Fly Brazilian. Everybody does it.

Quando estive em Ruanda fiz o seguinte comentário sobre os aviões que vi na pista dos aeroportos de lá (Kagali), de Nairóbi, e aqui de Maputo.

“Detalhe aéreo: voei de Maputo (Moçambique) a Nairóbi (Quênia) num Embraer 170 da LAM – Linhas Aéreas Moçambicanas. Avião brasileiro, portanto. E voei de Nairóbi (Quênia) para Kigali (Ruanda) em outro Embraer 170, agora da Kenya Airways. Aeronave brasileira de novo, pois. Nunca, na minha vida toda, voei dentro do Brasil num Embraer de companhia brasileira. Só nos da FAB. Nosso bairrismo aeronáutico é do contrário”.

Pois, como vemos aí embaixo, logo eles estarão em mais pistas africanas.

30/11/2010
Governo de Angola e empresários africanos querem comprar aviões da Embraer

Eduardo Castro
Correspondente da EBC na África

Maputo (Moçambique) – O governo de Angola quer comprar dois aviões executivos da Empresa Brasileira de Aeronáutica (Embraer). E empresas comerciais de aviação do país também estão interessadas em adquirir jatos da fabricante brasileira. A informação foi dada pelo secretário executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Welber Barral, durante visita de dois dias a Luanda, capital de Angola.

Segundo ele, esses são alguns dos muitos negócios que podem surgir entre os dois países em futuro próximo. “A demanda angolana voltou aos patamares anteriores aos da crise internacional”, disse Barral. “No ano passado, Angola foi muito afetada pela crise e pelas variações do preço do petróleo”. A economia angolana cresceu 14,3% em 2008, mas, com a turbulência da economia mundial, viu a taxa cair para 2,4% no ano passado. Segundo o governo angolano, a previsão para 2011 é de 7,6% de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). E a volta ao crescimento de dois dígitos (previsão de 15,5%) em 2012.

O Brasil abriu mais uma linha de crédito – a quarta – de U$ 1 bilhão via Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), voltada a projetos de empresas brasileiras em Angola, incluindo aquisição de equipamentos do Brasil. Angola é um dos principais destinos das exportações nacionais. Em 2008, antes da crise, as vendas atingiram o pico de US$ 1,97 bilhão, fazendo de Angola o maior parceiro do Brasil na África. Em 2009, as exportações caíram para US$ 1,33 bilhão. Em 2010 somaram, até outubro, US$ 771,9 milhões.

Angola também está interessada em atrair investimentos brasileiros para os setores de agronegócio e infraestrutura, disse o secretário do MDIC. O país teve a agricultura e as estruturas básicas destruídas pela guerra civil, que acabou em 2002.

Além da agenda com líderes do governo angolano, Welber Barral está em Luanda liderando uma comitiva de 25 empresários brasileiros dos setores de alimentos e bebidas, casa e móveis, material de construção, máquinas e equipamentos industriais, máquinas agrícolas e serviços. O grupo participou, nesta segunda-feira (29), do lançamento do primeiro Centro de Negócios da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) no Continente Africano.

A missão comercial terminará na África do Sul, onde o secretário irá encontrar-se com a vice-ministra do Comércio sul-africano, Thandi Tobias-Pokolo, para discutir o alargamento do acordo já existente entre Mercosul e União Aduaneira da África Austral (Sacu, na sigla em inglês). “Há uma complementariedade econômica que precisa ser melhor aproveitada”, afirmou Barral. Nos primeiros dez meses de 2010, as exportações brasileiras para a África do Sul somaram US$ 1,1 bilhão, aumento de 5,2% sobre o mesmo período do ano passado.

Edição: Vinicius Doria

Busínes são busínes. Chê!

29/11/2010
Apex acerta parceria para que brasileiros forneçam produtos e serviços ao governo de Angola

Eduardo Castro
Correspondente da EBC na África

Maputo (Moçambique) – O Brasil vai fechar um acordo de cooperação com a Central de Compras de Angola para ampliar a participação de empresários brasileiros no processo de reconstrução do país africano. “É um parceiro de peso para ajudar a pequena e média empresa brasileira a entrar nesse mercado”, disse Ricardo Schaefer, diretor de Gestão e Planejamento da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil). O governo angolano usa a Central de Compras para negociar preços e contratar fornecedores nas áreas de logística e abastecimento de órgãos governamentais, inclusive o Exército. Nos próximos dias, a central anunciará a verba disponível para o ano que vem.

