TV Brasil/EBC: obrigado e até breve.

Prezados,

Em 2007, deixei a Bandeirantes – depois de 13 anos – para saltar na criação da TV Brasil e o fortalecimento da comunicação pública no país. Ouvi que era um absurdo trocar certo pelo duvidoso, e outras recomendações de cuidado – além de palavras de puro espanto. Também ouvi insinuações – afirmações até – de que tinha arrumado uma “boquinha”.

Aprendi como nunca, apanhei como nunca, mas não me arrependo. Trabalhei o mesmo de sempre, ganhei um pouco menos (melhor que alguns e pior que muitos), mas me senti realizando algo importante, participando de algo que faz diferença.

Quatro anos depois, sinto isso de novo – e, já sei, vou ouvir muito outra vez. Saio da EBC e fico aqui na África para ajudar a construir a comunicação no continente do futuro. Irei trabalhar na televisão aqui de Moçambique, um país que é mais novo que eu. Pouca coisa poderia, neste momento, ser mais estimulante.

Na EBC, valeu cada minuto. Vi o Estado por dentro, desfiz meus próprios mitos e preconceitos. Vi gente séria, que luta com e contra os burocratas; burocratas sérios, que lutam contra regras que partem do preceito de que todo mundo é ladrão. Vi que sempre falta dinheiro – sim, no Estado brasileiro falta dinheiro, e não sobra, como muitos querem que você pense.

Mas também vi gente picareta e vagabunda, que acha que não precisa trabalhar porque passou em concurso ou é amigo de alguém; gente que, se ganha um pouquinho de poder, estufa o peito, engrossa a voz e só faz bobagem. Gente que quer servir-se do Estado, e não o contrário. Conheci regras que, pretensamente, serviriam para preservar o dinheiro público, mas só criam mais gastos, acomodam as pessoas e atrasam o país. Lutei contra eles; acho que nos livramos de alguns e algumas.

Fui alvo e vítima de maledicência, incompreensão e inveja – muito gerada por informações truncadas, erradas ou simplesmente falsas. Parte da vida: quem sai na chuva se queima mesmo, diria Vicente Mateus. Quem me conhece, conhece. Já quem me mede pela sua própria régua tem poucas chances de acertar o tamanho.

Também conheci melhor o mundo dos que tentam se comunicar e não têm um espaço para se manifestar. Nunca tinha sentido isso tão de perto. A tal liberdaaaade é para poucos e, se depender de vários destes poucos, será para cada vez menos. Espero ter ajudado a melhorar esse quadro. Levo o que aprendi comigo, para onde for trabalhar a partir de agora.

Na EBC, deixo amigos e alguma coisa feita – lá e cá. Tenho orgulho de ter participado da criação da empresa desde o zero. Vi por dentro como tramitam as leis, como é o funcionamento da máquina pública. Vi como a imprensa se informa mal e chuta miseravelmente a partir do pouco que se digna a (ou consegue, porque há os que realmente tentam) apurar.

Não deu pra fazer tudo – longe disso. E fiz besteira também. As que detectei, tentei consertar. Algumas deixei para trás sem notar. Consertem, por favor.

Aqui, na África, fiz mais de 300 reportagens para a Agência, e mais de 100 para a TV, participações diárias e ao vivo para as rádios. Fui a 9 países, mas falei de dezenas de vários outros, com ajuda das agências, telefone, Skype e assemelhados. Cobri Copa do Mundo (a terceira), viagem presidencial, revolta popular – aqui e no norte do continente (com queda de dois ditadores inclusive), Fórum Social Mundial, e até a criação de um novo país -o Sudão do Sul.

Sem falar no dia a dia, que inclui fome, saúde precária, pobreza extrema. Mas também crescimento, melhora de quadro e busca por soluções. Aqui, em Moçambique, se estuda a sério a vacina anti-malária. Está mais perto do que qualquer outro lugar. Contar isso foi uma grande satisfação.

A África deixou de só sobreviver dia a dia; começa a poder pensar no futuro. Claro que ainda não é para todos. Mas está começando. Só ver isso de perto já estava interessante. Participar disso, minimamente que seja, será gratificante.

Nos vemos aí. Ou por aqui. Ou, certamente, por aí.

