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Hora de voltar – mas a luta continua

Contando com os preparativos – que não foram poucos – a África já é parte da nossa vida há mais de dois anos.

Aqui em Moçambique, lá se vai mais de ano e meio.

Vir não foi uma decisão simples. Mas voltar também não foi.

Aqui criamos novos hábitos, aprendemos coisas novas, visitamos lugares lindos, recolhemos muito conhecimento (além de uns livrinhos, roupas muito bonitas e muitos enfeites para casa…).

Mas, principalmente, fizemos amigos. Gente que nos acolheu sem sequer nos conhecer, que nos ajudou a estabelecer uma rotina, nos acarinhou, muito nos ensinou pelo simples prazer de nos ter por perto.

E também muita gente que nunca vi, outros que nem sequer falei, mas que lêem o que escrevo no ElefanteNews, no Facebook e no Twitter, comentam de volta, e que só conheço por escrito.

Em alguns casos foi um reencontro, depois de muitos anos – real e virtual. Nova prova de que tempo e distância não atrapalham as verdadeiras amizades. E minha vida de andarilho já me mostrou mais de uma vez que são elas que ficam.

Não sei como agradecer, porque realmente não há como. Não há o que retribua a generosidade da companhia, o prazer da convivência, a alegria do compartilhar.

Tentarei assim: muito obrigado, sinceramente.

Vida que segue, diria João Saldanha. Em breve, a TV Brasil/EBC (o que me trouxe, inicialmente) vai mandar novo correspondente para a África, que também ficará baseado em Maputo.

O ElefanteNews (eduacatro.wordpress.com) surgiu de nossa vinda para cá, mas – caminante que é – vai continuar a abrir suas sendas por aí. Ele sai de férias comigo, mas deve voltar, de barba feita e banho tomado, assim que nos reestabelecermos em algum lugar.

“Em algum lugar” porque não sabemos exatamente onde será. Estamos retornando ao Brasil por razões familiares e, por isso, devemos ficar perto de onde está a maior parte da família – São Paulo. Mas é duro voltar para uma cidade deste tamanho depois de 12 anos fora. Assim, estamos vendo com calma.

Não é todo canto que aceita um elefante…

O mesmo vale para o futuro profissional. Não sei onde, mas certamente será “trombando com as notícias, sempre contra a manada”.

Ate breve.

A TV Miramar de volta ao sinal aberto

Voltou, domingo à noite, depois de mais de 20 dias de interrupção por causa de um incêndio.
E voltou mais forte, com mais qualidade e nitidez de imagem para Maputo, Matola e região.

Neste tempo todo, a TV não parou de transmitir nem um único minuto para o restante do país.

Mas é bom estar de volta para todos os moçambicanos.

Feijoada completa. Completa não; completíssima.

Feijão preto com caldo bem grosso, arroz branquinho, couve fininha, rodelas de laranja, farofa rica. Costela, carne seca e muita carne de porco: torresmo, pé, rabo, orelha, lombo, lingüiça calabresa e paio.

Quem não gosta de feijoada?

Muita gente. Se tem uma coisa com que judeus e muçulmanos tradicionais concordam é em não comer carne de porco, por exemplo. Só aí já é um grupo enorme.

No caso dos muçulmanos, é uma comida considerada “haram”. O contrário de “haram” é “halal”, como explicou a Sandra há alguns dias no Mosanblog, e eu repito aqui embaixo:

“A carne halal é a carne permitida de ser consumida para os muçulmanos. Para ser halal (que significa lícito), é preciso ter uma série de características:

- não pode ser carne de porco, cachorro e semelhantes, animais com presas, pestilentos, pássaros predadores e criaturas repulsivas;
- o animal deve estar saudável no ato do abate;
- os equipamentos e utensílios devem ser próprios para o abate halal. A faca deve ser bem afiada e permitir uma sangria única, que minimize o sofrimento do animal;
- o corte deve atingir a traquéia, o esôfago, as artérias e a veia jugular, para que todo o sangue seja escoado e o animal morra sem sofrimento;
- o abate deve ser acompanhado por inspetores muçulmanos e ser executado por muçulmano mentalmente sadio e que entenda, totalmente, o fundamento das regras e das condições relacionadas com o abate de animais no islã;

As comidas que não atendem a todas estas características são consideradas haram (que significa ilícito): carnes de porco ou outros animais proibidos, carnes de animais impropriamente mortos ou mortos em nome de outra divindade que não seja Alá (o deus muçulmano), alimentos que contêm álcool ou sejam intoxicantes, sangue e produtos derivados, comidas contendo gelatina derivada de animais.