Segundo Schaefer, é uma oportunidade para o pequeno e o médio empresários brasileiros explorar novas oportunidades. “Angola ainda está reconstruindo suas estruturas, totalmente destruídas pela guerra civil”, que terminou em 2002, lembrou ele. Desde então, o país, o segundo mais rico da África em petróleo, tem sido muito procurado por investidores.

Antes de estourar a crise financeira internacional, o volume de negócios com Angola passou de US$ 520 milhões para US$ 1,5 bilhão, colocando o país entre os maiores parceiros comerciais do Brasil. Em julho passado, 40 empresas nacionais expuseram produtos e serviços na Feira Internacional de Luanda.

Ricardo Schaefer está em Luanda para o lançamento do primeiro centro de negócios da Apex-Brasil na África. A agência já tem estruturas funcionando em Pequim (China), Dubai (Emirados Árabes), Miami (Estados Unidos), Havana (Cuba), Varsóvia (Polônia), Moscou (Rússia) e Bruxelas (Bélgica).

O centro angolano pretende dar suporte às empresas brasileiras identificando oportunidades de negócios para expandir o comércio entre Brasil e África. Segundo dados da Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), o fluxo de comércio no ano passado foi de US$ 17,2 bilhões (US$ 8,7 bilhões em exportações e US$ 8,5 bilhões em importações).

Em 2009, duas missões comerciais brasileiras estiveram na África. Empresários e representantes do governo visitaram Líbia, Argélia, Tunísia, Gana, Nigéria, Guiné Equatorial, Burquina Faso, Costa do Marfim, Gâmbia, Gana, Guiné, Guiné-Bissau, Libéria, Mali, Mauritânia, Marrocos, Senegal, Benin, Cabo Verde, Níger, Nigéria, Senegal, Serra Leoa e Togo. Em dezembro, outro grupo visitará Angola, Moçambique e África do Sul. Mais de duzentas empresas participaram das “caravanas”, representando setores variados como agronegócio, energia, alimentos e bebidas, casa e construção, mineração, tecnologia da informação, máquinas e equipamentos, automotivo, logística, têxteis e calçados, varejo, cosméticos e defesa.

A Apex-Brasil aposta em crescimento rápido dos negócios com os países africanos. “Nossa expectativa é voltar rapidamente aos patamares de antes da crise [financeira internacional]. Em 2008, foram quase U$ 2 bilhões só em Angola”, informou Ricardo Schaefer. “Acho que é possível repetir esse número em 2011”.

Edição: Vinicius Doria

Costa do Marfim: depois das eleições, toque de recolher

Diga aí, de cabeça, qual é a capital da Costa do Marfim…
Não lembrou? Role a página pra baixo e olhe no mapa.

26/11/2010
Costa do Marfim terá toque de recolher depois do segundo turno das eleiçõe
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Eduardo Castro
Correspondente da EBC na África

Maputo – O governo da Costa do Marfim vai decretar toque de recolher no domingo (28) à noite, depois do segundo turno das eleições presidenciais. A polícia vai patrulhar as ruas a partir das 22h, quando começa a contagem dos votos.

Depois de dez anos sem eleições, 14 candidatos concorreram no primeiro turno, em 31 de outubro. O atual presidente Laurent Gbagbo e o ex-primeiro ministro Alassane Dramane Ouattara foram os mais votados e voltam a se enfrentar nas urnas neste domingo.

Para observadores da União Europeia, o primeiro turno foi “relativamente pacífico.” Líderes religiosos, representantes das Nações Unidas e de governos estrangeiros têm expressado, no entanto, preocupação com a reação dos perdedores. Ontem (25), os dois candidatos pediram calma aos eleitores em debate na televisão, o primeiro da história do país.

“As eleições devem ser pacíficas”, afirmou Ouattara. “Quero vencer porque creio ter algo a oferecer ao meu país. Mas, se perder, não é um problema. Bastam os 11 anos de turbulência. É hora de acabar com isso”, disse o atual presidente.