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BioÁfrica

Biocombustíveis na África podem mudar a cara do continente.

Baixar gastos com petróleo – muita grana, que pode ir pra outras coisas.

Poluir muito menos. Gerar emprego.

Isso, se for com cuidado e responsabilidade.

Se trouxer emprego decente e deixar a tecnologia aqui.

Se ajudar na educação profissional. Se levar infraestrutura para onde não tem.

Se não encher o país só de cana, porque aqui precisa de muito mais comida.

Se bem que, pelo que compreendi, o problema da fome não é, propriamente, só produção. Mas distribuição principalmente.

Em suma: a culpa, mesmo, é do busínes.

25/02/2011
Brasil vai ajudar Moçambique em estudo para produção de biocombustíveis

Eduardo Castro
Correspondente da EBC na África

Maputo (Moçambique) – Brasil, União Europeia e Moçambique anunciaram hoje (25) o início de estudos conjuntos para determinar o potencial do território moçambicano para produzir biocombustíveis. Será o primeiro país africano a se beneficiar da cooperação, que pretende auxiliar na implementação de projetos nesse setor em várias partes do continente.

“Esperamos que esse projeto contribua para criar um mercado mundial de biocombustíveis”, disse o embaixador André Amado, subsecretário de Energia e Alta Tecnologia do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, durante a cerimônia de lançamento, em Maputo. “Biocombustíveis são uma benção”, afirmou.

O trabalho será conduzido por técnicos da Fundação Getulio Vargas e financiado pela mineradora Vale, ambas brasileiras. O projeto estava previsto desde a assinatura de um uma declaração conjunta, em julho do ano passado.

Moçambique estuda como produzir e usar biocombustíveis em larga escala desde 2007. Dois anos depois, o país aprovou a Estratégia Nacional para o setor, que será majoritariamente explorado por investidores privados.

Segundo o ministro de energia de Moçambique, ainda este ano deve ser aprovada a lei que obriga a misturar álcool à gasolina e biodiesel ao óleo diesel. “Será uma forma de criar o mercado”, afirmou Salvador Namburete. De acordo com o ministro, a regra vai determinar um prazo para a adoção da mistura. Também vai estipular que, caso ainda não haja produção nacional suficiente, Moçambique deverá importar biocombustível para completar a porcentagem. “Acredito ser possível comprarmos viaturas [automóveis] com motor flexível, produzidos no Brasil, por exemplo.”

Para Namburete, “o biocombustível é o caminho”, ainda mais agora, com a nova escalada nos preços do petróleo, por causa da crise política nos países produtores, como a Líbia. “Algumas projeções falam em fecharmos o ano com barril custando acima de U$ 220. Em 2008, quando houve uma queda de preços, houve quem acreditasse que o problema tinha acabado. Agora, estamos algumas estacas à frente”.

O passo inicial da cooperação é fazer o levantamento completo das condições de relevo, clima, solo, sociais, ambientais, de mercado, de infraestrutura e de marco legal do país. Tudo o que pode impactar na sustentabilidade e viabilidade da produção da bioenergia. Moçambique já tem parte do trabalho feito, o que deve abreviar a primeira etapa, prevista para terminar em setembro.

Identificadas as áreas adequadas para o cultivo, o estudo recomendará modelos de negócio e projetos, que poderão envolver etanol, bioeletricidade, biodiesel, biomassa sólida, ou ainda uma combinação entre elas, ou com a produção de alimentos. A expectativa é que os primeiros resultados surjam em cerca de três anos.

“Moçambique tem tudo para ser um dos líderes africanos na produção de biocombustíveis”, afirmou César Campos, da Fundação Getulio Vargas. “[O país] está entre o Trópico de Capricórnio e a [a linha do] Equador, e no meio do caminho entre a Europa e a Ásia”, disse.

O projeto, segundo ele, está preocupado em integrar a comunidade nas ações e nos resultados, gerando empregos de forma sustentável. “A ideia é sempre aproveitar áreas já degradadas e incluir as comunidades e também a produção de alimentos”, declarou Campos. “Experiências anteriores, como culturas de algodão, só perpetuaram a pobreza aqui, e não nos interessa repetir o modelo”, disse o ministro Namburete.

