Dia Mundial da Alimentação

No dia da alimentação, dona Carlina só vai comer massala. Dona Celina também. Assim como Helena, Maria, Neldo… e mais quase o equivalente à toda população da Índia.

Isso, claro, se eles tiverem – como Celina, Carlina, Helena, Maria e Neldo – pés de massala no quintal.

Senão, não vão comer nem isso.

Caso, certamente, do garoto da foto, lá em cima. A imagem ganhou o prêmio Pultizer. O autor, Kevin Carter, matou-se três meses depois de tirá-la.

A foto é de 1994, mas a realidade não mudou muito para muitos meninos africanos.

Abaixo, três reportagens publicadas na Agência Brasil. Duas são minhas, aqui da África. A terceira é bônus, pra ajudar alguns a entender porque as coisas têm mudado no Brasil.

16/10/2010
Quase um bilhão de pessoas não têm o que comer no Dia Mundial da Alimentação, alerta FAO

Eduardo Castro
Correspondente da EBC para a África

Maputo (Moçambique) – Em todo o mundo, 925 milhões de pessoas vão passar este dia 16 de outubro, Dia Mundial da Alimentação, sem ter o que comer. O número é equivalente às populações somadas dos Estados Unidos (300 milhões), do Brasil (190 milhões), do Japão (130 milhões), da Alemanha (82 milhões), da França (63 milhões), do Reino Unido (60 milhões), da Itália (58 milhões) e da Espanha (40 milhões).

Os dados da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), pela primeira vez em 15 anos, indicam uma melhora no quadro geral da fome no mundo. Em 2009, 1,023 bilhão de pessoas eram consideradas famintas, 9,6% mais do que este ano.

Uma das causas para a redução é a queda dos preços dos alimentos nos mercados internacionais e nacionais iniciada em 2008. Para o representante da FAO em Moçambique, o uruguaio Julio de Castro, há outro fator a ser considerado: a oportunidade de negócio. “O comandante de um navio carregado de grãos recebe um telefonema: ‘precisamos de 50 mil toneladas no Quênia.’ O barco segue para lá e preço sobe ou desce. E ligam para ele de novo: ‘pagam mais no Líbano’. E o barco muda a rota. É especulação, negócio. Não é questão de concordar ou discordar. Mas isso tem uma importância na distribuição [dos alimentos].”

Para a FAO, a produção mundial de alimentos precisa aumentar 70% para alimentar a população que o mundo terá em 2050, estimada em 9 bilhões de pessoas. Os governos devem investir mais na agricultura, expandir redes de segurança e programas de assistência social, reforçar atividades que geram renda para as áreas rurais e urbanas mais pobres e criar mecanismos adequados para lidar com situações de crise e proteger as populações mais vulneráveis.

A entidade também reforçou o pedido para participação na campanha Unidos Contra a Fome, que coleta assinaturas para chamar a atenção para o problema. A meta de um milhão de adesões foi alcançada um mês e meio antes do previsto, em novembro, mas a página da campanha continua aberta na internet.

16/10/2010
Fome castiga o continente africano

Eduardo Castro
Correspondente da EBC para a África

Pessene (Moçambique) – Dos 29 países pior posicionados no Índice Geral de Fome do Instituto Internacional de Pesquisa de Políticas Alimentares (IFRPRI, na sigla em inglês), 21 estão no Continente Africano. De cada três pessoas que vivem na Região Subsaariana, uma está desnutrida. Quatro nações, todas da África, estão no estágio mais preocupante, chamado de “extremamente alarmante”: Burundi, Chade, Eritreia e República Democrática do Congo. Conflitos armados, instabilidade política e ausência do Poder Público são os principais motivos para esta desestruturação social.

Além dos quatro países que mais preocupam, 25 vivem situação definida como “alarmante”. A maioria, novamente, é da África: Tanzânia, Sudão, Zimbabwe, Burkina Faso, Togo, Guiné Bissau, Ruanda, Djibuti, Moçambique, Libéria, Zâmbia, Níger, República Centro-Africana, Madagascar, Ilhas Comores, Serra Leoa e a Etiópia.

Hoje (16) Dia Mundial da Alimentação instituído pelas Nações Unidas, dona Carlina Mjufo nem sequer tocou nas panelas. Ela, a irmã Helena Muanzuli e as cunhadas Celina Sitóe e Maria Muchanga tinham somente frutas para oferecer ao neto Neldo, de 4 anos. As quatro são viúvas e vivem com o menino em Pessene, área rural da província de Maputo, distante 70 quilômetros da capital de Moçambique.

No casebre de caniço, sem luz ou água, elas guardam algumas sementes de milho na esperança de salvar algo da lavoura. “Plantamos milho, amendoim e mandioca, mas não deu nada, porque choveu pouco”, explicou dona Carlina. Ela chegou aqui em 1983, empurrada pela guerra que matou o marido e a expulsou de Mandjacaze, na Província de Gaza, 600 quilômetros do local onde vive hoje.

