Minas terrestres na Agência Brasil

Gastei a semana para entender – e ver de perto – como funciona o processo de desminagem aqui na África.

Fui a uma campo no interior aqui de Moçambique que está sendo desminado há anos. E ainda vai demorar outros anos para ser completamente descontaminado.

A pesquisa gerou duas reportagems na Agência Brasil, que republico aqui embaixo. Clique aqui para ver como ficou na TV Brasil a reportagem sobre minas terrestres em Moçambique.

11:15
19/08/2010
Minas terrestres ainda matam em Moçambique

Eduardo Castro
Correspondente da EBC na África

Moamba (Moçambique) – A guerra civil moçambicana terminou em 1992, mas mesmo assim já matou oito pessoas e feriu 12 em 2010. São as vítimas das minas terrestres, deixadas para trás por militares e guerrilheiros em várias regiões rurais do país.

O caso mais recente ocorreu em 14 de julho deste ano. Uma picape Izuzu, que carregava toras de madeira, explodiu ao passar sobre uma mina antitanque, em uma estrada de terra a 12 quilômetros de Estrada Nacional 7, na Província de Tete, ao Norte do país. Adelino Dom Carlos e Paulino Pacate, ambos de 38 anos, morreram na hora. Cinco pessoas ficaram gravemente feridas.

As vítimas sempre são pegas de surpresa, sem ter como se defender. “Estava atrás de um boi que havia fugido, quando o chão explodiu”, diz Carlito Macinga, vaqueiro de 28 anos que perdeu a perna ao pisar em uma mina terrestre em Moamba, área rural próxima a Maputo, capital moçambicana. “Nem vi o que aconteceu.”

Cinco meses depois do acidente, Carlito vive do favor dos vizinhos. “Tenho três filhos e agora eles não vão para a escola, porque precisam ajudar em casa. Não sei o que vai ser da minha vida, nem da deles.”

O explosivo foi deixado na região na década de 1980 pelo Exército moçambicano, para proteger as torres que levam energia da África do Sul para Maputo. São 200 quilômetros que ainda estão sob processo de desativação de minas. Só nessa região, 21 pessoas foram vítimas das minas desde o fim da guerra civil. Cerca de 60 animais morreram.

Moçambique tentar livrar-se das minas terrestres desde que terminou a guerra civil do país, em 1992. O processo de desativação das minas começou um ano depois. Segundo o chefe do Departamento de Estudos e Planificação do Instituto Nacional de Desminagem, Fernando Mulima, o trabalho deverá ser concluído em 2014.

“Entre 1993 e 1995, foi o chamado período emergencial, com a retirada do material próximo de centros urbanos”, explicou Mulina. Na época, o número de acidentes por ano chegava a 300. Entre 95 e 99 passou-se a limpar áreas estratégicas, para a construção de obras públicas e a recuperação da infraestrutura básica. “Nessa altura, tínhamos 558 milhões de quilômetros quadrados contaminados por minas no país” disse ele. Em 2008, já eram menos de 12 milhões. O número de acidentes anuais ficou entre dez e 20, o que se mantém até hoje. “Graças à desminagem e ao trabalho de conscientização da população”.

Os especialistas contratados pelas organizações não governamentais que apoiam o trabalho acham possível cumprir a meta do governo. “Acho que dá para acabar com tudo até 2014, mas depende da manutenção dos fundos e de um trabalho um pouco mais rápido”, afirma Helen Gray, representante da ONG Halo Trust. “O tempo depende do dinheiro e do número de pessoas trabalhando.”

A Halo Trust atua em nove países e já patrocinou a retirada de mais de 1 milhão de minas no mundo todo. Em Moçambique, a entidade pretende gastar cerca de US$ 3 milhões este ano no apoio à desativação de minas. O dinheiro virá de doadores internacionais. A organização está em Moçambique desde 1993 e já retirou cerca de 100 mil peças do solo do país.

19/08/2010
Equipes de desativação de minas são preparadas em cursos de três semanas

Eduardo Castro
Correspondente da EBC na África

Moamba (Moçambique) – As equipes que trabalham na desativação de minas terrestres em Moçambique são formadas por sete pessoas, entre supervisor, desminadores e paramédicos, preparados em cursos que duram três semanas. Eles trabalham oito horas por dia, agachados no chão. Muitas são mulheres.“É perigoso sim”, diz Martinha Imaculada, desminadora há cerca de um ano. “Mas, seguindo as regras, torna-se seguro”. Ela nunca sofreu ou presenciou um acidente.

Dentro da área de desminagem é proibido fumar, correr ou atirar objetos no solo. Só se entra nela de colete blindado e máscaras plásticas apropriadas.

O processo começa com a captação de informações nas comunidades próximas, para delimitação do espaço a ser vasculhado. O terreno é então cercado por estacas vermelhas, que indicam que o local ainda não foi liberado. O próximo passo é cortar o mato. Ajoelhado no chão, o técnico, então, passa o “sapador” – instrumento que apita ao identificar peças de metal – seis vezes sobre exatamente 1 metro quadrado de terreno. Se nada é encontrado, segue-se para o metro quadrado seguinte. A região só é liberada depois de o supervisor e o chefe de operações também checarem o local.

O sapador consegue localizar explosivos a até 20 centímetros de profundidade. Caso haja a suspeita de que as minas estejam abaixo disso, escavadores blindados retiram a terra e espalham os montes no chão, para serem vasculhados manualmente mais uma vez. Caso sejam encontradas minas, elas são destruídas no mesmo local, detonadas por explosivos plásticos.

Durante a visita da reportagem da Agência Brasil ao campo em Moamba, duas minas foram localizadas e destruídas nas proximidades da torre de número 137, a poucos metros de uma estrada de terra, usada por agricultores e moradores da região. Os explosivos eram do tipo PMN, minas antipessoais detonadas por pressão, de fabricação russa. Cada uma tinha cerca de 240 gramas de explosivo TNT. Para o acionamento, basta colocar sobre ela um peso maior ou igual a 8 quilos – o equivalente a uma criança de cerca de 8 meses.

“Tem dia que tiramos dez, 15 minas da área”, diz o supervisor Tomás Pantaleão. “Mas, pelo menos, saem três ou quatro por dia”.

Moçambique ainda tem longas áreas a serem desminadas. Além da linha de transmissão de energia de Moamba (cerca de 200 quilômetros), praticamente toda a fronteira entre Moçambique e o Zimbábue (cerca de 2 mil quilômetros) ainda deve passar pelo processo.

Segundo estimativas das entidades internacionais de direitos humanos, a cada 20 minutos explode uma mina terrestre e fere pelos menos uma pessoa em algum lugar do mundo.

Edição: Graça Adjuto

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2 comentários em “Minas terrestres na Agência Brasil

  1. Que trabalho difícil hein? Oito horas por dia, agachados no chão, passando o “sapador”, seis vezes sobre exatamente 1 metro quadrado de terreno…. E ainda faltam cerca de 2 mil quilômetros em uma região!!! Será que concluem em 2014? Abs

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