O ministro diz ser algo equacionável plantar para produzir combustível em um país que ainda tem parte da sua população passando fome. “Temos consciência dos desafios quanto ao uso da terra, e vamos trabalhar para que haja o equilíbrio com a produção alimentar. Está provado que o futuro será a coexistência, e não o conflito”, afirmou. “Esse problema não se põe aqui.”

O representante do governo brasileiro reforçou que “o biocombustível não compete com a produção de alimentos, porque sua produtividade é muito alta”. “Mas é preciso ser responsável na aplicação, levando em conta as particularidades locais, sem simplesmente repetir o que funcionou em um país no outro”, disse André Amado. “Não é a panaceia para todos os problemas. Mas, certamente, tem seu lugar no desenvolvimento da África.”

O embaixador afirmou ainda que o projeto envolve transferência de conhecimento e tecnologia. “Não interessa nem ao investidor que, caso quebre uma máquina, ele tenha que fazer manutenção no país vizinho”, disse.

Edição: Talita Cavalcante

Luanda e Maputo atraem imigrantes

Eles vêm da África e da Ásia atrás da famosa “vida melhor”.

Sinal de que Angola e Moçambique já têm seus atrativos.

Ou, pelo menos, já criam essa ilusão na cabeça de outros povos.

E pensar que 20 anos atrás os dois estavam enfiados na guerra civil.

A pobreza ainda é enorme, os problemas também.

Mas…

Pra quem não conhece: é Luanda aí em cima. E Maputo aqui embaixo.

Reportagem da Agência Brasil.

24/02/2011
Serviço de Imigração de Angola detém estrangeiros que tentavam entrar ilegalmente no país

Eduardo Castro
Correspondente da EBC na África

Maputo (Moçambique) – Vinte e um cidadãos do Mali, da Costa do Marfim, Guiné-Bissau, República da Guiné e do Senegal foram detidos nessa quarta-feira (23) ao tentar desembarcar ilegalmente em Angola. O grupo foi detido em Cacuaco, às 3h, depois de uma denúncia anônima feita ao Serviço de Migração e Estrangeiros Angolano (SME).

Segundo o diretor do SME, Freitas Neto, grandes redes foram estruturadas em países vizinhos para levar cidadãos ilegalmente para Angola. Graças aos negócios do petróleo, Angola tem recebido vários investimentos estrangeiros nos últimos anos, que geraram grande número de novas construções na capital Luanda. A cidade reúne praticamente metade da população angolana e já não garante emprego para seus próprios habitantes.

As redes de imigrantes ilegais contam com o auxílio de funcionários do próprio SME. Nesta semana, uma agente foi surpreendida ao receber US$ 3 mil de um cidadão brasileiro que estava sem a documentação adequada. A funcionária foi detida. De acordo com o diretor, dez agentes já foram presos este ano.

Em Moçambique, mais de 400 cidadãos procedentes do Paquistão, de Bangladesh, da China e Índia aguardam o repatriamento alojados em um centro de formação de agentes alfandegários em Boane, nas proximidades da capital Maputo. Ainda não há previsão de quando serão embarcados de volta. Eles chegaram ao aeroporto de Maputo, procedentes da Etiópia, sem os documentos adequados.

Na última terça-feira (22), dez dos integrantes do grupo tentaram fugir, mas foram recapturados. De acordo com o comando da polícia, três policiais foram detidos recentemente, acusados de facilitar a fuga de três paquistaneses que aguardavam repatriamento. Os agentes teriam recebido suborno de 10 mil meticais – a moeda do país (cerca de R$ 540).

Edição: Graça Adjuto

Angola também?

23/02/2011
Clima de revolta social no Norte da África pode chegar ao centro da região

Eduardo Castro
Correspondente da EBC na África

Maputo (Moçambique) – O clima de revolta social no Norte da África pode começar a ser sentido no centro do continente, caso a convocação de um grupo angolano dê resultado. “Sem falta, a manifestação antigovernamental em Angola vai começar à 0h do dia 7 de março de 2011, de Cabinda a Cunene”, diz texto divulgado em uma página da internet.

