Massacre, genocídio

Em 1996 fui enviado a Eldorado dos Carajás, no interior do Pará, para cobrir o massacre dos trabalhadores sem-terra. Eu era um menino – tinha 22 anos, e foi minha primeira grande cobertura nacional. Inesquecível por isso. Mas não só.

Logo ao chegar pela estrada, vindo de Carajás, a tal “Curva do S” tinha velas dos dois lados da pista. Foi ali que os trabalhadores rurais foram encurralados pela polícia. Uma imagem difícil de esquecer.

Era uma quinta-feira. O massacre foi na terça. A notícia levou um dia pra sair daquele canto do mundo e chegar às redações. Quando eu cheguei, os corpos já estavam no IML de Marabá, para serem identificados e periciados.

Foram liberados só dois dias depois, no sábado. Vieram em cima de um caminhão, cobertos com bandeiras do MST. Quando ele parou, subi no estribo de trás da carroceria e vi os caixões um do lado do outro. Não fui o único, claro. Sebastião Salgado imortalizou esse momento com um foto preto e branco, lindíssima, que correu o mundo – e está aí em cima.

Algumas horas depois, do velório, entrei ao vivo na Rádio Bandeirantes por um telefone rural (não tinha celular na região na época). Sob minhas palavras, apareceu um som diferente, constante, quase um zunido. Antes de entrar no ar, o técnico me perguntou se eu podia sair de perto da máquina que estava causando aquele som. Só que não era máquina – era o choro das mães, esposas e filhas dos mortos naquela chacina.

Dezenove caixões foram espalhados pelo salão de festas da igreja local, que não passava de uma cobertura e estacas no chão de terra. Tarde, perto das 11 horas, um dos líderes dos sem terra (se eu não estiver muito enganado, o Gilmar Mauro) pega um microfone lá e diz “gente, eu sei que vai ser difícil pra todo mundo, mas nós vamos ter de abrir os caixões pra fazer a identificação”. Alguns estavam tão desfigurados que olhar pelo vidro do caixão não adiantava.

Quando as tampas foram erguidas, um cheiro fortíssimo, nauseante, tomou conta do espaço. Os corpos já estavam há dias esperando por liberação em Marabá; quando chegaram já haviam se deteriorado. Esse cheiro está na minha memória até hoje.

Uma cobertura marcante, determinante na minha carreia e também na minha vida. Naquela época, como diria Renato Russo, o Eduardo aqui ainda estava no esquema de escola, cinema, clube, televisão. Escola privada e paulista, diga-se. Pará, sem terra, massacre… tudo isso era outro mundo. Foi a partir dessa cobertura que saquei que não era. Era o mundo em que eu vivia, e eu é que não conseguia ver.

Ponto. Parágrafo.

Em 6 de abril de 1994, hutus descontentes com um acordo fechado com a oposição tutsi para acabar com a violência entre as duas etnias derrubaram o avião em que viajava o presidente aqui de Ruanda (e o presidente do Burundi também). Horas depois, o Exército e hutus descontrolados saíram estuprando, violentando, torturando e matando todos os tutsis (e também hutus moderados) que encontravam no caminho.

Aqui, mais sobre o massacre em uma das matérias que escrevi sobre as eleições aqui em Ruanda na Agência Brasil. Aliás, o presidente Paul Kagame (oh, que surpresa!) foi reeleito com 93% dos votos).

Os ataques começaram por Kigali e foram subindo pelo país. Sentido que a coisa estava mesmo sem controle, os tutsis (minoria) tentavam se proteger em conjunto. Majoritariamente cristãos, lotaram igrejas, buscando proteção. A princípio, proteção dos homens. Ficaram só com a divina.

Cerca de uma semana depois, uma pequena igreja em Ntarama foi atacada com granadas e invadida em seguida. Só ali, 5 mil pessoas morreram. Perto, duas mil pessoas caminham horas para sair da escola técnica em que estavam abrigadas para serem exterminadas em um campo aberto. Um pouco mais adiante, em Nyamata, outra igreja já recebia milhares de refugiados quando os hutus chegaram. Ali estão enterradas 10.080 pessoas.

E assim foi: 5 mil aqui, 2 mil lá, 10 mil ali. 45 mil. No total, 800 mil em 100 dias. Dez por cento da população do país. Um em cada dez. O termo “dizimar” refere-se, sempre, a 10 por cento de algo. O “dízimo” vem daí. Pois, em Ruanda, dizer que a população foi dizimada não é adjetivar nada. É ser preciso.

Dentro dos memoriais todos, alguns elementos comuns: faixas roxas e brancas, a frase “se você me conhecesse e se melhor se conhecesse, não me mataria”, além de pilhas de ossos (e crânios, muitos crânios) e as roupas sujas de sangue dos milhares de mortos.

Ponto. Parágrafo, de novo.

Vendo tudo isso, hoje de manhã aqui em Ruanda, lembrei muito do que pensei, senti e vivi no agora distante 1996, no (agora também muito distante) interior do Pará.

Um massacre de 19 pessoas, perpetrado em algumas horas, já foi difícil de compreender.

Não consigo sequer imaginar o que aconteceu aqui.

Mas preciso, pois vou preparar um “Caminhos da Reportagem” sobre como vai o país hoje. Um dos personagens do programa será uma senhora de 73 anos que teve a mão cortada durante o genocídio. Nada perto de nunca mais ter visto o marido e 4 dos 5 filhos. Mukamu Soni é o nome dela.

Você vai conhecê-la em breve. Eu aviso quando o programa irá ao ar. Vai demorar um pouquinho, porque preciso editar tudo ainda.

Rever o que gravei hoje será penoso. Espero que valha a pena.

PS: Sandra também escreveu sobre Ruanda no Mosanblog. Não é porque é minha mulher não, mas ela escreve bem…

Anúncios

4 comentários em “Massacre, genocídio

  1. Chega ser contraditório o que vou dizer diante do quanto fico deprimida com o que leio, mas está um primor sua matéria! Dos lampejos de memória do garoto de 22 anos até o confronto de mais uma brutalidade, esta um pouco mais recente, mas muitoooOooo mais horrorosa: o pior foi a constatação do garoto em ver que não era outro mundo e sim o que ele ainda não via. De fato deverá ser muito penoso rever tudo isso, mas como comentei em outro post seu “sua profissão não é só glamour”, muito pelo contrário… Abs

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s