E como é que eu sei que a comida de um restaurante ou açougue é Halal? Simples: estabelecimentos que seguem a regra tem um selo na porta. Tipo selo do SIF, do Ministério da Agricultura do Brasil. Quem tem o selo foi certificado – pode comer tranquilo.

Moçambique tem muito muçulmano. Nos quase dois anos em que estamos aqui, já são dois restaurantes que tentaram e desistiram de oferecer feijoada no cardápio.

O Tipalino, na Avenida 25 de Setembro, segue firme com a feijuca do sábado. O cozinheiro era mineiro – foi embora, mas deixou a receita. Um outro restaurante, chamado Rodízio Real também tem– é o grande chamariz da casa, ao lado – claro – do “rodízio à brasileira”. E o famoso Hotel Polana também oferece, mas só no domingo.

E tem um outro restaurante aqui de Maputo que tem feijoada dita completa – nota cinco e meio, inclusive. Mas não vou dizer o nome pra não espantar a freguesia. Além da feijoada, tem, na porta, para a tranquilidade dos consumidores muçulmanos… um enorme selo Halal.

Stanislaw Ponte Preta dizia que “feijoada completa é aquela que tem ambulância parada na porta”. Aqui precisa mais – de um selo Halal também.

PS: pesquisando essa coisa de halal/haram, descobrimos que os frangos brasileiros – largamente exportados para cá – são colocados “sob suspeita” pela Comissão Halal de Moçambique. Alô, Sadia, Perdigão, Frangosul! Leiam aqui, ó: “O Frango Brasileiro é ou não Halal?”

A grande tragédia está por vir

Antes de começar, esclareço que não vou fazer uma ode ao passado – até porque não conheci Moçambique “no passado”. Só vejo bem de perto os problemas, mazelas, desigualdades, injustiças, pobreza, etc, etc, etc, de hoje. Muitos, obra dos atual e passados governos, opções políticas e econômicas locais e globais, etc, etc, etc.

Mas muitos – muitos – diretamente deixados pelo colonialismo.

“Lourenço Marques (nome que Maputo tinha antes da independência) era linda”. “Pérola do Índico”. “Uma das poucas cidades do mundo com rede elétrica inteiramente subterrânea”. “Pujante, mas bem organizada”. “Limpíssima”.

Pode tudo ser verdade. Mas, neste cenário, viveu-se uma história – que tem efeitos sobre ele.

Se quem mantinha a cidade assim no tempo da colônia tivesse pensando no futuro dela (e não só no seu), a Maputo de hoje poderia estar, ao menos, bem mais perto disso.

Aqui, em 1975, quando houve a independência, 96% da população moçambicana era analfabeta. De maneira geral, escola era pra colono. Os poucos que conseguiram ir além disso (Mondlane, Samora, Chissano – só pra ficar nos mais famosos) trataram de lutar pra se livrar de quem os oprimia. Quem não faria igual?

As populações das colônias foram marginalizadas, exploradas, torturadas, aviltadas pelos colonizadores. E teve guerra – que só deixa perdedores sempre. Teve guerra e teimosia: no caso moçambicano, os colonizadores teimaram em não sair até o fim, impossibilitando que o país se preparasse para tomar conta de si próprio.

Até mesmo depois de anunciado o acordo pela independência, fechado em Lusaka, houve o episódio da tomada da Rádio Moçambique pelos portugueses inconformados. Muita gente morreu, e a resistência gerou resistência: o novo governo, socialista, endureceu as circunstâncias para os portugueses que queriam ficar. Foi instituída a famosa lei “20/24″ – quem quis ir, só pôde levar 20 quilos de pertences, e deixar o país em 24 horas.

Ponha racismo – de lado a lado – por cima de tudo.

Logo depois, veio a nacionalização. Logo depois, veio a guerra civil. Logo depois, veio a abertura para economia de mercado. Logo depois, veio hoje. É assim, rápido mesmo.

E hoje… bem, hoje quem conta é o jornal A Verdade, texto aí debaixo – que justifica o título do post. Reportagem publicada nesta quinta-feira, 28 de julho de 2011.

