Lamola na Agência Brasil


Aqui a versão
da reportagem sobre os craques que o apartheid impediu de brilhar no exterior.

Fiquei emocionado de conversar com o Lamola, no jardim da gigantesca SABC, South Africa Broadcasting Company. 15 rádios e 5 emissoras de TV no mesmo prédio. E ninguém fala em “desperdício de dinheiro”. É serviço público. Como o nosso da TV, da Agência e das emissoras de rádio da EBC.

5/06/2010
Apartheid deixou África do Sul fora de competições internacionais por mais de 30 anos

Eduardo Castro
Correspondente da EBC na África

Joanesburgo, África do Sul – Por causa da política racista do apartheid, a África do Sul foi impedida de participar das competições internacionais de futebol por mais de 31 anos – entre 1961 e 1992. O banimento atingiu em cheio as carreiras de muitos atletas que nunca puderam defender seu país em copas do Mundo, Olimpíadas ou campeonatos continentais.

Peter Balac, Jomo Sono (o primeiro a ser chamado de Pelé africano), Patrick “Ace” Ntsoelengoe, Nelson “Teenage” Dladla, Jingles Perreira, Joel “Ace” Mnini, Sylvester “City” Kole, Marks “Go man go” Maponyane, Johannes “Ryder” Mofokeng são alguns dos nomes conhecidos praticamente apenas pelos fãs sul-africanos.

Apontado por muitos comentaristas como o meio-campista mais inteligente da história do futebol da África do Sul, Vusi Lamola – apelidado de “Computer”, computador, graças à velocidade de raciocínio – lamenta até hoje não ter tido a chance de brilhar em jogos internacionais.

“Se não fosse o apartheid, eu teria tido a chance de jogar no exterior, talvez na Europa ou até no Brasil”, diz. “Hoje, sou pastor evangélico e tenho problemas financeiros. As coisas não estão equilibradas. A falta de oportunidades maiores me afetou para sempre”.

Quando o apartheid foi implantado como política de Estado, em 1948, a África do Sul tinha quatro ligas separadas: uma branca, uma negra, outra mulata e uma indiana. Na seleção nacional só brancos podiam jogar. A regra que impedia contratações interraciais caiu em 1956, mas, na prática, não funcionou.

Em uma nova carga contra o racismo, em 1961 a Federação Internacional de Futebol (Fifa) suspendeu a África do Sul das competições internacionais. O país passava por um momento político delicado. Um ano antes, 69 negros morreram e 180 ficaram feridos durante um protesto em Sharperville, quando a polícia abriu fogo contra manifestantes. Em seguida, o movimento negro Congresso Nacional Africano (CNA) foi banido.

Graças ao episódio, a CNA intensificou sua ação contra o apartheid, mas deixou de promover apenas ações pacíficas. Em 1962, as Nações Unidas aprovaram uma resolução condenando o apartheid e pedindo aos países-membros que cortassem relações diplomáticas com a África do Sul.

Em 1964, o líder político Nelson Mandela foi condenado à prisão perpétua. Ele ficaria preso por 27 anos, só deixando a cadeia com o fim do apartheid, para ser eleito o primeiro presidente negro do país.

Como nada mudara, a Fifa decidiu então expulsar a África do Sul de seus quadros em 1976. Na mesma época, o país vivia mais uma onda de violência, depois que um protesto de estudantes de Soweto contra a obrigatoriedade de estudar a língua dos brancos – o afrikâner – foi reprimido firmemente pela polícia, o que gerou revolta e mais de 100 mortes em todo o país.

Lamola lembra que, nessa época, o futebol era mais que uma modalidade esportiva. Era uma forma de protesto. “Nós fomos muito oprimidos”, diz. “Usávamos os jogos contra os brancos para mostrar a eles que eramos capazes, que não deveríamos ser discriminados”.

A maior parte da carreira de Lamola, entre os anos 70 e 80, foi vivida com a camiseta amarela e preta dos Kaizer Chiefs, time mais popular do país, surgido no bairro de Soweto, centro da resistência negra contra o racismo. Ele chegou a jogar no Canadá em 1981, mas a liga faliu e ele voltou para a África do Sul depois de quatro meses, só aumentando a frustração.

Além de pastor evangélico, Lamola também ensina futebol para garotos do Soweto e comenta jogos em uma das 15 emissoras da rádio pública da África do Sul – a Rádio 2000. Ele diz ter ficado muito feliz ao ver o país inserido no cenário do futebol mundial, ao abrir a Copa do Mundo na sexta-feira passada (11), quando empatou com o México em 1 a 1.

“É empolgante porque, para mim, é uma forma de dizer que o apartheid não vai ficar aqui para sempre”, emociona-se Lamola. “Fico orgulhoso porque vi o poder do esporte, que fez uma coisa que os políticos não podem fazer: quebrar a barreira que nos mantinha separados, com todos torcendo pela África do Sul.”.

Para Lamola, a Copa já é um imenso sucesso, pouco depois de começar, só pelo que fez para unir ainda mais o país. Ganhar ou perder é só um detalhe. “Nós seremos ouvidos como uma só voz, uma só nação. E acredito que esse clima não vai existir somente durante a Copa do Mundo. Isso vai ficar. Esse é o meu desejo.”

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