A convocação é assinada por alguém identificado como “Agostinho Jonas Roberto dos Santos” – uma clara referência a figuras históricas do movimento de independência do país (Agostinho Neto, Jonas Savimbi, Holden Roberto e Wilson dos Santos).

Por e-mail, o autointitulado líder do Movimento Revolucionário do Povo Lutador de Angola (MRPLA) disse à Agência Brasil que infelizmente, por segurança, não pode revelar quem faz parte do grupo. “Mas, estamos na fase final de mobilização do nosso povo para o grande dia”.

Segundo “Agostinho Jonas”, a manifestação não está ligada a nenhum partido politico angolano. “Isso foi uma iniciativa de um jovem. E, como vês, está num bom caminho, porque Angola toda já recebeu a nossa mensagem e temos o apoio de muitos angolanos na diáspora (na França e no Canadá)”, assegurou.

O site convoca a população para uma marcha a partir do Largo da Independência, em Luanda, exigindo a saída do Zé Dú (o presidente angolano José Eduardo dos Santos) e seus ministros. De acordo com a mensagem, “os angolanos estão cansados da pobreza extrema, da cultura de medo e intimidação, da miséria, da autocracia e outros males (…)”.

As reclamações são focadas na figura do presidente (há quase 32 anos no poder), na mudança constitucional que acabou com as eleições diretas para o cargo e o “controle dos recursos” do país, segundo maior produtor de petróleo da África.

A página foi criada em 4 de fevereiro, “tendo como fonte de inspiração as manifestaçõeses no mundo árabe”, segundo o próprio autor. De acordo com ele, até agora o governo não o procurou, apesar do espaço que o assunto tem ganhado em discussões na internet e até em alguns veículos angolanos.

“Estamos muito cautelosos na campanha de mobilização nos nossos bairros e em toda Angola”, afirmou o líder. “Estou a ser diariamente alertado que o MPLA (partido do governo) está à minha procura”.

O secretário de Informação do MPLA, Rui Falcão Pinto de Andrade, não acredita que situação semelhante à dos países do Norte da África se repita em Angola. Citado pela Voz da América (serviço oficial de radiodifusão do governo dos Estados Unidos), Andrade disse acreditar que “José Eduardo dos Santos é um fator de estabilidade para o partido no poder”.

Em entrevista à Rádio Nacional de Angola, o secretário-geral do MPLA, Dino Matross, afirmou que o governo trabalha para a estabilidade do país e alertou que “o poder não pode estar nas ruas”. Para ele, o que for considerado abusivo não será tolerado.

“Nós temos uma nova Constituição, temos leis, e é com base na nova Constituição e nas leis que vamos agir”, disse. “Sabemos o que aconteceu (na guerra civil), perdemos vidas, a infraestrutura foi destruída, quase não havia empregos para as pessoas”.

“Agostinho Jonas” disse que espera pela ação da polícia, caso o protesto convocado por ele para o dia 7 de março realmente ocorra. “Mas estamos a apelar à nossa Polícia Nacional e às Forças Armadas angolanas que juntem-se ao povo, como foi no Egito” acrescentou, na entrevista por e-mail. “Eles não têm nada a perder porque estão na mesma miséria, pobreza e sob um regime que nem se interessa pelas necessidades deles. São benvindos à nossa manifestação”.

A página já provocou várias discussões em outros blogs, onde “Agostinho Jonas” e seu movimento são chamados, entre outros adjetivos, de “aberração”, “logro”, “estranho” (por ter criado um movimento com sigla tão parecida com a do partido do governo), “pouco inteligente” (por ter feito uma convocação pública com muita antecedência). Ele também foi definido como “corajoso” e recebeu palavras de apoio.

“Nós apenas daremos fim a essa manifestação quando [José Eduardo dos] Santos, seus ministros e companheiros renunciarem ao poder e saírem de Angola”, afirmou.

A Embaixada de Angola em Brasília está sem adido de imprensa e não confirmou nem desmentiu as informações sobre uma eventual mobilização no país.

Comida é pasto

Cada vez mais pobres, cada vez mais famintos.

Você tem fome de quê?

