Pela última vez como presidente, Lula se despede da África

Maputo despediu-se de Lula com muita gente na pista do aeroporto. Na correria, não tirei nenhuma foto em que ele aparece…

Bélia adorou ver o presidente “de pertinho”, mas ficou mais radiante quando ela e o Estevão, nosso cinegrafista, foram apresentados ao presidente moçambicano, Armando Guebuza.

Como toda visita presidencial, houve muito trabalho, muita tensão e – isso nem sempre é assim – muita notícia.

Lula parou para falar conosco nos três dias, em entrevistas rápidas, mas organizadas.

Como dizemos no nosso jargão, “deu lead”.

10/11/2010
Moçambique: Lula volta a defender Enem, mas diz que prova pode ser refeita

Eduardo Castro
Correspondente da EBC na África

Maputo (Moçambique) – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse hoje (10) que qualquer problema ocorrido nas provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) não invalida os resultados alcançados e que o processo vai continuar. “O Enem é um exemplo de uma coisa bem-sucedida. Se tem problemas, vamos consertar”, afirmou. Lula falou com os jornalistas na Base Aérea de Malavane, minutos antes de deixar a capital moçambicana rumo à Coreia do Sul, onde participa da reunião do G20.

O presidente garantiu que a Polícia Federal vai investigar para saber o que ocorreu efetivamente no exame e que nenhum jovem vai ficar sem cursar a universidade. “Se for necessário fazer uma prova, faremos; se forem necessárias duas, faremos. Mas o Enem vai continuar a ser fortalecido. É isso.”

Sobre a recomendação do Tribunal de Contas da União (TCU) de paralisar 32 obras públicas por irregularidades graves, Lula disse que o ato é uma questão administrativa. Do total, 18 são do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O relatório foi entregue ao Congresso Nacional, que decidirá se aceita a recomendação.

“Se o TCU encontrou alguma irregularidade, na lógica dele, numa obra, pode ficar certo que o ministério atingido vai entrar com recursos e isso certamente será resolvido”, afirmou Lula. “No fundo, faz parte da normalidade administrativa do nosso país”.

Sobre a prisão de um dos chefes da Receita Federal no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, e mais 22 pessoas, por suspeita de fraudar importações, o presidente disse que o fato mostra a seriedade do trabalho da polícia brasileira. “Seja quem quer que seja – do presidente ao menor servidor público – só tem um jeito de não ser molestado: é andar na linha.”

No último compromisso antes de deixar Moçambique, o presidente Lula visitou as futuras instalações da fábrica de remédios antiaids, que está sendo montada com patrocínio do governo brasileiro. Depois de uma espera de sete anos, a primeira máquina foi instalada para treinamento.

A mineradora brasileira Vale anunciou que irá ajudar o governo moçambicano a completar o valor necessário (U$ 4,5 milhões, aproximadamente R$ 7,6 milhões) para a adequações do prédio que vai abrigar os laboratórios. O investimento do governo brasileiro foi de R$ 13,6 milhões. A meta é produzir 250 milhões de comprimidos até 2012.

A comitiva do presidente deixou Maputo logo depois do meio-dia, hora local (8h em Brasília). A aeronave fará uma escala para abastecimento nas Ilhas Maldivas e desembarca em Seul ao meio-dia de amanhã (11), pelo horário local.

Anúncios

Lula, os empresários e os predadores

Na coletiva, o presidente disse que fez o comentário sem ter ouvido ninguém reclamar diretamente.

Mas eu, que moro aqui, tenho escutado os primeiros murmúrios contra o Brasil. Algo até natural para quem começa a ocupar espaço.

A China também é alvo. Mas – cá entre nós – eles fazem por onde: trazem até os trabalhadores para as obras que constróem aqui.

O Brasil faz bem de demonstrar que seu interesse na África é muito mais profundo que o buraco aberto por qualquer mineradora.

O Lula fala toda hora da “impagável dívida histórica”. Mas também na cooperação “sem imposições.”

Deve ser assim. E não pode deixar de ser.

Caso contrário, traria só escavadeiras. Mas trouxe microscópios, livros, computadores.

E conhecimento.

Reportagem da Agência Brasil.

09/11/2010
Lula pede que empresários brasileiros não atuem como predadores na África

Eduardo Castro
Correspondente da EBC na África

Maputo – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva exortou hoje (9) os empresários brasileiros que atuam na África a não serem “predadores”. “As empresas brasileiras não estão aqui apenas para explorar o potencial mineral de Moçambique”, disse Lula, ao discursar durante jantar oferecido pelo presidente moçambicano Armando Guebuza à delegação brasileira. “Estão aqui para ajudar as economias desses países também”.

Depois de ouvir vários elogios na fala do presidente Guebuza, Lula afirmou que a presidenta eleita Dima Rousseff irá manter a política de valorização do relacionamento com o Continente Africano. “Vai continuar e se fortalecer. Estamos apenas começando”.

Segundo ele, a “dívida histórica” do Brasil com a África é impagável em termos financeiros, mas o Brasil tem conhecimento e está disposto a compartilhá-lo com os países africanos. O presidente mencionou as iniciativas de cooperação que o Brasil mantém com Moçambique, como o lançamento dos polos de ensino a distância ligados à Universidade Aberta do Brasil (primeiro evento do dia) e a construção de uma fábrica de remédios antiaids, que será visitada amanhã (10).