A campanha ganhou tons mais pesados no segundo turno, mas, no debate, os candidatos mantiveram a calma. Economista, Ouattara prometeu trazer investidores de volta à Costa do Marfim. Gbagbo reforçou que, para promover as mudanças necessárias, o país precisa de um líder com capacidade comprovada.

Nas ruas, apoiadores dos dois lados entraram em choque. Pelo menos uma pessoa morreu, esfaqueada, na localidade de Bayota. Na semana passada, também houve confronto. As Nações Unidas decidiram enviar mais 500 soldados e dois helicópteros militares ao país, deslocados da Libéria, para ajudar na manutenção da ordem.

As eleições presidenciais na Costa do Marfim foram adiadas seis vezes desde 2005, quando terminaria o mandato de Laurent Gbagbo. Uma guerra civil estourou em 2002, quando rebeldes no Norte tentaram derrubar o atual presidente. O golpe foi controlado apenas na parte Sul. Graças à instabilidade, o país vive um embargo para a compra de armas desde 2004.

Independente da França há 50 anos, a Costa do Marfim é o maior produtor de cacau do mundo. O país virou polo de atração para muitos estrangeiros no período do chamado “milagre econômico”, nas décadas de 70 e 80, quando a economia crescia a uma média anual de 7%.

Com a guerra civil, os investidores foram embora, deixando mais de 4 milhões de desempregados no país, de 21 milhões de habitantes. Quase 70% dependem da agricultura para sobreviver. Desde 2006, o peso da produção de petróleo e gás supera os ganhos com o cacau.

A Costa do Marfim exporta energia para vizinhos como Gana, o Togo, Benin, Mali e Burkina Faso. O crescimento econômico foi de cerca de 2% em 2008 e de 4% no ano passado. Mas os ganhos per capita caíram 15% desde 1999.

Edição: Graça Adjuto

A África e os impostos II

Agora, as reportagens da Agência Brasil.
A versão para TV Brasil está aqui.

26/11/2010
Países africanos criam mecanismos para reduzir dependência de recursos externos

Eduardo Castro
Correspondente da EBC na África

Maputo – A crise internacional dos últimos anos brecou o crescimento econômico da África e debilitou ainda mais a arrecadação de impostos no continente. Há muito tempo dependentes de doações estrangeiras para completar ou mesmo financiar a máquina do estado, alguns países começam a criar mecanismos para precisar cada vez menos de recursos externos.

Uganda e Ruanda, duas das menores rendas fiscais do continente e que sofreram guerras civis devastadoras em passado recente, apertaram o cerco e passaram a arrecadar mais, melhorando o sistema tributário e combatendo a corrupção.

Outros países revisaram a política de isenções fiscais, usada para atrair investidores estrangeiros por muito tempo. O Marrocos, por exemplo, cortou muitos benefícios depois de uma pesquisa comprovar que eram arbitrários e tinham alto custo para a renda do Estado, sem efeitos equivalentes na geração de emprego ou em infraestrutura.

Um estudo da organização Rede por Justiça Fiscal, com sede em Londres, pediu o fim das zonas livres de impostos nos países africanos. Pelo levantamento, elas “levam à redução da base tributária, complicam ainda mais a administração fiscal e são uma importante causa de perda de renda.”

De acordo com o Panorama Econômico Africano 2010, elaborado pelo Banco Africano de Desenvolvimento e a Comissão Econômica para a África, o crescimento econômico médio diminuiu de 6%, no período de 2006 a 2008, para 2,5% no ano passado, em consequência da queda nos negócios e nas doações.

Devastado pela guerra civil que terminou somente em 1994, Moçambique se viu obrigado a facilitar a entrada de investidores, atraídos por impostos baixos e condições muito vantajosas. Foi o caso, por exemplo, da fábrica de alumínio Mozal, a maior indústria atualmente instalada no país, e mais seis empreendimentos estrangeiros definidos legalmente como megaprojetos, com investimentos superiores a US$ 400 milhões (além da Mozal, a Areias Pesadas de Moma, a operadora de gás Sazol, a Usina Hidrelétrica de Cahora Bassa, a mineradora brasileira Vale e a australiana Riversdale).