23/02/2011
Estudo mostra que setor público africano deve aumentar investimentos na agricultura

Eduardo Castro
Correspondente da EBC na África

Maputo (Moçambique) – O setor público deve aumentar os investimentos na agricultura na África, onde a produtividade agrícola ainda é muito baixa. A conclusão está no estudo Perspectiva para uma Agricultura Comercial na África Subsaariana, divulgado este mês em Maputo pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e pelo Banco Mundial.

Em Moçambique, por exemplo, cada hectare gerava cerca de 60 toneladas de mandioca entre 2004 e 2006. No Brasil, a mesma área produzia mais de 100 toneladas. Na Tailândia, chegava a 140. “Aqui, a maior parte da produção é dos pequenos produtores, de pequena escala – máximo de dois hectares”, diz Calisto Bias, diretor-geral do Instituto de Investigação Agrária de Moçambique. “E a produtividade nessas áreas ainda não é aquela que desejamos. Existe um grande espaço para o aumento da produção das famílias e, por consequência, o aumento da produção nacional”, explica.

De acordo com o diretor, a comercialização e distribuição dos alimentos é outra questão a ser enfrentada. “Isso também inibe a produzir mais. Os produtores ficam apenas no consumo das suas famílias, sem estarem devidamente orientados para o mercado”, afirma Bias.

Em entrevista à TV Brasil no fim do ano passado, o ministro da agricultura José Pacheco indicou que o setor está pronto para dar um salto. “O potencial que o país permite, a curto prazo, sermos uma potência na agricultura, e com uma perspectiva de sustentabilidade”, assegurou. “Isso depende, basicamente, de fazer o uso das nossas capacidades para intervir nas potencialidades agro-ecológicas de Moçambique, para produzirem mais comida”, explicou à época.

No total, 80% da população moçambicana vive basicamente da agricultura, que contribui com cerca de 22% no Produto Interno Bruto do país. As culturas básicas de subsistência são milho, arroz, mapira (espécie de sorgo), amendoim, meixoeira (tipo de cereal), feijões e mandioca. A produção comercial envolve cana-de-açúcar, algodão, tabaco, chá, girassol, copra, gergelim, gengibre, soja, páprica, castanha de caju, entre outras.

O Ministério da Agricultura já disponibiliza sementes e fertilizantes melhorados geneticamente no Instituto de Investigação. “Moçambique já produz quantidades suficientes de milho e mandioca. O problema é a movimentação dessa produção”, diz Calisto Bias. Segundo ele, também já há hortícolas e batata reno em boas quantidades. Quanto ao arroz, o déficit está acima de 300 mil toneladas.

De acordo com o estudo da FAO e do Banco Mundial, a África deve combinar as apostas nos mercados agrícolas interno e global, além de investir em pesquisa, infraestrutura e acesso ao financiamento.

No início do mês, as Nações Unidas fizeram um alerta sobre a possibilidade de falta de alimentos nos países da África Austral, afetados por inundações que danificaram grandes extensões de terras agrícolas.

Outro fator que preocupa os especialistas é o aumento internacional nos preços dos alimentos, que levou 44 milhões de pessoas à pobreza em países em desenvolvimento, desde junho passado. O dado consta de um relatório do Banco Mundial divulgado antes do encontro dos ministros das Finanças do G20, em Paris.

De acordo com o Food Price Watch, índice do preço dos alimentos do Banco Mundial, o acréscimo foi da ordem de 15% entre outubro de 2010 e janeiro de 2011 – 29% acima do verificado ano passado.

A internet voltou. Mas Khadafi continua

Uns vão e voltam – a internet, por exemplo.

Já alguns não vão nunca.

Inevitável, sobre Khadafi: em 2003, Lula foi recebido por ele na tenda montada dentro do complexo do Palácio (que foi bombardeado pelos americanos nos anos 80 e continua lá, sem ter sido mexido).

Nós, os jornalistas, chegamos correndo, porque uma multidão bloqueou o comboio. Tinha até cavalo no meio da pista…

Correndo chegamos, corremos entramos na tenda, cercada pelas famosas seguranças-mulheres. A tempo de ver (e fazer a imagem do) Lula cumprimentando Khadafi, a uns cinco metros de mim. Logo atrás vem o Fernando Rodrigues, da Folha, esbaforido, que bate o olho e manda, baixinho no meu ouvido:

“Ih, ó lá! O Khadafi é uma mistura de Reginaldo Rossi com Wanderlei Luxemburgo!”