36 anos a Degradar

Moçambique assinalou no passado dia 24 de Julho a passagem dos 36 anos das nacionalizações. Esta medida foi tomada pelo primeiro Governo pós-independência chefiado pelo então Presidente Samora Moisés Machel e tinha como objectivo conceder ao povo moçambicano o direito ao acesso à educação, justiça, saúde e habitação.

No que diz respeito à habitação, a partir de 1975 qualquer moçambicano ou estrangeiro residente em Moçambique passou a ter direito a ser proprietário de uma casa, mas em contrapartida perdia o direito de arrendar uma residência a outrem.

De forma a garantir uma boa organização, o Governo assumiu a gestão das casas que estavam arrendadas nessa altura, criando para tal uma empresa denominada Administração do Parque Imobiliário do Estado (APIE), em 1976.

Porém, decorridos 36 anos após o processo, surgem sinais do fracasso da medida. Um dos erros cometidos pelo Governo ao tomar esta medida foi o de não ter definidoas normas para que um cidadão tivesse direito a uma residência.

Alguns dos requisitos que deviam ter sido acautelados na altura tinham que ter em conta a renda da pessoa, a capacidade financeira para garantir a manutenção do edifício, os critérios para a perda do imóvel no caso de incumprimento de algumas obrigações, entre outros, o que não aconteceu e o resultado é o estado avançado de degradação em que se encontram os edifícios. Este cenário podia muito bem ter sido evitado caso as precauções acima descritas tivessem sido tomadas.

A falta de mecanismos claros na atribuição dos imóveis tem resultado em despejos constantes, tendo em conta os casos que têm sido reportados pela comunicação social, a falta de observância das normas de postura urbana, e a degradação dos imóveis que acaba por manchar, de certa forma, a imagem da nossa cidade das acácias, Maputo.

Edifícios decadentes

Alguns edifícios estão a cair aos pedaços e perderam a sua cor devido ao tempo, o que significa que não beneficiam de uma manutenção regular há mais de 20 anos. Casos há em que os prédios não sofrem intervenções desde a independência.

Outro dado que merece uma profunda reflexão é o caso dos espaços comuns, nomeadamente as escadas, terraços, garagens, etc. É normal encontrar edifícios com escadas imundas e sem iluminação, elevadores avariados e, não raras vezes, transformados em lixeiras. Em relação a estes meios, o caso é mais gritante. Mais de 80% (estamos a ser modestos) dos edifícios não têm os seus elevadores funcionais. A ferrugem tomou conta deles.

Um aspecto muito preocupante, por representar um perigo à saúde pública, é o entupimento das fossas e dos esgotos, o que faz com que as águas pluviais tomem de assalto os passeios e as avenidas da cidade exalando um cheiro nauseabundo.

Estado impotente

Este é um dos sectores em relação ao qual o Estado não consegue (?) impor ou fazer cumprir as regras. Os condóminos agem como que destituídos das mais elementares normas de urbanidade. Eles fazem modificações nos imóveis sem consultar as autoridades competentes. Quando as autoridades descobrem, recorrem ao uso da coercibilidade que lhes é conferida por lei.

Todos os edifícios encontram-se gradeados como se de prisões se tratasse, facto que já foi condenado pelo Serviço Nacional de Salvação Pública pois representa um perigo e obstáculo em caso de incêndio ou qualquer tragédia. A questão da segurança é o principal motivo evocado pelos seus mentores.

A falta de uma entidade fiscalizadora ou a incapacidade desta faz com que sejam construídas dispensas nos terraços, o que põe em risco a estrutura do edifício e, por conseguinte, a vida das pessoas pois a construção de um edifício obedece a regras e limites (peso e altura).

A falta de associações de moradores, designadas condomínios, ou o desrespeito pelas que existem tem dificultado a solução de alguns destes problemas. A acção destas resolveria algumas questões tais como o deficiente sistema de canalização, e das instalações eléctricas, pois alguns prédios têm sido privados de água devido às dívidas resultantes do consumo do líquido precioso.

As associações que já existem queixam-se da falta de cumprimento das obrigações por parte de alguns condóminos. Estes recusam-se, por exemplo, a pagar as quotas mensais, embora beneficiem dos serviços prestados pelas associações.