Com dificuldades de financiamento, o governo moçambicano apertou a cobrança de impostos das empresas que se instalarem no país a partir de agora, com base em lei aprovada no ano passado.

“Haverá um impacto positivo sobre a receita, já que vamos reduzir as concessões”, afirma Domingos Muconto, chefe da área de serviços da Direção Nacional de Impostos. “Essa lei, ao impôr balizas, vai trazer a situação a um nível mais razoável e aceitável”.

Muconto defende a decisão tomada na implantação dos megaprojetos. Juntos, eles respondem por 4% da receita bruta do país e quase a totalidade das exportações moçambicanas.

“Na localização de qualquer multinacional, a carga fiscal faz parte dos fatores de decisão”, diz. “Também é necessário compreender que as concessões, muita das vezes, não representam perda. São investimentos em infraestrutura que ficam”, acrescentou.

“Numa primeira fase, Moçambique precisava fazer mais esforço para mostrar que é bom para negócio”, diz o técnico. “Chegaremos a um momento em que, talvez, não precisemos dar concessões a grandes projetos. Vai depender das circunstâncias”.

26/11/2010
África busca formalizar economia e arrecadar mais impostos

Eduardo Castro
Correspondente da EBC na África

Maputo – A busca por mais recursos provenientes de impostos na África não se restringe aos grandes projetos. Alguns países se esforçam para formalizar a economia. A Direção Nacional de Impostos de Moçambique, por exemplo, registrou mais de 30 mil pequenos empresários este ano.

“Já ultrapassamos a meta para o ano, mas queremos captar ainda mais, porque há muito vendedor ambulante que supera empresas”, diz Julio Mazembe, coordenador nacional do ISPC (Imposto Simplificado para Pequenos Contribuintes).

A ideia é chegar a 200 mil contribuintes na faixa, criada no ano passado. “É difícil”, diz Mazembe. “Muitos nunca pagaram tributos. Grande parte das pessoas sequer compreende que o imposto é que garante a construção de estradas ou a melhoria do salário do professor e do enfermeiro, por exemplo”.

Durante a luta pela independência (conseguida em 1975), houve um movimento nacionalista pelo não pagamento dos impostos, que eram arrecadados pelo colonizador (o governo português). Em seguida, com a adoção do modelo soviético, várias empresas nacionalizadas não pagavam tributos, bem como pequenos comerciantes e trabalhadores informais.

Para o ano que vem (2011), o orçamento moçambicano prevê um déficit de 60 bilhões de meticais (R$ 3 bilhões) – a moeda moçambicana. “Temos que apertar o cerco a todos que estão a exercer uma atividade de natureza comercial, para que paguem o que é real e não o que querem pagar”, diz o técnico.

Outro grande problema é a baixa arrecadação do Instituto Nacional de Segurança Social (INSS). São várias as denúncias nos jornais contra empregadores que recolhem o percentual dos trabalhadores e não repassam ao governo.

Para sensibilizar o pequeno empresário, o governo lançou cartilhas em seis dos idiomas mais falados no país, além do português.

“Pago sempre, mas não sei porque é importante”, afirma Maria Amélia, vendedora ambulante de roupas. “Mas, como estou neste pais, tenho que pagar, nao é?”

Sulemani Chirave, que faz negócios em uma feira popular de Maputo, diz que nem sempre consegue. “Antes eu pagava. Mas agora não sobra dinheiro”.

Jordão Panianda diz que paga mensalmente mil meticais (R$ 50) para ter sua banca no Mercado Estrela Vermelha. “É necessário porque ajuda o país”.

Edição: Graça Adjuto

Suplicy no Sudão

Pra falar de renda mínima, claro.

Sem piada: é o tipo de reportagem que eu curto fazer. Ele me atendeu lá em Cartum (por telefone, obviamente) e também falou do referendo, como você vai ver na reportagem aí embaixo.

Curto não só porque é bacana localizar o senador no Sudão. Mas porque ele veio aqui pra mostrar o que o Brasil fez para estar melhor do que estava há alguns anos. Caminho que qualquer um pode seguir.

Nesse caso específico, está bem, bem melhor, com 21 milhões de pessoas a menos abaixo da linha da pobreza.