Minhas pernas ficaram bambas e meu rosto vermelho, de segurar a gargalhada. Quase cai no colo do Luxa – ops, do coronel Khadafi.

Não foi a única do dia. Terminado o encontro, a comitiva partiu pro hotel Corinthia Bab Africa (todo verde e branco, como, no geral, é a Líbia). Eu, o câmera Ubaldino Motta e o produtor João Beltrão – hoje chefe da Record Brasília – disparamos pro local da geração, a TV estatal. Pegamos carona numa Kombi cujo motorista só falava árabe.

Naquele tempo, quase século passado, não existia geraçao pela internet. Tínhamos que ir onde ficava o famoso “local da geração”, que conectava o satélite com o Brasil, a mil dólares o minuto. Tínhamos dez. Atrasou, perdeu.

Como é mister em países altamente democráticos, fomos parados pelo polícia, para que fosse averiguado o inusitado fato de uma câmera de TV sair por aí, livre e solta. Lembro da cara do polícia, acendendo um cigarro dentro da viatura, com uma luzinha acesa, e nós no escuro.

Liguei para o Heitor, do Itamaraty:

“Ó, a polícia nos parou.”
“E o que ele disse?”
“Meu árabe, ainda que escorreito, não me permite asseverar”.
“Liga avisando”.

Depois do chá de cadeira de praxe (Motta tinha escondido a fita, por via das dúvidas), fomos liberados com a ordem expressa de voltar para o hotel (pelo menos foi isso que eu entendi, no meu árabe escorreito). Claro que mandamos o cara tocar pra TV. Mais confusão, mas chegamos, minutos antes do sinal abrir.

Tudo miraculosamente gerado, hora de voltar. O cara da TV queria nossos passaportes, que tinham ficado lá na tenda do Khadafi. Mais telefonemas, mistura de inglês, árabe e italiano… podemos ir. Mas tragam os passaportes amanhã, ok? Ok.

Quando chegamos ao hotel, era uma correria. Afinal, “jornalistas brasileiros haviam sido presos e possivelmente, agredidos” (era o que se dizia lá). Indignação na sala de imprensa, onde já se praparavam as matérias contra a sangrenta ditadura, exigindo a liberdaaade dos colegas…. que éramos eu, Motta e João.

“Bateram em vocês?”, me perguntou o então ministro Ciro Gomes. “Não, nada, só uma chateação lá.” Se não me falha a memória, até o chanceler Celso Amorim veio nos ver, sem contar Johnny Saad, nosso patrão, que fazia parte da comitiva do presidente.

Conheço coleguinha que passou pelo mesmo e quase publicou livro depois, descrevendo as agruras pelas quais- oh! – tinha passado…

Quando é, é. Foi o caso dos nossos Gilvan e Corban lá no Egito, há umas semanas. Mas quando não é, não é.

Abaixo, reportagem da Agência Brasil. Preparo outra, para entre hoje e amanhã, sobre como a coisa espalhou-se pela África. E seguirá se espalhando.

21/02/2011
Ki-moon fala com Khadafi e mostra preocupação com aumento da violência na Líbia

Eduardo Castro
Correspondente da EBC na África

Maputo (Moçambique) – O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, falou hoje (21) por telefone com o presidente da Líbia, Muammar Khadafi. De acordo com o relato distribuído pela ONU, foi uma “ampla conversa”, na qual Moon manifestou “profunda profunda preocupação com o aumento crescente da violência” no país. Ainda de acordo com o texto, o secretário-geral solicitou o fim “imediato” dos atos violentos e apelou pelo respeito “às liberdades fundamentais e aos direitos humanos, incluindo os de associação pacífica e de informação.”

Ki-moon também convocou as autoridades a iniciar um diálogo amplo para responder às preocupações legítimas da população. Não há referência no comunicado às palavras de Khadafi, nem sobre onde ele estaria quando da conversa telefônica. Rumores de que o líder líbio teria deixado o país rumo a Venezuela circulam por vários veículos de comunicações desde o início do desta segunda-feira (21). O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Líbia negou que Khadafi tenha deixado o país.