Alguns proprietários, para contornar a falta de condições para a manutenção dos imóveis, têm colocado os mesmos à venda ou arrendam-nos a terceiros, mas o problema é que nenhuma parte do valor proveniente desta acção é direccionada à melhoria das condições dos imóveis.

Para o arquitecto José Forjaz, esta data é de grande importância para a história do país mas considera que o processo das nacionalizações não foi de todo “um mar de rosas”. Forjaz diz que as suas consequências foram sérias pois o processo foi ambíguo. Deu como exemplo o facto de o mesmo “ter prejudicado pessoas em benefício de outras devido à falta de preparação, o que resultou numa grande confusão na atribuição das casas. Foi uma medida política tomada sem nenhuma preparação, impôs-se um sacrifício às pessoas”.

Que medidas deviam ter sido tomadas?

Não se mediram as ferramentas técnicas que deviam ter acompanhado o processo, e os resultados foram/ são contraproducentes. Por isso hoje em dia não conseguimos medir as consequências sociais, económicas e políticas das decisões que tomámos.

Isso faz com que não se alcance o objectivo pretendido. Perdeu-se o impacto das nacionalizações. O impacto foi menor que o esperado. Foi uma decisão tomada por cima do joelho.

Que consequências isso trouxe?

As consequências foram várias. A positiva é que com esta medida o Governo mostrou ao povo moçambicano que se preocupa(va) com o seu estado (leia-se habitação).

E as negativas?

Primeiro, não foram criados mecanismos necessários e suficientes para garantir a durabilidade dos edifícios, o que acelerou a degradação das infra-estruturas. Houve uma ambiguidade durante o processo.

Se por um lado havia prédios na zona urbana a serem nacionalizados, havia, por outro, palhotas que não reuniam condições técnicas para tal, mas, mesmo assim, foram sujeitas à mesma medida. Segundo, devido a essa falta de transparência, houve pessoas sem escrúpulos que se apoderaram de residências porque não havia critérios.

Os prédios reúnem condições de habitabilidade?

Não, e isso coloca em risco a estrutura do edifício e, consequentemente, a vida das pessoas.

Porquê?

Não foi criado um espírito de civilidade. As pessoas deviam ter o prédio como seu e isso significa garantir a sua manutenção, assegurar o funcionamento dos elevadores, a iluminação nas escadas, o pagamento dos guardas, entre outros aspectos que não foram acautelados na altura das nacionalizações.

E em relação ao sistema de saneamento?

Pode parecer ridículo mas grande parte da cidade não tem um sistema de saneamento e drenagem. Para que essas condições existam (construção e manutenção) é necessário que alguém pague, e custa caro, principalmente nas cidades que estão em zonas planas, como Maputo.

Mais, o mais estranho é que mesmo com essas dificuldades a cidade funciona. O nosso município tem um orçamento estimado em 15 dólares por habitante por ano quando há cidades no mundo cujo orçamento é de 1000 dólares por pessoa por ano.

Quando é que deve ser feita a manutenção de um edifício?

A pintura tem de ser feita num intervalo de cinco a sete anos. As instalações (água, luz, gás) devem ser substituídas de 15 em 15 anos. É preciso fazer a verificação regular do estado das ferragens, das portas e do pavimento. Há edifícios que não beneficiam de uma manutenção há mais de 50 anos. A ausência destes cuidados contribui para a degradação dos edifícios. A solução dos problemas deve ser imediata porque custa mais caro reconstruir do que manter, mas as pessoas não pensam nisso.

Mas isso deve-se também à ausência da mão dura do Estado. Há cidades em que os edifícios degradados pagam mais impostos. O Estado deve impor um prazo para que um edifício seja reconstruído ou reabilitado. O mesmo acontece em relação aos terrenos. Há terrenos desocupados há mais de 20 anos, mas não podem ser parcelados porque têm proprietários.

O que tem a dizer em relação ao problema da habitação com que a sociedade se debate?

Não podemos ter o problema de habitação resolvido com as taxas de juros a rondar os 20%. Enquanto as taxas de juro forem altas dificilmente teremos o problema resolvido. Quem ganha 2 mil dólares por mês não pode sonhar com uma casa própria.

Quanto custa uma casa?