E não é porque é bolsa-família, Suplicy, PT, não.

Também curti muito fazer, na semana passada, uma entrevista com a senadora Katia Abreu, no estacionamento da embaixada japonesa aqui em Maputo. Ela veio explicar para Moçambique como o Brasil, com condições (boas e más) de alguma forma semelhantes às dele, conseguiu se transformar no maior exportador de comida do mundo (a matéria está aqui, caso não tenha visto).

Não é patriotada, bairrismo ou outras bobagens do gênero. Mas curto mostrar para o Brasil que muitos brasileiros correm por aí com muita coisa pra mostrar. Ao contrário do que nos fazem sentir, nem tudo no país dá errado. Muito ao contrário.

Hoje em dia mandamos para fora de avião a pão de queijo em saquinho (compro aqui, aliás), passando por pasta de dente, prostituta, técnico de futebol, sapato, bolacha e minério de ferro.

Mas também – e principalmente – exportamos conhecimento.

24/11/2010
Sudão faz plebiscito sobre a separação da parte rica em petróleo

Eduardo Castro
Correspondente da EBC para a África

Maputo – As eleições no Sudão e o plebiscito sobre a separação da parte sul, rica em petróleo, do restante do país, que ocorrerão em 45 dias, ainda não dão sinais de terem tomado as ruas da capital, Cartum. “Nas ruas, não há grandes manifestações, mas existem cartazes com indicações para quem quer se recensear para votação”, diz o senador Eduardo Suplicy (PT-SP), que esteve no Sudão para fazer palestras em defesa da renda básica de cidadania.

No entanto, a consulta popular está marcada para 9 de janeiro do ano que vem, para definir se o Sudão, país com maior território da África, será ou não dividido em dois. O referendo é uma exigência da Região Sul do país que quer a independência. Faz parte do acordo de paz de 2005, que pôs fim a uma guerra civil de 23 anos, que matou mais de 1,5 milhão de sudaneses.

“Fui recebido no palácio do governo por assessores próximos do presidente (Omar Al) Bashir, que disse que o governo vai respeitar o resultado do referendo, que é considerado normal e democrático, porque faz parte do acordo de paz”, afirmou o senador que disse que os sudaneses estão empenhados em demonstrar a unidade do país.

Ontem (23), o presidente Omar Al Bashir e o líder sulista do Movimento de Libertação do Povo do Sudão (SPLM), Salva Kiir, reafirmaram o compromisso de respeitar o resultado da consulta.

Os dois estiveram em Adis Abeba, na Etiópia, para um encontro do Inter Government Agency for Development (Igad), mediado pelo primeiro ministro anfitrião, Meles Zenawi. O Igad parabenizou os dois lados por buscar o consenso. Ao mesmo tempo, convocou as lideranças a chegarem à próxima rodada de negociação com o “espírito de compromisso” para garantir os direitos dos cidadãos.

O encontrou terminou sem novos acordos sobre definição de fronteiras ou do destino de Abyei, região produtora de petróleo que fica na divisa Norte-Sul. Porém, ambos concordaram em continuar as discussões.

De acordo com a agência estatal de notícias do Sudão, o presidente Bashir afirmou que “não se voltará à guerra” e que o governo trabalhará para fortalecer as relações com o Sul mesmo que a decisão seja pela separação.

No final de semana passado, integrantes do partido do governo voltaram a dizer que poderiam não reconhecer o resultado da votação de janeiro. O Partido do Congresso Nacional (NCP), do presidente Bashir, acusou o SPLM de pressionar os sulistas que moram na capital, Cartum, a não se registrar para votar.

Uma reclamação formal foi feita à Comissão Eleitoral, que também lista outras “irregularidades”, como atrasos deliberados no registro e fechamento de locais antes da hora prevista.

Já a SPLM acusou o NCP de fazer pressão em favor da unidade, coletando telefones e dados pessoais dos eleitores. O partido alega que muitos sulistas preferiram viajar para a região de origem para evitar o que chama de “intimidação”.

O registro dos eleitores começou em 15 de novembro e vai até o dia 31. Na capital, os centros têm pouca procura, segundo a imprensa local. No Sul, a procura é maior.

