência Brasil. “Fomos expulsos de nossa terra pela guerra. Espero pelo acordo de paz para retornar e ver o que sobrou”, afirma ele, que vive desde dezembro de 1998 em Gihembe. “Não é bom, mas é melhor que lá”.

Jean Paul está no campo desde 1997, quando conseguiu escapar da República Democrática do Congo. No campo de refugiados, se sente em segurança. Mas não pensa em ficar. “Não podemos estar satisfeitos. Recebemos comida e abrigo, mas queremos voltar para nossos lugares.”

Edição: Vinicius Doria

Muzungu verde-amarelo

Campo de refugiados de Gihembe, fronteira entre Ruanda e Uganda. Vivem ali cerca de 20 mil pessoas, todos congoleses que fogem da guerrilha. Perto de outros campos do gênero, com barracas de lona e pedaços de zinco, é bem montado: tem escolas e casas de taipa, distribuição regular de comida. Mas é um campo de refugiados. Não é um camping.

Não há luz regular ou água encanada. Hoje, quando visitei o lugar, era um dia muito esperado: o da distribuição de lenha. Muitas senhoras e crianças carregando na cabeça, pedaço por pedaço, o combustível que vai aquecer a casa e a comida pelos próximos dois meses.

Você vai conhecer o campo muito em breve, no Caminhos da Reportagem, da TV Brasil.

Por enquanto, só pra dar vontade de ver, mais um detalhezinho: “muzungu”, em kinyarwarda, quer dizer “branco”, homem branco (no sul de Moçambique é “mulungu”). E a garotada neste campo está aprendendo inglês. Daí eu ter ouvido tanto “godo morning, muzungu”, ao longo de toda a tarde.

Outra coisa que é bem marcante é o sorriso das crianças – mesmo sem ter a mínima idéia do que seja um Playstation. Sorriem só por você estar lá. Tocam em você. Cantam pra você. Eu não estava vestido de Papai Noel. Nem dei dinheiro a ninguém.

Meu antecessor cá em África, Carlos Alberto Junior, escreveu sobre isso lindamente uma vez. Recomendo dar uma olhada, clicando aqui.

Mas algo que o muzungu trazia colado no colete o tornava ainda mais interessante: a bandeira do Brasil.

Daí os jovens também se interessavam em falar comigo. Num papo que juntava inglês e português do muzungu, francês e kinyarwarda deles. E, claro, a língua comum: o futebol.

Vai estar tudo na reportagem – vocês vão ver.

Fim do primeiro ato.

Segundo ato: sala do representante do Banco Africano de Desenvolvimento em Kigali.

Jacob Diko Makete é da República dos Camarões, PhD em nãoseioqueconomics pela London School of Economics, formado em Cambridge, príncipe de um clã (ele não falou; descobri na internet) e admirador queixocaidístico da melhoria econômica brasileira dos últimos anos, da independência da política interna e da atenção que o país dá, agora, para a África.

E ele nem ensaiou discurso ou estudo pra me impressionar – cheguei sem avisar. “Quero falar com alguém aí no Banco”, disse pro guarda. “D’accord”, respondeu ele, deixando claro que não tinha entendido nada. Abriu o portão e eu subi. Por acaso – era feriado – o chefe estava. Ficou fascinado com a TV Brasil estar aqui em Ruanda, e, especial, ali, na sala dele.

Falamos por quase uma hora (ele não quis gravar, veja bem! Estou insistindo ainda). No meio do papo, me veio à cabeça uma conversa que tive com o ministro Ney Bittencourt, da embaixada brasileira em Maputo, logo que cheguei. Ele foi o primeiro representante brasileiro em uma reunião da União Africana. E contou que, além de alegria e certo espanto em vê-lo ali, os representares dos outros países olhavam pra ele com aquela cara de “que bom que você finalmente veio.”

É assim que tenho me sentido inúmeras vezes no exterior – e em especial aqui na África – só pelo fato de ter nascido em algum lugar entre os pampas e os seringais. Uma mistura de surpresa com carinho, admiração com inveja boa.

Nunca fui de arrotar patriotismo ou sair elogiando o gingado, o tempero, a malemolência e o veneno da brasilidade. Até porque é o jactar-se disso que nos fez – até agora – muito reconhecidos pelo rebolar de nossos quadris e a qualidade da nossa depilação íntima (chamado, em vários países, de “brazilian wax”).

