Stá tudu dretu, crioulo?

A frase aí em cima está corretíssimamente escrita – em crioulo caboverdiano.

Leia rápido e em voz alta que você descobre o que quer dizer. Isso mesmo: “está tudo direito?” Ou, “tudo bem?”

Já ouvi de uns entendidos aí que crioulo é português mal falado. Não deixa de ser certa verdade. Quase todos os vocábulos são em português, embora tenha coisa do francês. A gramática não foi formalizada ainda. A estrutura é diferente, mas é bem possível de acompanhar. Também é fácil distinguir até alguns “pra mó de faze”, “pra mó de cume” no meio das frases.

Mas lembro que o próprio português surgiu não passando muito de um latim vulgar – e mal falado. Não vejo muita diferença.

Aqui há quem defenda que o crioulo passe a ser idioma oficial do país (hoje é só o português). Ele é falado por todos, com variações regionais. Todos mesmo – ricos, pobres, de lá, de cá. Mesmo assim, também há quem queira que tudo continue como está: sem gramática, sem oficialização, sem ensino. Ou seja: fazendo de conta que não a língua existe.

Cinco dias aqui já me fez ver que esses últimos vão perder logo, logo. Se há algum lugar em que o português pode sumir com o tempo, é aqui. Em Angola e Moçambique, a língua de Camões (e MC Leozinho também, pra ficar só nos clássicos) tem um papel fundamental na unidade nacional: os idiomas locais são muitos e muito diferentes entre si. Sem o português, o norte não entende o sul, que não entende o centro, que não entende o norte. E nem se fala em escolher um idioma local pra chamar de nacional – seria guerra na certa.

Aqui não é assim.

A chance do português sobreviver aqui é a turma pôr na cabeça que, se ficar falando só crioulo, vai perder o ponto de contato com 250 milhões de pessoas no mundo. Um belo motivo, diga-se. Afinal, como é que se iria acompanhar os cultos da Universal, as novelas Caminho das Índias e Beleza Pura, e o show de Alexandre Pires que assisti no restaurante, enquanto comia, na hora do almoço? Traduzido nunca é igual, não?

Ouvi e entendi – todo em crioulo – o discurso do primeiro ministro José Maria Neves na convenção do partido, hoje, que oficializou sua recandidatura em 6 de fevereiro. Ele elencou os avanços e progressos (por exemplo: pobreza indo de 36% para 24% da população em 10 anos, igualdade de gênero no governo, internet de graça às pampas, e – principalmente – democracia estabelecida, com a certeza de que quem ganhar vai tomar posse. E mesmo que seja a oposição, porque já foi assim uma vez). E nos planos para fazer de Cabo Verde um “cluster de serviços financeiros, marítimos, de TI e aeroportuários”.

Mais um motivo pro português abrir o olho por aqui. Se isso der certo, ele corre o risco de ser atropelado pelo crioulo e – of córse, mai rorse – pelo inglês também.

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2 comentários em “Stá tudu dretu, crioulo?

  1. Sobrou um tempinho para a praia ou ficou só nessas imagens lindas? Esse crioulo me lembra a “língua” que os adolescentes gostam de usar em msn e outras mensagens na internet rsss. Abs

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