24/11/2010
Suplicy defende renda mínima para países africanos em conferência no Sudão

Eduardo Castro
Correspondente da EBC na África

Maputo – Mesmo seguindo os conselhos do Fundo Monetário Internacional (FMI) desde 1997, e rico em óleo, gás, ouro, prata, cobre e outros minérios, metade da população do Sudão está abaixo da linha da pobreza, vivendo do que consegue plantar ou de auxílio humanitário. Palco da guerra civil mais longa da África que durou 23 anos, encerrada em 2005, o país estuda formas de combater a miséria com projetos de inclusão social.

“A ministra de Ação Social daqui me agradeceu muito por vir aqui trazer a nossa experiência para a 2ª Conferência Africana de Desenvolvimento Social”, afirmou o senador Eduardo Suplicy (PT-SP), que participa do encontro na capital do país, Cartum, que vai até amanhã (25). “Ela irá ao Brasil na semana que vem para participar de um encontro mundial sobre o assunto, em Brasília”.

Na pauta, projetos de inclusão, transferência de renda, microcrédito, cooperativismo e empreendedorismo. Suplicy falou sobre o programa brasileiro Bolsa Família para ministros da área social dos países africanos. Disse que ele é apenas o primeiro passo para a implementação da renda básica de cidadania, instituída por lei em 2004.

“O conceito de implementar a renda básica universal é cada vez mais aceito”, afirmou o senador, que defende a ideia há muitos anos. “Elimina a burocracia, a vergonha de declara-se pobre e a dependência, pois é igual para todos”.

Segundo ele, o debate está avançado na África do Sul, onde recebeu o apoio da maior central sindical do país – a Cosatu – e do bispo anglicano Desmond Tutu, ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 1994. “Eles já instituíram uma aposentadoria para idosos que segue os moldes da renda mínima”.

Na Namíbia, um projeto piloto é patrocinado por igrejas e sindicatos alemães, que garantem U$ 12,00 (R$ 20,00) mensais para os mil habitantes da pequena vila da Otijvero, desde janeiro de 2008. “Os resultados são positivos, mas serão mais bem avaliados em fevereiro, durante um seminário”.

TV Digital: não foi uma vitória, mas não foi uma derrota

Explico na reportagem da Agência Brasil.

23/11/2010
Países do Sul da África decidem pelo sistema europeu de TV digital

Eduardo Castro
Correspondente da EBC para a África

Maputo – A Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral vai recomendar aos seus 14 membros que adotem o padrão europeu de TV digital (DVB 2), mas deixa a decisão final para cada país individualmente. A brecha possibilita que quem queira opte pelo sistema nipo-brasileiro (ISDB-T).

A decisão não foi encarada como uma derrota pela delegação brasileira que acompanhou as discussões, em Lusaka, na Zâmbia. “É apenas uma recomendação”, diz o assessor especial da Casa Civil, André Barbosa. “Eles (os europeus) vão cantar vitória, mas os nossos apoiadores – Moçambique, Angola e Botsuana – conseguiram manter a porta aberta para o padrão nipo-brasileiro”.

A maioria dos integrantes da comunidade: África do Sul, Angola, Botsuana, Congo, Lesoto, Madagascar, Malaui, Ilhas Maurício, Moçambique, Namíbia, Suazilândia, Tanzânia, Zâmbia e Zimbábue sinalizou que deve seguir a recomendação. Mas Barbosa acredita que eles podem mudar de ideia se a União Europeia não cumprir com o apoio prometido.“O DVB 2 é uma nova versão, que só está em uso na Inglaterra. É muita cara e complexa. O conversor custa hoje por volta de 400 euros, o que é inviável para o usuário africano”.

A situação vivida na Argentina e na Colômbia anima brasileiros e japoneses. O Congresso argentino chegou a aprovar uma lei definindo o padrão americano como o escolhido para o país. Mas, devido às conversações posteriores, a lei acabou revogada. Na semana passada, a Colômbia admitiu repensar a decisão favorável ao DVB depois que a União Europeia não repassou U$ 40 milhões (aproximadamente R$ 68 milhões), prometidos há mais de um ano. “A Inglaterra cortou verbas da própria BBC este ano. Acho difícil que faça um investimento de monta na África”.