Não é mais só o futebol que nos faz objeto de admiração aqui fora.

Está mudando. E eu tô curtindo.

E, como todo dia, CPLP

Sandra posta lá no Mosanblog, e eu replico cá, pá.

Ó, veja como foi…

Veja o restante do Mosanblog também… toda quinta-feira tem música africana. E muita historieta sobre nossa vida aqui.

Mais goooooooooooooooooooooooooooollllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllll

Lembra do goooooooooooooooolllllllllllllllllllllllllllllll de Españaaaaaaaaaaaaaa que eu postei aqui no começo da Copa? (clique aqui pra ouvir de novo).

Então você pode imaginar como foi o de ontem…

Tá aqui.

Narração da Cadena Cope.

A grana, sempre ela.

Mal vi a seleção aqui. Como sempre aconteceu nas copas que cobri, sou eu de um lado e ela do outro.

Mas a gente tem amigos, né?

Um deles me contou que o time (a “rapaziada” ou “boleirada”, como diz o reportariado íntimo), no geral, ficou bem pau da vida com o Dunga e o Jorginho por causa da reclusão.

Mas não queriam “liberdade, liberdade”, comunicar-se diretamente com o distinto público ou fazer farra só. Até porque, neste grupo aí, o mais provável seria querer ir à igreja.

Eles queriam expor os patrocinadores pessoais.

Além dos básicos e manjados bonés e camisetas, queriam mostrar o tênis, os óculos de sol, o brinco, o colar, a roupa de ir pra… igreja.

Eles apareceram muito pouco, e só de uniforme.

Os milionários deixaram de ganhar mais milzinho cada. E eles ficam bravos quando isso acontece.

A seleção vai mudar. Mas quando será a nossa vez?

Sempre que o Brasil é desclassificado da Copa, a pauta é “enumerar os inúmeros erros” que foram cometidos na convocação, preparação, escalação, alimentação, e qualquer outro “ão” que caiba no processo. Em seguida, apontar o que deve ser feito para que esses erros não se repitam na próxima copa.

Mas quem diz que esses erros aconteceram mesmo? Será que não é possível que tudo tenha sido feito certo e – miraculosamente – algum outro time tenha sido melhor que o nosso?

“Ouvimos as fontes”, dizemos nós. Quais fontes, só pra lembrar? O processo é o mesmo que se usa pra analisar – imparcialmente, é óbvio – decisão de Banco Central ou Ministério da Fazenda: gente “de mercado”, ex-integrantes da instituição ou “comentaristas experientes”. Na enorme maioira das vezes, sempre os mesmos, que já sabemos que vão falar exatamente o que queremos escutar.

Mas daí não é a minha opinião, né? É o que o Mailson da Nóbrega acha.

Sem falar nessa esquizofrenia entre departamento comercial e conteúdo. Enquanto as chamadas são carregadas de emoção e apelos patrióticos, e os comerciais são de um ufanismo só, prafrentebrasilsalveaseleção, a moçada na beira do campo quer provar que é “jornalismo futebol clube”, imparcial, sem pachequismo. Só que sendo contra tudo – tudo – o que os caras fazem. Como se isso não fosse parcial também. Não fosse erro. Ou soberba de achar que do lado de lá só tem mané.

Lembro sempre dos famosos comentaristas que dizem que “o próprio nome da FIFA já diz que futebol é association”, pra indicar que tal time deveria jogar em conjunto. Um sujeito que diz isso deveria ser pendurado de cabeça pra baixo. “Fédération Internationale de Football Association” quer dizer Federação Internacional de Associações de Futebol. Nunca foi “Federação Internacional de Futebol Associado”.

Bom seria que, a cada quatro anos, a imprensa também passasse pelo mesmo escrutínio rigoroso que impõe à seleção. Daí, certamente, os imaturos e ou preguiçosos não viriam nas próximas. Quem previu o futuro e errou feio – ou ficou no muro de sempre – seria obrigado e estudar mais antes de abrir a boca. E quem se mostrou ultrapassado, preconceituoso ou anacrônico passaria a comentar só jogo de showbol. Se tanto.