Antes do jantar, os presidentes Lula e Guebuza acompanharam a assinatura de atos e acordos bilaterais pelos chanceleres Celso Amorim e Oldemiro Baloi. Pelo primeiro, o governo brasileiro investirá cerca de R$ 900 mil (US$ 519 mil) em dois anos de projeto que prevê a instalação do banco de leite, aquisição de equipamentos, transferência de tecnologia e capacitação de profissionais. O banco de leite será instalado no Hospital Central de Maputo, o maior da capital moçambicana.

A cada mil crianças que nascem em Moçambique, 48 morrem nos primeiros 28 dias. No Brasil, são 13,8 óbitos por cada mil nascidos vivos. Estatísticas internacionais mostram que o leite materno pode reduzir até 13% as mortes de crianças menores de 5 anos.

De acordo com o Ministério da Saúde, o Brasil tem a maior rede de bancos de leite do mundo, com mais de 190 unidades que atendem cerca de 100 mil recém-nascidos por ano. Cento e quatorze mil mulheres doaram leite para o banco brasileiro no ano passado. A tecnologia brasileira de controle de qualidade e processamento do leite é referência para vários países latino-americanos, caribenhos, africanos e europeus.

Outro acordo assinado prevê cooperação técnica para criação de um instituto de excelência voltado à saúde maternoinfantil em Moçambique. O Brasil doará cerca de R$ 260 mil (US$ 150 mil) para a implantação de um centro de telessaúde da mulher, da criança e do adolescente, de uma biblioteca virtual em saúde e do programa de ensino a distância para capacitação de profissionais.

Edição: Nádia Franco

Lula visita Maputo pela terceira vez. A TV Brasil acompanhou

Falou de educação, G-20, comércio, câmbio…

Gravamos, gravamos, gravamos. Editamos, editamos, editamos.

Mas o tempo, em TV, é implacável.


Você assiste à reportagem clicando aqui

Lula e a universidade aberta

Reportagem publicada na Agência Brasil

09/11/2010
Em Moçambique, Lula chama de “pequena revolução” avanços educacionais brasileiros dos últimos anos

Eduardo Castro
Correspondente da EBC na África

Maputo (Moçambique) – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu hoje (9) o papel do Estado na educação ao lembrar as iniciativas do setor ao longo de seus dois mandatos, que chamou de “pequena revolução”.

“Não permitam que se repita aqui o erro do Brasil da década de 90”, disse o presidente durante a aula inaugural de três polos da Universidade Aberta do Brasil na capital moçambicana. “Quem vai resolver o problema da educação é o Estado. Ele é razão da nossa existência e nós somos razão da existência dele.”

Lula ministrou a aula inaugural da primeira turma da Universidade Aberta do Brasil (UAB) no exterior. No total, 620 estudantes acompanharam a palestra no auditório da Universidade Pedagógica em Maputo e nos polos presenciais das cidades de Lichinga e Beira, ambos em Moçambique. A ideia é, em seis meses, integrar mais três cidades à rede, chegando a nove palos em 2012.

Quando explicou os motivos que levam o governo brasileiro a criar polos de estudo a distância em parceira com universidades de Moçambique, Lula voltou a falar da dívida “histórica” com o povo africano e da necessidade de ambas as nações sentirem-se capazes de sair da condição de pobres ou emergentes.

“É construir um futuro em que o Sul não deve ser dependente do Norte. Devermos ser tão importantes ou sabidos quanto eles”, disse Lula, ao afirmar que o Brasil é uma mistura de africanos, indígenas e brancos. “É uma vantagem comparativa, mas como tivemos a cabeça colonizada por séculos, aprendemos que somos seres inferiores. E que todo mundo que enrola a língua é melhor que nós”, afirmou.

Lula disse que é preciso ter a convicção de que só o estudo pode garantir às pessoas a igualdade de oportunidades, de emprego, salário. “Acho que todo mundo pode levantar a cabeça e tornar o mundo mais igual. E isso se dará pela educação”, afirmou.

Segundo ele, o lançamento do projeto da Universidade Aberta do Brasil na África foi a realização de um “sonho de anos”, lamentando que, “nas relações internacionais, as coisas demoram mais do que a gente gostaria”. Segundo ele, ainda este ano o governo quer lançar a pedra fundamental da Universidade Afro-Brasileira, em Redenção, no Ceará (onde começou a luta contra a escravidão).

A Universidade Pedagógica de Moçambique (UP) e Universidade Eduardo Mondlane são as primeira instituições estrangeiras a fazer parte da Universidade Aberta do Brasil. As aulas devem começar antes do fim do ano.

Criada em 2006, a UAB é um sistema integrado por 91 universidades públicas, que oferece cursos de nível superior por meio da educação a distância. A prioridade é dar formação aos professores que atuam na educação básica. Atualmente, ela tem cerca de 600 polos – todos no Brasil – com aproximadamente 200 mil alunos.

A expectativa é que mais de sete mil estudantes participem de quatro cursos em quatro anos, nas disciplinas de gestão pública, pedagogia, matemática e biologia. Os diplomas serão reconhecidos nos dois países e os cursos terão metade do currículo desenvolvido em cada um deles, bem como o número de professores.

“Duvido que vamos encontrar no mundo um projeto de colaboração tão bem construído, trabalhado e discutido”, afirmou Carlos Bielshowsky, secretário nacional de ensino a distância do Ministério da Educação (MEC). “Diferentemente de outros que conheço, não foi feito no sentido Sul-Norte, com imposições.”

Professores da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UniRio), Universidade Federal Fluminense (UFF), Universidade Federal de Juiz de Fora e Universidade Federal de Goiás irão trabalhar na implantação dos cursos. Um coordenador residente virá da Universidade Federal de Mato Grosso. O projeto tem financiamento garantido de US$ 32 milhões (R$ 54 milhões).

Edição: Talita Cavalcante