Não existe um valor mínimo. Aqui funciona a lei da procura e da oferta. Há maior procura e pouca oferta. Posso dizer que se trata de especulação. Há casas que custam 20 mil dólares, assim como há aquelas que custam 1 milhão de dólares. Temos o caso da cidade de Tete como exemplo.

Porque defende a ideia de que a cidade devia crescer em altura?

Porque isso permite que tenhamos uma cidade organizada e dinâmica. Não podemos ter uma família a ocupar um terreno com 50 por 20, por exemplo. Nesse espaço podemos construir um prédio que acomode mais de 20 famílias. A cidade é feita de convívio entre os seus moradores, é por isso que temos cidades caras como Nova York, Tóquio, Londres, Berlim, Paris. A cidade iria acolher mais pessoas e isso significa mais receitas para o Estado.

As pessoas não têm capacidade para fazer a manutenção

As nacionalizações precipitaram, para além de degradação dos imóveis, outro fenómeno curioso: as construções nos terraços dos prédios. @Verdade saiu à rua e colheu a opinião dos cidadãos.

“O terraço é uma zona não edificante, restrita à utilidade pública e de segurança, entre várias situações; em caso de ocorrer um incêndio é por lá onde se faz o resgate das pessoas, uma vez que hoje as varandas estão `supergradeadas´”, afirma o cidadão Macucule. Aliás, “essas construções põem em risco a segurança dos moradores e do próprio prédio, e perturbam o sistema de evacuação da água e de esgoto.”

Definitivamente, diz, a construção nos terraços é um atropelo à lei, por isso a edilidade não deve licenciar a realização dessas obras como forma de salvaguardar a segurança dos próprios munícipes. Mas: “em caso de necessidade de uso pode-se ocupar no máximo 25% a 50% do terraço não para fins habitacionais, mas como área de apoio ao apartamento para armazenar alguns bens de baixo porte”, sublinhou.

Apesar disso, para Macucule a construção nos terraços não pode ser vista apenas como problema, mas também como solução doutro problema urbanístico, pois enquanto a pessoa constrói e habita nesse terraço continua a beneficiar das facilidades que a cidade oferece; o mesmo pode não acontecer em caso de morar fora da cidade onde devem ser criadas infra- -estruturas que liguem as pessoas à vida da urbe.

Outro problema, diz, é que isso denuncia a rejeição deliberada do sistema urbano herdado dos portugueses construído num outro plano de conjuntura social. Já que, até hoje a edilidade não se preocupou em ajustá-lo à actual realidade e exigência social, as pessoas tendem a actualizá-lo por si mesmas.

Entretanto, “há a necessidade de se rever ou mesmo mudar o mecanismo de planeamento da cidade e, acima de tudo, reflectir-se sobre que cidade se pretende no futuro”, concluiu.

“A origem destas construções assenta na pobreza e na incapacidade de gestão dos conselhos municipais. O arquitecto aponta a

criação de um sistema de controlo a nível dos bairros como solução para o problema. Mas antes defende o levantamento do número de construções existentes. “Estas edificações são fáceis de se erguer e difíceis de se destruir”, explica.

O outro problema mais difícil é o da habitação , sobretudo em Maputo, motivado pelo elevado índice de pobreza rural e urbana, que só terá solução quando o nível de vida subir para toda a gente, pois (hoje) há gente a ficar cada vez mais indigente, enquanto outros se tornam abastados.

Em geral, essas construções são algo precárias e os edifícios altos são desenhados com margem de segurança, daí que se esteja provavelmente ainda longe de perigo iminente. No entanto, para uma resposta cabal e responsável é necessário analisar-se caso a caso.

Trinta e seis anos passam depois que o Estado moçambicano nacionalizou o parque imobiliário. No entanto, o grau de conservação dos imóveis deixa muito a desejar. Alguns edifícios clamam por uma urgente reabilitação de raiz.

Outro denominador comum é o estado dos telhados e terraços, dos quais pouco ainda se pode ver senão vestígios que permitem apenas testemunhar que algum dia foram dignos dessa designação.

Janelas sem vidros nem rede e deficiente sistema de esgoto, drenos e fossas que libertam excrementos nos mesmos espaços de que o homem se serve para circular, bem como conferem à cidade um cheiro bafiento, constituem outro retrato negativo da cidade.