Mas não. Nós não erramos nunca. Nem vamos a lém da conta. “Como? Campanha contra alguém? Imagine! Só reportamos fatos como eles são e fazemos críticas necessárias. Sempre construtivas, é claro”.

Quantos analistas te contaram como a seleção da Alemanha viria jogar na Copa? Qual o grande diferencial dela? Quantos apontaram a Alemanha como favoritíssima ao título? Claro que não vale aquele troço de “a Alemanha é sempre candidata em qualquer competição.”

Mas fomos várias vezes informados quantos jogos o Zéninguémkovic fez pela segunda divisão da Eslováquia, ou qual o nome da quarta ex-esposa – modelo, por sinal – do craque Bonítolson, que assinou um contrato milionário com aquela famosa grife de botinas Pedeboy.

Desnecessário dizer que tem gente no nosso meio que sabe o que fala, conhece tática, batalha por notícia e não por fofoca, não quer nem o lugar do técnico nem do supervisor da seleção. Claro que tem. Também tem quem apontou a Alemanha como favorito sim. Mas esses tem que ser a maioria. E ainda não são.

É claro que a seleção erra. Mas agora vai trocar técnico, cair comissão, modificar “filosofia”, como tanto gostamos de dizer.

E nós? Quando vamos mudar de tática?

Estamos fora. Nós Brasil. Nós África.

Assisti ao Brasil e Holanda na Casa Brasil, com telão ligado na Globo. Finalmente um jogo com gritaria de narrador! Se bem que a voz do nosso estrelo-maior na esgoelação esportiva foi igual à seleção brasileira: ficou pelo caminho.

Faz diferença. Futebol tem que ter grito, emoção. Não dá pra narrar gol com o mesmo entusiasmo de um arremesso lateral, como fazem aqui.

Foi duro aguentar uma ou outra demonstração de sapiência ou de pitonismo. Sem contar o discursinho no fim. Mas Casão, Júnior e Falcão garantem o equilíbrio.

Quanto terminou o jogo, foi aquele velório. Aliás, quando nós vamos viver a derrota no futebol com mais naturalidade? 31 perdem na copa. Ganha só um.

Pelo menos a tristeza rende belas fotos…

Depois fui ver Gana e Uruguai num bairro de imigrantes aqui em Joanesburgo, que parecia uma cidade de Gana.

Deu uma pena!

Com Gana vencendo por um a zero, eles comemoraram no intervalo com se o jogo tivesse acabado! E no final, morreram de raiva. Ficaram decepcionados. Ficaram tristes na hora. Mas, pelo menos ali, a sexta-feira à noite prosseguiu com cara de sexta-feira à noite.

Aqui, mais fotos do Marcello Casal no jogo do Brasil. E aqui as imagens do Ulov Flamínio no jogo de Gana.

Já viu o Repórter África?

Segunda à sábado, 11 da noite pelo horário de Brasília, na TV Brasil. Domingo às nove.

Tem entrevista, bate-papo, quadros especiais. E as reportagens do tio aqui também.

Dê uma olhadinha diária na programação clicando aqui.

E aqui você acha tudo de diferente que a EBC está fazendo na Copa, como as transmissãoes da Rádio Nacional, por exemplo.

Lamola na Agência Brasil


Aqui a versão
da reportagem sobre os craques que o apartheid impediu de brilhar no exterior.

Fiquei emocionado de conversar com o Lamola, no jardim da gigantesca SABC, South Africa Broadcasting Company. 15 rádios e 5 emissoras de TV no mesmo prédio. E ninguém fala em “desperdício de dinheiro”. É serviço público. Como o nosso da TV, da Agência e das emissoras de rádio da EBC.

5/06/2010
Apartheid deixou África do Sul fora de competições internacionais por mais de 30 anos

Eduardo Castro
Correspondente da EBC na África

Joanesburgo, África do Sul – Por causa da política racista do apartheid, a África do Sul foi impedida de participar das competições internacionais de futebol por mais de 31 anos – entre 1961 e 1992. O banimento atingiu em cheio as carreiras de muitos atletas que nunca puderam defender seu país em copas do Mundo, Olimpíadas ou campeonatos continentais.