A decisão foi muito influenciada pela maior economia do continente, a África do Sul, que alega já ter feito investimentos desde 2006, quando da primeira sinalização em favor da adoção pelo bloco do padrão europeu, em uma reunião em Genebra (Suíça).

Brasil e Japão já começaram a discutir com seus apoiadores a realização de mais testes de campo. “O uso da tecnologia, na prática, pela população, será decisiva”, afirma Barbosa. “Vamos fazer testes em Maputo (Moçambique), Luanda (Angola) e Gaborone (Botsuana), com set-up boxes (conversores) e celulares”. Japoneses e brasileiros reúnem-se na semana que vem, em Tóquio, para tratar dos próximos passos a serem adotados.

Eleitos em Cabo Verde

Estou na expectativa de ir para lá, trocar experiências sobre cobertura de eleições. Será uma bela oportunidade.

Postarei fotos. Do workshop e da praia, claro.

Por ora, notícia…

23/11/2010
Novo Parlamento de Cabo Verde será eleito em 6 de fevereiro

Eduardo Castro
Correspondente da EBC na África

Maputo – As eleições para o novo Parlamento de Cabo Verde estão marcadas para o dia 6 de fevereiro do ano que vem e as eleições presidenciais devem ocorrer seis meses depois. O anúncio foi feito pelo presidente Pedro Pires, depois de ouvir todos os partidos políticos e reunir-se com o Conselho da República.

Pires disse que não seria bom que a campanha fosse muito longa, gerando “maiores ansiedades”. Segundo o presidente, país pequeno e de economia aberta ao exterior, Cabo Verde tem “a obrigação de garantir a confiança” das instituições, dos parceiros e investidores externos.

A marcação da data das eleições cabo-verdianas, como em vários outros países africanos, cabe ao presidente da República. As últimas eleições foram realizadas em janeiro de 2006. No Brasil, por exemplo, ela é estipulada na Constituição Federal (no primeiro domingo de outubro, a cada quatro anos).

Alguns partidos, como a União Cabo-Verdiana Independente e Democrática (Ucid), queria que as eleições ocorressem em 27 de março, depois do carnaval (8 de março). O partido do presidente – Partido Africano da Independência de Cabo Verde (Paicv) – não anunciou a preferência. O Movimento para a Democracia (MpD) preferia o pleito no fim de fevereiro, para que o recenseamento no exterior pudesse durar mais tempo.

País formado por pequenas ilhas no Oceano Atlântico, Cabo Verde tem mais da metade de seus cidadãos morando no exterior, principalmente nos Estados Unidos, em Portugal, na Holanda, em Angola, no Senegal e Brasil. Estima-se que, hoje em dia, sejam 500 mil cabo-verdianos morando no país e um número ainda maior vivendo fora. O recenseamento eleitoral já começou em vários países. Em alguns, como Bélgica, está atrasado.

No ano passado, o fenômeno inverso também foi marcante: a chegada de novos habitantes estrangeiros ao país cresceu 20%, totalizando 12 mil pessoas, a maioria procedente da Guiné-Bissau.

Sem recursos minerais ou grandes terras para a agricultura, Cabo Verde depende muito do turismo. No ano passado, uma crise no setor trouxe fortes impactos. Também houve queda significativa no investimento estrangeiro direto.

Neste ano, as receitas fiscais também devem ser menores do que em 2008. O governo cortou 18 milhões de euros nas despesas. Na semana passada, a União Europeia aprovou um financiamento de metade desse valor.

TV digital na África

22/11/2010
Países do Sul da África discutem padrão de TV Digital

Eduardo Castro
Correspondente da EBC na África

Maputo – Começou hoje (22) em Lusaka, Zâmbia, a reunião dos ministros de Comunicações de 14 países africanos para decidir o padrão de TV digital. As nações reúnem uma população somada de quase 250 milhões de pessoas.

O padrão nipo-brasileiro Integrated Services Digital Broadcasting Terrestrial – ISDB-T disputa com o europeu DVB a possibilidade de equipar os televisores da região da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral formada pela África do Sul, por Angola, Botsuana, pelo Congo, Lesoto, por Madagascar, pelo Malawi, pelas Ilhas Maurício, por Moçambique, pela Namíbia, Suazilândia, Tanzânia, por Zâmbia e pelo Zimbábue. Uma terceira possibilidade é deixar a decisão nas mãos de cada país individualmente.