Na fileira de edifícios assentes ao longo da avenida Eduardo Mondlane, a escassos metros da esquina com a Guerra Popular, o capim e plantas trepadeiras têm lá o seu abrigo.

João Fumo apela para que se encontrem soluções para pôr as casas em condições, porque as pessoas que outrora habitavam nelas tinham uma capacidade financeira 30 vezes maior do que estas que hoje as ocupam. “O seu rendimento não é suficiente para substituir o vidro partido, pintar as paredes, reabilitar aqui e ali”, sublinha.

Por exemplo, “quem ganha dez mil meticais de salário, que é três vezes mais do que o salário mínimo, ao cuidar da alimentação, do vestuário, do transporte, da educação e da saúde, sinceramente, nada lhe resta para olhar pela casa”, conclui.

Em suma: analisando o problema de uma forma bastante realista, Maputo é um mundo perdido – ou pelo menos uma cidade perdida onde a magnificência do seu passado é evidente em todo o lado.

Fogo danifica transmissor da TV Miramar em Maputo

Ainda não há uma previsão de quando o sinal aberto voltará a ser transmitido para a capital do país, Maputo, e a vizinha Matola.

A operação continua normalmente via TV Cabo e Startime, além de via satélite, que leva o sinal para todo país e os 14 vizinhos da África Austral.

O fogo danificou o transmissor, que fica no alto do edifício do Comitê Central da Frelimo. Também foi atingido o equipamento da Rádio Miramar 101,4 FM.

A Rede Record tem experiência em levantar-se de incêndios. A Miramar sairá desse episódio ainda mais forte.

Massa depois do almoço

Cuidado com esse troço de “mão inglesa”: quando você acha que já se acostumou a dirigir com o volante do outro lado, é que vem a bobagem. Não dá pra relaxar.

Voltando do almoço hoje, fiz a baliza e nem olhei pro lado adequadamente. Ao tirar o carro da vaga, bati no carro do lado. Uma raspadinha, mas o suficiente pra deixar um risco branco na porta do vizinho – que nem estava lá.

Salto do carro, e vem o flanelinha: “Tá tudo nice, patrão! Tudo controlado.”

Eu nem abro a boca, e ele já tira da bolsa um tubo de massa escura, aquelas de funileiro/lanterneiro/bate-chapa, ajoelha do lado do carro, tira um pano de lá de dentro e manda ver.

Um minuto depois, chega o motorista do dono do carro. Antes que ele diga algo, o flanelinha repete que “tá tudo nice, tudo controlado”. O cara nem fala nada.

Mais um minuto, e o flanela ergue-se, vitorioso. “Viste, patrão? Falei que aqui não ‘fatcha’ nada”, no sotaque típico daqui do sul moçambicano, que transforma “lh” em um som parecido com “tch”.

E não fatchou mesmo. Em três minutos, minha barbeiragem deixou a porta do carro do cara mais limpa. E meu bolso também – 100 meticais, que o “patrão” pagou sem reclamar.

Afinal, tava tudo nice, pá. Tudo controlado.

O que fica é a vida

A cultura moçambicana dá muito peso ao momento da morte – como, também, várias outras culturas africanas.

Quem perde o pai ou a mãe fica vários dias sem trabalhar. Por causa da tristeza e, também, das cerimônias fúnebres, que reúnem a família, a vizinhança, os amigos.

Por isso tudo, foi de certa forma surpreendente, aqui, a despedida da Mariana.

Ela morreu ontem, em casa. Portuguesa, vivia em Moçambique há muito tempo. Era dona do restaurante que batizou um sanduíche com o nome do meu sobrinho (a tia, orgulhosa, contou a história aqui, no Mosanblog.)

Mariana estava com câncer, mas nós não sabíamos. Falante, sempre alegre, nunca deu nenhum sinal. Quando chegou a notícia, no fim da tarde de ontem, foi uma surpresa.

O marido, Jorge, despediu-se como Mariana pediu: de forma rápida, simples, discreta. Não avisou ninguém – só soube quem, de um jeito ou de outro, o ajudou desde quando ela faleceu, menos de 15 horas antes.

Quando chegamos no cemitério do Lhanguene, o crematório – “Crematório Hindu”, dizia a marca na porta – estava vazio.