Peter Balac, Jomo Sono (o primeiro a ser chamado de Pelé africano), Patrick “Ace” Ntsoelengoe, Nelson “Teenage” Dladla, Jingles Perreira, Joel “Ace” Mnini, Sylvester “City” Kole, Marks “Go man go” Maponyane, Johannes “Ryder” Mofokeng são alguns dos nomes conhecidos praticamente apenas pelos fãs sul-africanos.

Apontado por muitos comentaristas como o meio-campista mais inteligente da história do futebol da África do Sul, Vusi Lamola – apelidado de “Computer”, computador, graças à velocidade de raciocínio – lamenta até hoje não ter tido a chance de brilhar em jogos internacionais.

“Se não fosse o apartheid, eu teria tido a chance de jogar no exterior, talvez na Europa ou até no Brasil”, diz. “Hoje, sou pastor evangélico e tenho problemas financeiros. As coisas não estão equilibradas. A falta de oportunidades maiores me afetou para sempre”.

Quando o apartheid foi implantado como política de Estado, em 1948, a África do Sul tinha quatro ligas separadas: uma branca, uma negra, outra mulata e uma indiana. Na seleção nacional só brancos podiam jogar. A regra que impedia contratações interraciais caiu em 1956, mas, na prática, não funcionou.

Em uma nova carga contra o racismo, em 1961 a Federação Internacional de Futebol (Fifa) suspendeu a África do Sul das competições internacionais. O país passava por um momento político delicado. Um ano antes, 69 negros morreram e 180 ficaram feridos durante um protesto em Sharperville, quando a polícia abriu fogo contra manifestantes. Em seguida, o movimento negro Congresso Nacional Africano (CNA) foi banido.

Graças ao episódio, a CNA intensificou sua ação contra o apartheid, mas deixou de promover apenas ações pacíficas. Em 1962, as Nações Unidas aprovaram uma resolução condenando o apartheid e pedindo aos países-membros que cortassem relações diplomáticas com a África do Sul.

Em 1964, o líder político Nelson Mandela foi condenado à prisão perpétua. Ele ficaria preso por 27 anos, só deixando a cadeia com o fim do apartheid, para ser eleito o primeiro presidente negro do país.

Como nada mudara, a Fifa decidiu então expulsar a África do Sul de seus quadros em 1976. Na mesma época, o país vivia mais uma onda de violência, depois que um protesto de estudantes de Soweto contra a obrigatoriedade de estudar a língua dos brancos – o afrikâner – foi reprimido firmemente pela polícia, o que gerou revolta e mais de 100 mortes em todo o país.

Lamola lembra que, nessa época, o futebol era mais que uma modalidade esportiva. Era uma forma de protesto. “Nós fomos muito oprimidos”, diz. “Usávamos os jogos contra os brancos para mostrar a eles que eramos capazes, que não deveríamos ser discriminados”.

A maior parte da carreira de Lamola, entre os anos 70 e 80, foi vivida com a camiseta amarela e preta dos Kaizer Chiefs, time mais popular do país, surgido no bairro de Soweto, centro da resistência negra contra o racismo. Ele chegou a jogar no Canadá em 1981, mas a liga faliu e ele voltou para a África do Sul depois de quatro meses, só aumentando a frustração.

Além de pastor evangélico, Lamola também ensina futebol para garotos do Soweto e comenta jogos em uma das 15 emissoras da rádio pública da África do Sul – a Rádio 2000. Ele diz ter ficado muito feliz ao ver o país inserido no cenário do futebol mundial, ao abrir a Copa do Mundo na sexta-feira passada (11), quando empatou com o México em 1 a 1.

“É empolgante porque, para mim, é uma forma de dizer que o apartheid não vai ficar aqui para sempre”, emociona-se Lamola. “Fico orgulhoso porque vi o poder do esporte, que fez uma coisa que os políticos não podem fazer: quebrar a barreira que nos mantinha separados, com todos torcendo pela África do Sul.”.

Para Lamola, a Copa já é um imenso sucesso, pouco depois de começar, só pelo que fez para unir ainda mais o país. Ganhar ou perder é só um detalhe. “Nós seremos ouvidos como uma só voz, uma só nação. E acredito que esse clima não vai existir somente durante a Copa do Mundo. Isso vai ficar. Esse é o meu desejo.”