Consciência Negra

Na Agência Brasil há muitas informações sobre o Dia da Consciência Negra.
Clique aqui pra ver uma das várias reportagens. E aqui pra ler outra.

E aí embaixo, a contribuição aqui da África.

Clicando aqui, você vê a versão para a TV Brasil, que tratou do assunto a semana inteira no nosso telejornal Repórter Brasil.

E daqui até o fim do post, três reportagens publicadas na Agência Brasil

20/11/2010
Exposição marca Semana da Consciência Negra em Moçambique

Eduardo Castro
Correspondente da EBC na África

Maputo – Como parte das celebrações da Semana da Consciência Negra, o Centro Cultural Brasil-Moçambique inaugurou esta semana a exposição Cartas d’África. É uma coletânea de fotografias e cartas de africanos descendentes de brasileiros que vivem no Togo, na Nigéria, em Benin e Gana. A mostra é organizada pelo diplomata brasileiro Carlos da Fonseca.

Durante três anos, Fonseca localizou famílias que tiveram ascendentes entre os escravos que, depois de libertos, retornaram à África. Essas pessoas escreveram mensagens para os brasileiros, simbolicamente endereçadas aos parentes que ficaram no Brasil.

No livro de assinaturas da exposição, o diplomata diz que “as marcas do Brasil sobreviveram nessa comunidade e, aos poucos, foram se incorporando à bagagem cultural local”. Ele dá como exemplos as festas do Nosso Senhor do Bonfim e o carnaval, a arquitetura do centro de Lagos (Nigéria), Porto-Novo e Uidá (ambos em Benin), a culinária, a fé, a educação majoritariamente católica e até o vocabulário nessas regiões africanas, que também inclui cidades como Aguê (Benin), Lomé (Togo) ou Acra (Gana).

Estima-se em mais de 8 mil o número de escravos libertos que retornaram à África – ou foram para o continente pela primeira vez, já que muitos nasceram no Brasil. O movimento começou em 1830 e seguiu até o início do século 20. Os chamados “retornados” buscavam oportunidades que não tinham no Brasil escravocrata ou recém-saído da escravidão.

Alguns dos “retornados” tiveram participação relevante na história nos países que os acolheram. Francisco Félix de Souza, o Chachá, baiano de nascimento, se estabeleceu no Benin e ficou rico, lucrando com o próprio tráfico negreiro. Ele foi sucedido nos negócios por outro retornado, Domingos José Martins.

Na Nigéria, João Esan da Rocha fez fortuna ao instalar o primeiro poço artesiano da cidade de Lagos, em um bairro até hoje conhecido como Distrito Brasileiro. Adeyemo Alakija, filho do liberto Marcolino Assunção, fundou o primeiro partido político do país, o Action Group.

Em Gana, uma imensa comunidade, conhecida hoje como “Tabom”, (batizada por causa da expressão ‘tá bom’) descende de retornados brasileiros, bem com o primeiro presidente do Togo, Sylvanus Olympio, morto no poder, em 1963.

A exposição, que é itinerante, fica em Maputo até o dia 2 de dezembro. Ela já esteve nos países retratados pelas cartas e no Congresso Nacional, em Brasília. Também estão sendo planejadas montagens em Cabo Verde, Angola e São Tomé e Príncipe.

Edição: Aécio Amado

20/11/2010
Ex-presidente de Moçambique elogia atual relação do Brasil com a África

Eduardo Castro
Correspondente da EBC na África

Maputo – Já não era sem tempo. Para o ex-presidente moçambicano Joaquim Chissano, a valorização que o Brasil fez nos últimos anos com relação à África demorou a acontecer. “Eu era muito crítico do Brasil quando ele, como se diz na gíria, ‘não ligava a mínima’ para a África”, afirmou. “Isso mesmo sendo o país mais africano depois da África. Mas, ultimamente, de uns anos pra cá, estou satisfeito pela valorização dessa história e dessa ligação”, completou.

Chissano dirigiu o governo de transição que vigorou em Moçambique entre o acordo de independência com Portugal (assinado em 7 de setembro de 1974) e a passagem do poder para os moçambicanos (em 25 de junho de 1975). Ele acha que por muito tempo os africanos também não se interessavam pelo Brasil. Mas, aqui, isso foi revertido antes. “Começamos a ver mais interesse, demonstrado pelo número de embaixadas africanas no Brasil. Que agora traz muitas embaixadas brasileiras para a África. O tratamento na sociedade melhorou bastante”, disse.

Para Chissano, a integração dos negros na sociedade brasileira é um processo ainda incompleto. “O relacionamento entre os brasileiros de origem caracteristicamente africanas e outros brasileiros precisa ser melhorado. Eu já disse isso em público lá e continuo a dizer, para dar apoio a este processo, que me agrada e está indo. Mas é bom que a gente diga a verdade, para que as coisas melhorem”.

Primeiro ministro de negócios estrangeiros de Moçambique e seu segundo presidente, empossado depois da morte em uma acidente de avião do então presidente Samora Machel, em 1986, Chissano diz não se lembrar de negros representando o Brasil nos fóruns internacionais.“Não sei se de cinco anos pra cá mudou, mas não me lembro de um embaixador negro brasileiro, por exemplo. Na diplomacia brasileira é raro ver os negros, enquanto que, para os norte-americanos, onde também havia escravatura e discriminação, a coisa mudou já há vários tempos.”

