Ter, tem. Mas acabou

Tenho notado a imensa dificuldade de vários moçambicanos dizerem “não” para mim. Noto, inclusive, ser algo meio que geral. Um esforço contínuo para não contrariar.

Já cansei de, depois de uma explicação longa, perguntar se o interlocutor entendeu e ouvir “sim”. Pra logo depois ficar claro que a resposta mais adequada seria “não”.

É normal entrar na loja ou no restaurante e, ao perguntar se tem determinada coisa, ouvir como resposta um suspiro, seguido da frase “ter, temos. Mas hoje acabou”.

Ainda não sei o motivo, mas a gente vai descobrindo e passa a entender melhor. É assim com tudo.

Por exemplo: não compreendia porque as filas aqui (no banco, no mercado, na loja) são aparentemente tão bagunçadas. O sujeito não fica na fila, paradinho; sai andando, conversa no canto com outras pessoas. Mas sabe exatamente quem estava na frente dele e quem está atrás.

Creio ser reflexo do tempo da guerra, da falta de tudo. O fulano ficava horas e horas em várias filas. Assim, marcava seu lugar aqui e ali ao mesmo tempo, para comprar um pão e um pouquinho de açúcar, por exemplo. Também fazia isso pra andar um pouco, porque não havia paciência que desse. Se não fosse assim, andando de fila em fila, não conseguia pão, açucar, nada.

A guerra acabou, não falta mais comida (ou: pra muita gente ainda falta, mas não pra quem frequenta supermercado), mas a fila ficou desse jeito.

Sobre o não dizer “não”, um amigo biológo garantiu que é de todo mundo para todo mundo. E contou uma história bem ilustrativa.

Ele estava no norte, para elencar os animais de determinada região. Na mata, de manhã, ouviu um barulho que julgou ser de um pássaro. Escutou, escutou, mas não conseguiu identificar que bicho era. Então, perguntou ao guia que o acompanhava:

“Que pássaro é esse mesmo?”

O rapaz olhou pra ele, deu um suspiro e disse “Patrão, aqui nessa região, chamamos esse pássaro de sapo”.

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Um comentário em “Ter, tem. Mas acabou

  1. Que delicadeza, se essa dificuldade de dizer “não” for para não contrariar! Já pensou um mundo onde não ouvesse tantos “não” desnecessários? Meu sonho. Hoje mesmo ouvi tantos “não” de uma pessoa tão DESAGRADÁVEL na recepção de um hospital; mas a colega do guichê do lado sentiu vergonha por ela e me retribuiu com um SIM que salvou o meu dia e me fez acreditar que esse mundo ainda tem jeito!!! Abração

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