Logo depois veio o carro da funerária, trazendo o motorista, o Jorge, e um caixão simples, de madeira prensada, pintado de cinza azulado. Três rapazes tiraram o caixão do carro e o colocaram em um carrinho de ferro, já em frente ao forno.

O forno é uma construção grande, que lembra a imagem que temos de uma caixa-forte de banco, com portas pesadas que se encontram no meio.

Não havia flores, cadeiras, nada. Jorge olhava, sozinho, no canto, com os olhos molhados.

Algumas pessoas conhecidas chegavam, e cumprimentavam o Jorge sem dizer muita coisa. Nisso, os rapazes do cemitério começaram a colocar toras de madeira sob o caixão. Alguns pedaços de tronco também foram dispostos por cima.

Ao lado, no jardim, uma fogueira já ardia. Um dos rapazes foi lá e, com uma pá comprida, pegou um pouco dos brasas incandescentes.

“Um familiar, por favor”, disse o homem, entregando a pá ao Jorge. Foram as únicas palavras da cerimônia.

Jorge pegou a pá e colocou sob o caixão, como indicado pelo funcionário. Logo, outra pá de brasas foi depositada no outro lado do caixão, e uma fumaça esbranquiçada começou a subir.

Em três, quatro minutos, o caixão começou a arder. Então, os funcionários empurraram o carrinho para dentro do forno. Enquanto a porta fechava, as labaredas envolviam o caixão em uma luz alaranjada.

Não houve prece, reza, discursos, despedidas. Só o silêncio.

Em dez minutos, em meio à dez pessoas se tanto, saí do crematório lembrando das gargalhadas na Mariana, do sanduíche da Mariana, do pouco que convivi com ela. Da morte, nada.

O que ficou, foi da vida.

Maningue audiência, pá!

“Maningue” é gíria moçambicana para “demais”, “bastante”, “um montão”.

Acho que se enquadra ao resultado do Balanço Geral no último dia 15.

O nosso Ernesto Martinho tem só cara de bravo. E, detalhe: é formado em Relações Internacionais.

Pois é, Datenão. Aqui em Moçamba também tem gajo que manda por na tela. Ali, ó…

O polvo morreu, é? Morreu pra você, filho ingrato

A piada é velha, mas como sempre tem gente que nunca ouviu, eu repito.

O Velho Político Populista chega para mais uma visita ao interior. E, ao descer do carro, encontra com o filho de um velho correligionário que – claro, ele não lembra quem é.

“Olá, doutor. O sr. lembra de mim, né?”

O Velho Político Populista usa de um velho truque para não passar vergonha:

“Claro! Você é filho do…. do….”

“Wilson!”, diz o rapaz.

“Claro, do Wilson, velho amigo. E como ele vai?”

O filho do Wilson faz cara de triste. Olha bem nos olhos do Velho Político Populista, e com expressão de choro, diz:

“Ele morreu, doutor. O senhor até mandou flores!”

Sem perder a pose, o Velho Político Populista arremata, cortando o choro do jovem:

“Morreu pra você, filho ingrato. Porque ele continua vivo nos nossos corações”.

Isto posto: você lembra do Polvo Paul, que ficou famoso há exatamente um ano, durante a Copa do Mundo, porque previa os resultados dos jogo?

Pois é: morreu pra você, filho ingrato. Porque continua vivo no coração, no consultório e na conta bancária do Dr. Mwanaxiipeta.

Dr. Mwanaxiipeta é curandeiro aqui em Maputo. E prevê o futuro com a ajuda do polvo – como você vê aí embaixo, no anúncio publicado no jornal O Público.

E, a quem interessar possa, como todos – todos – os curandeiros, Dr. Mwanaxiipeta também promete “aumentar o sexo ao tamanho de sua escolha e preferência”.

Caso não leve fé no polvo do dr. Mwanaxiipeta, veja, do lado, o anúncio do Dr. Mucuru.curu. E experimente a Sopa Zunga que – rá! – “aumenta rapidamente o sexo masculino ao tamanho de sua escolha”. Sem contar que dá “protecção aos dentes, tira o mal cheiro da boca e trata impotência sexual.”

 

 

Tribunal Tradicional para Feiticeiros

Hoje o texto é do coleguinha Albino Moisés, que escreve uma coluna no jornal Notícias.

