462 e eu

Transferi o título e vou votar no exterior pela primeira vez.

Serei eu e outros 462 brasileiros aqui em Maputo. Sandra é outro deles, aliás. Daqui de casa, portanto, só o Otto não vai ao Centro Cultural Brasil-Moçambique domingo.

Somos dois dos 200 mil brasileiros que votam fora do país. Mas três milhões optam por não votar. Gente que mora fora e tem preguiça, perdeu o prazo, não acha importante ou acha que nunca vai mais voltar ao Brasil.

Há dois anos estive nos Estados Unidos pra fazer uma reportagem sobre a crise americana e os efeitos sobre os brasileiros de Newark. Fiquei meio chocado com a reação dos brazucas que, enfiados na lama até o pescoço, diziam, naquela época, que nunca iriam voltar para o país, porque “lá fora é que tinha oportunidade”.

Meu colega Fernando Freire (que faleceu recentemente) ouviu o mesmo de gente que morava na Inglaterra.

Queria muito saber o que pensam essas pessoas hoje.

Na altura, o que tinham de informação sobre o Brasil eram suas experiências antes de ir pra fora (e muita gente tinha deixado o país havia muito tempo), o que dizia a família, e o que saia na imprensa brasileira que chegava lá, por TV ou computador. Ou seja: não estavam sendo – como direi? – exatamente informados sobre as mudanças pelas quais o país estava passando nos últimos anos.

Eles achavam que, por pior que estivessem onde quer que fosse, estariam melhor que no Brasil.

Em que pese ser verdade para alguns, duvido que seja pra maioria. A flecha nos Estados Unidos e na Europa ainda aponta pra baixo, ou perto disso. Ao mesmo tempo que piorou muito fora, melhorou bem lá dentro.

Para completar a reportagem fui a Governdador Valadares, ver como viviam os tantos que voltaram para o maior “pólo exportador” de gente para os EUA.

Na mesma proporção que ouvi brasileiros nos EUA dizer que “não volto nunca para o Brasil”, ouvi em Governador Valadares, “não vou nunca mais para os EUA”.

Que esse povo que hoje está (muitos, certamente) passando aperto aqui fora não se arrependa de, um dia, ter achado que nunca mais voltava.

Ainda bem que a porta pra nós está sempre aberta.

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Um comentário em “462 e eu

  1. Isso é que é sintonia com o ElefanteNews! Quando vi o título na notificação do gmail matei a charada: 462 + eu = 463 eleitores em Maputo rsss. Essa história de brasileiro achar que só lá fora tem oportunidades sempre me irritou sobremaneira e muito mais ainda terem a petulância de dizer que estão melhor que no Brasil…. Isso que você ouviu em Governador Valadares eu vi e ouvi em uma entrevista do Roberto Trevisan (canta o forró pé de serra “Um matuto em nova york” que foi tema da novela América da Glória Peres). E olha que ele foi uma das pessoas que deu certo, fez fortuna em NY e disse que não faria tudo de novo!!!!???!!!
    Mas deixa que um dia esses matutos aprendem… Grande abraço e boa votação por aí.

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