No terreno sem grades, cortado por um caminho de terra, árvores de massala têm garantido a sobrevivência. “Foi o que comemos hoje, ontem, a semana toda”, disse dona Celina. “Aqui, pelo menos, temos a massala. Em Gaza era pior, porque não havia nada no quintal”.

A massala é uma fruta do Sul da África. Do tamanho de uma laranja grande, tem casca verde, dura, e polpa amarela com caroços largos. Em Angola, recebe o nome de maboque. É comida da forma que se tira do pé, sem preparo algum.

A Cruz Vermelha de Moçambique monitora a situação e ajuda no que é possível. Dos 15 mil moradores de Pessene, cerca de 10 mil passam fome. “Recebemos apoio do Programa Mundial da Alimentação das Nações Unidas, mas mesmo eles sofreram com a queda nas doações”, lamentou Arão Vilanculos, da Cruz Vermelha em Moçambique. Segundo ele, o reforço alimentar está garantido apenas para os portadores do vírus da aids e para as crianças.

A seca este ano foi mais forte na região. “A chuva normalmente começa pelos fins de setembro, quando os agricultores saem para plantar. Este ano, as primeiras chuvas vieram quase em novembro. Em dezembro choveu mais um pouco, depois parou, e houve um calor intenso. As culturas não resistiram”, explicou Vilanculos.

Para a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), o combate à fome em Moçambique melhorou nos últimos anos. Mas o problema é de difícil solução. “Desde 1996 o quadro tem melhorado. Estamos na casa dos 35% de afetados pela fome. Ainda temos cinco anos para chegar à meta de 28%”, disse o representante da FAO em Moçambique, Julio de Castro, lembrando o objetivo estabelecido pelo país para as Metas do Milênio. “A melhora dos últimos anos é importante e precisa continuar”.

16/10/2010
Fome diminui no Brasil, mas cresce no mundo

Da Agência Brasil

Brasília – A maior participação da sociedade civil na elaboração de políticas públicas para alimentação e diminuição da pobreza são fatores que fazem com que o Brasil tenha motivos para comemorar o Dia Mundial da Alimentação, de acordo com a conselheira do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), Elisabetta Recini.

Entre 1995 e 2008, a pobreza absoluta (rendimento médio domiciliar per capita de até meio salário mínimo mensal) caiu 33,6% no país, o que significa que 12,8 milhões de pessoas aumentaram seu rendimento. No mesmo período, 13,1 milhões de brasileiros superaram pobreza extrema (rendimento médio domiciliar per capita de até um quarto de salário mínimo mensal), diminuindo em 49,8% a quantidade de pessoas nessa condição. Os dados são do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Como conquista na área neste ano, a conselheira citou a aprovação da Emenda Constitucional 64, que inclui a alimentação entre os direitos sociais estabelecidos na Constituição Federal e a assinatura da Política Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional. Este documento define estratégias para assegurar a alimentação adequada e saudável em todo o país.

Outro motivo de comemoração destacado pela conselheira é o aumento da participação de setores civis, como indígenas, quilombolas e pesquisadores acadêmicos, na formulação das políticas públicas de alimentação por meio do Consea.

O cenário mundial, no entanto, não remeta ao otimismo. Segundo o representante da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), Gustavo Chianca, em 2009, o número de pessoas que passam fome no mundo chegou a 1 bilhão em consequência da crise financeira mundial. “Nunca houve tanta gente passando fome no mundo”, disse.

Em protesto ao aumento da pobreza, a FAO divulgou um documento que pede aos governantes que priorizem a erradicação da fome. O projeto One Billion Hungry (Um milhão de pessoas com fome) tem 1 milhão de assinaturas em todo o mundo. O Brasil é o terceiro país que mais colaborou, com aproximadamente 115 mil assinantes.

Segundo o coordenador de ações internacionais de combate á fome do Itamaraty, Milton Rondó Filho, o Haiti é o país que mais recebe recursos do governo brasileiro destinado á ajuda humanitária internacional. Só neste ano foram destinados US$ 265 milhões para os haitianos, enquanto todos os outros países que receberam ajuda brasileira receberam, US$ 50 milhões.

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4 comentários em “Dia Mundial da Alimentação

  1. Depois de ler essas matérias fica uma mistura de vergonha (não sei se é exatamente vergonha) e tristeza. É complexo viver sabendo de uma realidade dessa.
    Temos de aproveitar todos os meios que temos para tentar mudar isso…
    Abraços.

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  2. Quando vi esta imagem que ganhou o prêmio Pultizer e li que o autor, Kevin Carter, matou-se três meses depois de tirá-la eu fiquei travada de pensar o impacto que a cena causou ao fotógrafo para ele ter feito isso. Porque penso que ninguém consegue ficar indiferente diante dessa cena. É muitoooO dolorosa! Não tem nada mais deprimente do que pensarmos que esses números que você divulgou não são apenas estatísticas: eles dão conta da quantidade de pessoas que passam fome no mundo! Isso tem que acabar 😦
    Grande abraço e bom final de semana!

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