Para que não haja dúvida:

a) “chapa 100″ vem entre aspas porque, aqui, é o nome popular das vans do transporte (de acordo com a denominação legal) “semi-colectivo”. Eu chamaria de “semi-transporte”, porque o povo é carregado como gado;

b) “Régulo” é a autoridade tradicional de uma determinada região. Eles tem poderes (até hoje) para resolver questões relacionadas à comunidade. São consultados até quando o Estado vai destinar terras para um empreendimento novo (lembre-se que aqui não há propriedade privada da terra O estado faz concessões de uso). O régulo mostra onde não pode receber construção por ser um cemitério, por exemplo.

c) “Machamba” é plantação, área agrícola familiar. Fazendão do agronegócio é “farms”.

d) “tungululo” ou “kulungwana” são aqueles gritos de alegria típico dos muçulmanos, bem agudos, também muitos cimuns aqui também.

Vencido o glossário, tem a palavra o convidado… em texto tal e qual copiado do jornal.

“Na minha aldeia — Majaua em Morrumbala — nunca se morre de morte natural. Qualquer morte é tida como tendo sido orquestrada por alguém: o feiticeiro.

O feiticeiro é o ponto de partida para todos os falecimentos que ocorrem na povoação. Mesmo na idade dourada de oitenta, noventa ou até “chapa 100″, os familiares do finado sempre colocam as garras do feiticeiro na berlinda. E quase sempre toda a morte tem envolvimento e conivência directa de um familiar próximo identificado: uma tia, tio ou avô (materna ou paterna).

E havia acusações indirectas e outras até directas às pessoas que se acreditavam terem praticado o feitiço contra outrem. Algumas acusações eram mesmo directas: batiam na porta do feiticeiro e atiravam-lhe na cara: “tu mataste o nosso filho, devolva-lhe já a vida, ou então seguirás tu também pelo mesmo caminho!”. E se o acusado se mostrasse indignado, então ele lançava um “repto” para provar a sua inocência.

Seguidamente, iam ao “mwene” (régulo) comunicar a acusação ao mesmo tempo que pediam autorização (sempre irrecusável) para levar a cabo o rito tradicional denominado “muavi”. Nele o acusado era desafiado a beber uma poção de raízes que só vomitava quem de facto fosse inocente. No caso contrário a morte era certa!

E esse tribunal tradicional não só se destinava a dirimir casos de suspeita de morte por feitiçaria, mas igualmente servia para atender roubos nas machambas e até cenas de amantismo. Especialmente para problemas sem provas materiais e que não houve flagante delito, então todos os “indiciados” eram levados ao tribunal de “muavi”.

A sessão era anunciada na povoação através do rufar vigoroso dos tambores. Fixava-se uma hora de realização. A sessão pública atraía muitos mirones, arrastando até aldeões circunvizinhos. Como era um assunto social que andava na boca do povo, então a casa do curandeiro lotava completamente, já que, por regra, as pessos gostam sempre de saber da vida alheia.

Na hora, o povo se reunia em volta dos acusados, queixosos e “corpo de juízes”. A cermimónia iniciava com todo aquele salamaleque dirigido ao curandeiro que orientava o acto de vida ou morte. O acusado de ser feiticieiro, antes de lhe darem a poção fatídica para tomar, primeiro ele prestava um juramento acerca da sua inocência: “juro por minha ohonra que eu sou inocente e desafio a todos aqui presentes a minha inocência, bebendo desta poção que me será servida dentro de instantes. Se eu for um feiticeiro, que eu também morra imediatamente, mas se não matei ninguém, então que eu vomite, provando ma minha inocência. De seguida era-lhe dado o copo para beber diante da multidão.

Se no acto público o acusado vomitasse, isso provava indiscutivelmente a sua inocência. O vómito significava que o suspeito “sacudia o capote” todas as queixas sobre os seus ombros. Naquela hora, a ala de familiares que também defendia a sua inocência jubilava com palmas e “tungululo” (kulungwana para a região sul). A alegria era porque a pessoa recuperava a sua honra e reputaç]ao,mas tambem porque receberia indemnização pela acusação infundada, geralmente paga com uma machamba ou mesmo em dinheiro.

Todavia, para aquele que bebesse do veneno e o seu estômago aceitasse acomodá-lo tranquilamente e não vomitasse, então caía inerte. O seu corpo era exibido a todos como um troféu e ainda como prova manifesta de quem tinha comido carne humana!”