Bom. Mas para poucos.

Ao longo de toda Copa temos mostrado os contrastes de Joanesburgo e da África do Sul como um todo. Lembra o Brasil: em desenvolvimento, mas algo que não chega para todos.

A diferença – entendo eu – é que os sul-africanos começaram a implementar medidas para fechar esse buraco entre quem pode tudo e quem só pode sonhar antes de nós. Meritocracia sim; mas desde que todo mundo tenha a oportunidade de começar a disputa no mesmo ponto. Tanto aqui na África quanto no Brasil é preciso fazer algo pra colocar todo mundo alinhado para a partida. E aqui fazem há mais tempo.

Só assim é possível dizer que a competição é justa e ganha só quem tem mais mérito.

Costumo dizer que sou o privilégio em forma de gente: homem, branco, paulista, paulistano, estudei só em escola particular, sempre tive plano de saúde, fiz esporte no clube privado, minha família é estruturada. Graças a tudo isso, pude fazer intercâmbio adolescente e aprender duas línguas estrangeiras; entrei em duas faculdades privadas, escolhi minha profissão. Mais adiante sempre pude contar com minha família em qualquer aspecto: conselhos, experiência, recursos.

Se eu não chegasse onde quisesse, seria por vagabundagem ou muita incompetência. Acho que cheguei onde pretendia, e logo. Mas, sinceramente, meu único mérito foi cumprir minha obrigação.

Quantos outros – mais talentosos, inteligentes ou esforçados do que eu – infelizmente não conseguiram alcançar seus sonhos porque largaram quilômetros atrás de mim? Mérito meu? Culpa deles? Certamente não.

Vinícius escreveu uma reportagem para a Agência Brasil que mostra como esse contraste afeta a percepção da importância da Copa estar sendo aqui. Leia e veja as fotos, do Marcello Casal.

04/07/2010
Desigualdade reflete envolvimento de sul-africanos com Copa do Mundo

Vinicius Konchinski

Enviado Especial

Joanesburgo (África do Sul) – Joanesburgo é uma das três cidades mais desiguais do mundo, segundo o Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos (UN-Habitat). As diferenças entre as condições socioeconômicas de sua população são evidentes. Influenciam até na forma com que as pessoas que vivem ali enxergam e se envolvem com a Copa do Mundo sediada pela África do Sul.

Apesar de a alegria motivada pela recepção do torneio ser quase unânime entre os sul-africanos, dependendo da área de Joanesburgo e da situação em que vivem os seus habitantes, percebe-se uma aprovação maior ou menor do Mundial. Enquanto moradores de áreas mais nobres vibram com a realização da primeira Copa em um país do Continente Africano, quem vive em locais mais pobres duvida dos seus benefícios.

Essa diferença é percebida até mesmo dentro de determinados bairros da cidade. Em Soweto, por exemplo, negros que conseguiram emergir economicamente após o fim do apartheid vêem a Copa como uma conquista sul-africana. Já os que sofrem com o desemprego e falta de infraestrutura básica dizem que o torneio não representa nada para eles.

“Eu pensava que a Copa traria alguma coisa boa. Mas até agora, nada”, diz Nelly Ntubi, moradora de uma das favelas de Soweto, a Holomisa Camp. Ela mora com outras dez pessoas, quatro delas crianças, em uma casa construída por seu próprio marido usando lâminas de metal. De todos os membros de sua família que dividem a mesma moradia, só ele tem emprego. Nenhum, contudo, tem acesso à água tratada, esgoto ou eletricidade. “Não tenho nem como assistir aos jogos”, afirma ela. “Para mim, a Copa não significa nada.”

A alguns metros da casa de Nelly, porém, outra moradora de Soweto tem uma visão bem mais otimista sobre o Mundial. Beauty Shezi é recém-aposentada e proprietária de uma casa confortável perto de uma das entradas do bairro, num local chamado Diepkloof Extension. Ela afirma não ser fã de futebol, mas acompanha o torneio, principalmente o desempenho das seleções africanas. Para Beauty , a Copa é a chance da África do Sul mostrar ao mundo que as histórias de segregação racial e a violência ficaram para trás. “Todo mundo que vier para cá vai saber que o apartheid é passado. Há um preconceito contra o país. A Copa vai ajudar a acabar com ele.”

Sobre as desigualdades na África do Sul, Beauty acha que isso ainda é um problema a ser solucionado. Para ela, a falta de trabalho e educação acabam empurrando seus compatriotas para a pobreza. Ela espera, entretanto, que o Mundial ajude a resolver isso. “A Copa está gerando empregos e pode dar alguma ajuda a essas pessoas.”

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