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A maior população da África é africana só há 50 anos

É um joguinho de palavras pra lembrar que até 1960 a Nigéria, com 150 milhões de habitantes e país mais populoso do continente, era parte do Reino Unido. Como o Congo era da Bélgica. Moçambique era de Portugal, e assim por diante.

A África não era da África. Tinha dono. Alguns, aliás. Pouquíssimos pontos conseguiram manter integralmente sua cultura, seus povos, suas línguas.

Isso só começou – começou – a mudar há 50 anos.

Idos os colonizadores, ficaram as diferenças e os interesses que eles criaram ou fomentaram entre os africanos. Sem contar que as nações foram, mas as corporações ficaram, atrás do ouro, do petróleo, dos diamantes. E, hoje, dos mercados que leeeeentameeeeeeente começam a surgir.

As guerras civis, os golpes de estado, as quarteladas, as ditaduras estão aí até hoje, como efeito direto disso tudo. As guerras tribais, em boníssima parte, foram alimentadas pelas metrópoles, naquela política adotada por chefes fracos de “dividir para governar”.

O “desenvolvimento” (hahá!) trazido para a colônia era destinado, claro, apenas aos colonizadores que viviam aqui. Ou para dar condições de explorar isso aqui mais facilmente.

Pego Moçambique pra fechar a conta, só no mais recente: guerra pra se separar da metrópole entre 1964 e 74; independência da colônia em 1975, com mudança de regime; guerra fria até 1992, com uma guerra civil, desde 1980 e até 1994. Depois, “independente e livre”, desde que, claro, fizesse do jeitinho que quer a “comunidade doadora”, dos “investidores estrangeiros” e a sempre solerte moçada dos “organismos financeiros internacionais”.

Independente desde quando mesmo?

É claro que isso não faz os líderes africanos atuais inocentes de suas culpas ou isentos pelos problemas atuais do continente. Muitos se aproveitaram o quanto deu na época dos colonizadores, e fizeram – e fazem – questão de tratar os mais fracos do mesmo jeitinho que foram tratados. Ou ainda pior.

Africano não é santo, puro, coitadinho. É gente – com as mesmas qualidades e defeitos de gente de qualquer outra parte.

Mas é preciso lembrar dos 500 anos que antecederam os últimos 50 pra entender a África de hoje. Ajuda a compreender porque é possível que os próximos 50, sim, sejam melhores.

Isso se nós, que viemos de fora, não atrapalharmos tudo de novo.

Abaixo, reportagem da Agência Brasil.

01/10/2010

Explosões marcam comemorações dos 50 anos de independência da Nigéria

Eduardo Castro
Correspondente da EBC na África

Maputo – Pelo menos oito pessoas morreram vítimas de duas explosões ocorridas no centro de Abuja, capital da Nigéria, durante as celebrações do 50º aniversário da independência do país. Três carros foram destruídos em locais próximos à avenida onde era realizada uma parada militar, com a presença do presidente Goodluck Jonathan e representantes de outros países. A informação foi confirmada pelo porta-voz da polícia, Emmanuel Ojukwu, às agências internacionais.

As explosões ocorreram uma hora depois que o Movimento pela Emancipação do Delta do Níger (Mend), maior grupo rebelde do país, anunciou por e-mail que havia colocado várias bombas na cidade. O grupo tem lutado, há vários anos, por maior participação da região nos resultados das vendas internacionais do petróleo.

A Nigéria é o maior produtor de petróleo da África e o sexto do mundo. A falta de regras claras e instituições fortes abriu espaço para a corrupção endêmica, reconhecida pelo atual governo como um dos grandes problemas a serem enfrentados.

Cerca de 80% dos recursos do governo vêm do petróleo. Mesmo assim, a Nigéria passou por vários turbilhões econômicos nas últimas décadas. Um pacote com o Fundo Monetário Internacional (FMI) foi assinado no ano 2000, quando mais de US$ 1 bilhão foi emprestado por fontes internacionais para reestruturação da dívida, condicionado a reformas estruturais e econômicas. Dois anos depois, o país não conseguiu renovar o acordo. Só em 2005 a Nigéria pôde renegociar seus débitos, abatendo mais de US$ 18 bilhões do valor devido.

Nos últimos anos, o governo nigeriano tenta implementar as reformas sugeridas pelo FMI, como modificações no sistema bancário, cortes de gastos para conter a inflação e redistribuição interna dos ganhos com o petróleo. Em 2003, foi anunciada a privatização de quatro refinarias e a desregulamentação dos preços dos combustíveis.

Graças à alta dos preços internacionais do petróleo, a economia da Nigéria cresceu mais de 8% ao ano em 2008 e 2009. Segundo analistas, a falta de infraestrutura adequada (principalmente o fornecimento de energia elétrica e as condições das estradas) pode impedir que o crescimento se sustente nesses patamares nos próximos anos. Em um ranking da revista norte-americana Newsweek, sobre os 100 melhores lugares para investir, o país ficou em 99º. A inflação em junho deste ano chegou 14%.

Mesmo com a melhora macroeconômica dos últimas anos, 70% dos nigerianos ainda vivem abaixo da linha da pobreza. Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), 8 milhões de crianças estão fora da escola e 49% da população são analfabetos. O país tem o segundo pior índice de mortalidade infantil e maternal do mundo. A expectativa de vida é de 47 anos.

A Nigéria passou por vários golpes de Estado desde a sua independência do Reino Unido, em 1960. Depois de 16 anos de ditadura militar e 30 de guerra civil, uma nova Constituição foi adotada em 1999, repassando o poder aos civis.

Entretanto, as duas eleições subsequentes (em 2003 e 2007) foram realizadas em meio a atos violentos e denúncias de irregularidades. Em abril de 2007 deu-se a primeira troca de poder de um civil para outro na história do país.

Em janeiro deste ano, a Nigéria assumiu uma cadeira não permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas.

Falando nas celebrações desta sexta-feira (1º), o presidente Goodluck Jonathan reconheceu que muitos nigerianos estão “frustrados” com os resultados dos últimos 50 anos. “Para um país que, em termos de desenvolvimento, estava em situação melhor ou similar que outros no momento de sua independência, é desconfortante estar atrás, como mostram os indicadores econômicos”, disse, no discurso.

Jonathan também afirmou que a Nigéria está em construção e o pior já passou. “São 11 anos de poder civil, uma nova experiencia para nós. Com isso, vem a estabilidade e a construção de instituições mais fortes. O que nos dá chance de planejar e perseguir os nossos objetivos.”

Edição: Graça Adjuto