“A maioria está indecisa. Nosso sistema é melhor, comprovado por teste, mas a pressão comercial da Europa é muito grande”, disse André Barbosa Filho, assessor especial da Casa Civil da Presidência da República, que faz parte da delegação brasileira que acompanha o encontro.

As discussões de hoje e amanhã são técnicas. Os especialistas brasileiros, japoneses e europeus já começaram a tirar as últimas dúvidas dos africanos antes da reunião ministerial, decisiva, que será na quarta-feira (24).

Os países do Sul da África ensaiaram tomar uma posição sobre o tema em maio, mas preferiram analisar os dados levantados por uma força-tarefa técnica que trabalhou por dois meses antes de anunciar o padrão vencedor. O sistema nipo-brasileiro tem como principais apoiadores os dois países lusófonos do grupo (Moçambique e Angola) e Botsuana.

Além de Brasil e Japão, mais seis países adotaram o sistema ISDB-T: Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Costa Rica e Equador. Na semana passada, a Colômbia admitiu repensar a decisão favorável ao DVB depois que a União Europeia não repassou U$ 40 milhões (aproximadamente R$ 68 milhões) prometidos há mais de um ano. Até o começo do mês que vem também é esperada uma decisão do Uruguai.

Segundo Barbosa, a promessa de financiamento é crucial na tomada de decisão.“Eles (os europeus) vão realmente conseguir cumprir? A crise lá está muito forte, e na América Latina já não conseguiram”.

A delegação brasileira na Zâmbia é liderada pelo embaixador João Inácio Oswald Padilha, representante do Brasil entre os países da região. Também estão no grupo o assessor da Secretaria de Telecomunicações do Ministério das Comunicações Flávio Lenz César, o gerente técnico do Laboratório de Desenvolvimento de Hardware do Instituto Nacional de Telecomunicações, Luciano Leonel Mendes e o professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Zalkind Lincoln Dantas Rocha.

Ter, tem. Mas acabou

Tenho notado a imensa dificuldade de vários moçambicanos dizerem “não” para mim. Noto, inclusive, ser algo meio que geral. Um esforço contínuo para não contrariar.

Já cansei de, depois de uma explicação longa, perguntar se o interlocutor entendeu e ouvir “sim”. Pra logo depois ficar claro que a resposta mais adequada seria “não”.

É normal entrar na loja ou no restaurante e, ao perguntar se tem determinada coisa, ouvir como resposta um suspiro, seguido da frase “ter, temos. Mas hoje acabou”.

Ainda não sei o motivo, mas a gente vai descobrindo e passa a entender melhor. É assim com tudo.

Por exemplo: não compreendia porque as filas aqui (no banco, no mercado, na loja) são aparentemente tão bagunçadas. O sujeito não fica na fila, paradinho; sai andando, conversa no canto com outras pessoas. Mas sabe exatamente quem estava na frente dele e quem está atrás.

Creio ser reflexo do tempo da guerra, da falta de tudo. O fulano ficava horas e horas em várias filas. Assim, marcava seu lugar aqui e ali ao mesmo tempo, para comprar um pão e um pouquinho de açúcar, por exemplo. Também fazia isso pra andar um pouco, porque não havia paciência que desse. Se não fosse assim, andando de fila em fila, não conseguia pão, açucar, nada.

A guerra acabou, não falta mais comida (ou: pra muita gente ainda falta, mas não pra quem frequenta supermercado), mas a fila ficou desse jeito.

Sobre o não dizer “não”, um amigo biológo garantiu que é de todo mundo para todo mundo. E contou uma história bem ilustrativa.

Ele estava no norte, para elencar os animais de determinada região. Na mata, de manhã, ouviu um barulho que julgou ser de um pássaro. Escutou, escutou, mas não conseguiu identificar que bicho era. Então, perguntou ao guia que o acompanhava:

“Que pássaro é esse mesmo?”

O rapaz olhou pra ele, deu um suspiro e disse “Patrão, aqui nessa região, chamamos esse pássaro de sapo”.