Chissano sentiu o racismo na pele, ao ser o primeiro negro a se matricular no Liceu Salazar de Maputo (atual Escola Secundária Josina Machel), em 1951. Para ele, as portas no Brasil estão sendo abertas para a integração racial. “É um processo. Não estou a pensar em estardalhaços. Digo isso porque, uma vez eu estava a visitar o Brasil, e um grupo de negros me dizia ‘ah, mas o senhor devia nos dizer como e que vocês fizeram a luta contra os portugueses’. E eu disse: ‘nada disso no Brasil. Não necessitam disso. Aqui vocês são todos brasileiros, e devem dialogar e puxar para promoção de um lado ou do outro. Nada de guerrilhas’, afirmou. “No Brasil há todas condições. Simplesmente é preciso que as consciências subam um pouco mais, se deem conta do que se passa”, completou Chissano.

21/11/2010
Visita de Lula a Moçambique foi destaque durante uma semana na imprensa local

Eduardo Castro
Correspondente da EBC na África

Maputo – A recente visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Moçambique colocou o Brasil na primeira página dos jornais do país por mais de uma semana. “Entre Moçambique e Brasil: crise mundial não afeta cooperação econômica”, escreveu o estatal Notícias. No semanário A Verdade, um dos destaques era “Brasil vai continuar com a política de aproximação a África”.

O tratamento dispensado ao continente rendeu um artigo do colunista Belisário Cumbe no jornal O País, no qual ele lembra que, em oito anos, o presidente esteve em 27 países africanos, em 12 viagens. “Superou o presidente chinês Hu Jintao, que visitou 19 em oito viagens, desde que assumiu o cargo a 15 março de 2003”, escreve o articulista, que lembra que, apesar do esforço institucional brasileiro, “a balança comercial entre a China e o continente africano é seis vezes superior a estabelecida entre a África e o Brasil”.

“Acho que o Brasil está cada vez mais próximo da África – que é o seu berço”, afirma o ministro do desenvolvimento de Moçambique, Ayuba Cureneia. “Aliás, o presidente Lula foi muito pragmático nesse sentido. Abriu o Brasil para a África e a África para o Brasil. Intensificamos as nossas relações, principalmente econômicas, onde praticamente não tínhamos nada”.

Com a crise econômica internacional de 2008/2009, a busca por mercados alternativos tornou-se mais comum em todo o mundo. Mas a opção brasileira foi feita antes. Algo valorizado pelos africanos.

“Neste momento, temos grandes empresas brasileiras trabalhando no país e há uma grande perspectiva de exportação dos nossos produtos para o Brasil”, afirma Cureneia. “Também há uma grande expectativa de importação da tecnologia brasileira, principalmente para a agroindústria. Temos agora a fábrica de antirretrovirais sendo montada, que é importante para o país. Penso que essas relações vão se incrementar cada vez mais. E isso é importante”.

Entre 2002 e 2008, as exportações para o Continente Africano mais do que triplicaram. Angola, o principal parceiro comercial brasileiro na África, é um dos maiores destinos das vendas nacionais no exterior, à frente de Canadá, Emirados Árabes Unidos, Austrália e Índia. Lá os investimentos superam U$ 4 bilhões (R$ 6,8 bilhões).

A presença mais forte nem sempre é interpretada como positiva. É mais comum nos jornais africanos aparecerem referência sobre o que chamam de “neoimperialismo” brasileiro, bem como críticas endereçadas aos grandes empregadores no continente, como a mineradora Vale e várias empreiteiras, bem como aos projetos de exploração de recursos minerais, que podem gerar passivos ambientais.

Durante a última visita a Moçambique, entre os dias 8 e 10 de novembro, o presidente Lula enfatizou que as empresas brasileiras não podem ser “predatórias”. “É preciso que todo o processo de investimento leve em conta o desenvolvimento, mas também a preservação ambiental”, afirmou.

Além da economia, o Brasil aumentou as ações de apoio à pesquisa e troca de tecnologias com a África. Na Agência Brasileira de Cooperação são cerca de 150 projetos de cooperação, com prioridade para países lusófonos (Angola, Moçambique, Guiné Bissau, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde) e em outras nações como Benin, Burkina Faso, Chade, Mali, Gana e Botsuana.

“Essa viragem [virada] foi muito importante, não só para os africanos como também para a comunidade brasileira, porque, finalmente, reencontramos o que há de comum”, acredita o embaixador angolano em Moçambique, João Garcia Bires. “Foi o reencontro do Brasil com sua parte que estava esquecida. Não sei se mãe, ou pai; mas uma é parte importante”.

Edição: Aécio Amado

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2 comentários em “Consciência Negra

  1. Muito interessante saber os detalhes da iniciativa da exposição Cartas d’África. Soube da exposição por aqui mas não tinha idéia de como o Diplomata havia levado a cabo o projeto. Ótimo o VT da série Consciência Negra…

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