Muzungu verde-amarelo

Campo de refugiados de Gihembe, fronteira entre Ruanda e Uganda. Vivem ali cerca de 20 mil pessoas, todos congoleses que fogem da guerrilha. Perto de outros campos do gênero, com barracas de lona e pedaços de zinco, é bem montado: tem escolas e casas de taipa, distribuição regular de comida. Mas é um campo de refugiados. Não é um camping.

Não há luz regular ou água encanada. Hoje, quando visitei o lugar, era um dia muito esperado: o da distribuição de lenha. Muitas senhoras e crianças carregando na cabeça, pedaço por pedaço, o combustível que vai aquecer a casa e a comida pelos próximos dois meses.

Você vai conhecer o campo muito em breve, no Caminhos da Reportagem, da TV Brasil.

Por enquanto, só pra dar vontade de ver, mais um detalhezinho: “muzungu”, em kinyarwarda, quer dizer “branco”, homem branco (no sul de Moçambique é “mulungu”). E a garotada neste campo está aprendendo inglês. Daí eu ter ouvido tanto “godo morning, muzungu”, ao longo de toda a tarde.

Outra coisa que é bem marcante é o sorriso das crianças – mesmo sem ter a mínima idéia do que seja um Playstation. Sorriem só por você estar lá. Tocam em você. Cantam pra você. Eu não estava vestido de Papai Noel. Nem dei dinheiro a ninguém.

Meu antecessor cá em África, Carlos Alberto Junior, escreveu sobre isso lindamente uma vez. Recomendo dar uma olhada, clicando aqui.

Mas algo que o muzungu trazia colado no colete o tornava ainda mais interessante: a bandeira do Brasil.

Daí os jovens também se interessavam em falar comigo. Num papo que juntava inglês e português do muzungu, francês e kinyarwarda deles. E, claro, a língua comum: o futebol.

Vai estar tudo na reportagem – vocês vão ver.

Fim do primeiro ato.

Segundo ato: sala do representante do Banco Africano de Desenvolvimento em Kigali.

Jacob Diko Makete é da República dos Camarões, PhD em nãoseioqueconomics pela London School of Economics, formado em Cambridge, príncipe de um clã (ele não falou; descobri na internet) e admirador queixocaidístico da melhoria econômica brasileira dos últimos anos, da independência da política interna e da atenção que o país dá, agora, para a África.

E ele nem ensaiou discurso ou estudo pra me impressionar – cheguei sem avisar. “Quero falar com alguém aí no Banco”, disse pro guarda. “D’accord”, respondeu ele, deixando claro que não tinha entendido nada. Abriu o portão e eu subi. Por acaso – era feriado – o chefe estava. Ficou fascinado com a TV Brasil estar aqui em Ruanda, e, especial, ali, na sala dele.

Falamos por quase uma hora (ele não quis gravar, veja bem! Estou insistindo ainda). No meio do papo, me veio à cabeça uma conversa que tive com o ministro Ney Bittencourt, da embaixada brasileira em Maputo, logo que cheguei. Ele foi o primeiro representante brasileiro em uma reunião da União Africana. E contou que, além de alegria e certo espanto em vê-lo ali, os representares dos outros países olhavam pra ele com aquela cara de “que bom que você finalmente veio.”

É assim que tenho me sentido inúmeras vezes no exterior – e em especial aqui na África – só pelo fato de ter nascido em algum lugar entre os pampas e os seringais. Uma mistura de surpresa com carinho, admiração com inveja boa.

Nunca fui de arrotar patriotismo ou sair elogiando o gingado, o tempero, a malemolência e o veneno da brasilidade. Até porque é o jactar-se disso que nos fez – até agora – muito reconhecidos pelo rebolar de nossos quadris e a qualidade da nossa depilação íntima (chamado, em vários países, de “brazilian wax”).

Não é mais só o futebol que nos faz objeto de admiração aqui fora.

Está mudando. E eu tô curtindo.

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2 comentários em “Muzungu verde-amarelo

  1. Puxa vida, nem sei se quero conhecer o Campo de refugiados de Gihembe porque já fiquei com um nó na garganta lendo sua matéria e a do Carlos Alberto. A vida real é dura, mas quando envolve crianças, quando lhes roubam o futuro, as oportunidades e a inocência é muito brutal e difícil até de tomar conhecimento!

    “Aquelas crianças maltrapilhas me fascinam.Aquelas crianças sorriem o tempo todo.E eu, muzungu, só tenho vontade de chorar….”

    Foi assim que me senti ao final das duas matérias.

    Sua frase “Outra coisa que é bem marcante é o sorriso das crianças” e as fotos do Carlos Alberto definiram tudo!!! Boa sorte por aí Eduardo…

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