Na sede das Nações Unidas, em Nova York, diplomatas líbios anunciaram apoio aos protestos antigoverno e pediram interferência da ONU. De acordo com a rede de televisão árabe Al Jazeera, pilotos de dois caças Mirage líbios pousaram sem autorização na Ilha de Malta e pediram asilo, alegando terem se recusado a atirar sobre manifestantes em Benghazi, segunda maior cidade da Líbia e palco de grandes manifestações contra o governo.

Uma marcha em Trípoli teria sido alvo de tiros disparados de aviões militares. A sede do Parlamento estaria entre os prédios incendiados por opositores nos protestos, segundo a Voz da América. Tiros também foram ouvidos na segunda-feira à noite, de acordo com testemunhas. O Departamento de Estado dos Estados Unidos ordenaram a retirada do país de parentes dos diplomatas americanos e de todo o pessoal considerado “não essencial”.

Cortes na internet e nos serviços de telefonia dificultam a comunicação com a Líbia, bem como a verificação de informações de forma independente. Não há nenhuma confirmação sobre o número de mortos nos protestos, apenas relatos de entidades civis não governamentais que apontam para mais de 60 as vítimas fatais apenas nesta segunda-feira.

Edição: Vinicius Doria

Nada de internet ainda

Sem conexão – desde sábado passado.

Lembra que eles tinham dado 72 horas? Pois é. Não foi.

A promessa, agora, é segunda-feira. Vamos ver.

Havendo como, volto a escrever com a frequência de sempre.

Aqui e por aí.

O pouco acesso que tive usei para enviar duas reportagens para a TV Brasil.

Uma sobre a chegada das manifestações à Líbia (tá aqui, ó).

E outra que foi ao ar no Repórter Brasil de sábado, sobre as enchentes em Moçambique. Clique aqui para assistir.

Vamos ver se amanhã retomamos a rotina.

Líbia também?

E então? O dominó segue ou não segue.

Eu não me arrisco. Os especialistas que opinem.

Clicando aqui, você assiste à reportagem da TV Brasil.

17/02/2011
Protestos na Líbia têm forte componente político, diz acadêmico africano

Eduardo Castro
Correspondente da EBC na África

Maputo (Moçambique) – Relatos passados pelas redes sociais na internet informam que pelos menos 14 pessoas foram presas hoje (17) durante manifestações contra o governo da Líbia em Benghazi, a segunda cidade mais populosa do país africano. Os protestos do chamado Dia da Ira foram convocados depois dos conflitos de ontem entre manifestantes oposicionistas e as forças de segurança do governo de Muammar Kadhafi, no poder há 42 anos.

De acordo com a página oposicionista Libya Al-Youm, pelo menos quatro pessoas morreram na quarta-feira (16), na cidade de Baida. Segundo a Agência Lusa, de Portugal, o número de mortos nas quatro principais cidades líbias, incluindo a capital Trípoli, chega a 14.

Para defender o governo, centenas de apoiadores do presidente Muammar Kadhafi saíram às ruas de Tripoli, em uma contraposição às manifestações de Benghazi.

Para o doutor em conflitos africanos Ali Jamal, do Instituto Superior de Relações Internacionais de Moçambique, o cenário dos protestos é o mesmo: Norte da África, países árabes majoritariamente muçulmanos, grandes massas populares empobrecidas e governos autoritários instalados há décadas. “Nesses países há o multipartidarismo de disfarce que, de fato, é um regime de monopartidarismo brutal. Sabemos que as pessoas não têm liberdade de se manifestar.”

Entretanto, segundo Jamal, Tunísia, Egito e Líbia vivem situações diferentes. “Na Tunísia, o grande motivador foi econômico. No Egito, como o governo cedeu, os egípcios sentiram-se fortes para pedir a queda do presidente [Hosni] Mubarak, já com um forte componente político no protesto”.

“Na Líbia, a questão é mais política”, disse o professor. “Muitos dos serviços públicos e benefícios sociais são subsidiados. É um país com uma economia mais estável e muito mais riqueza que alguns vizinhos”. De acordo com o acadêmico, é difícil prever até onde vai a força dos protestos. “O carisma de Muammar Kadhafi é muito grande, apesar de tanto tempo [no poder] e da falta de liberdade política”.

Edição: Vinicius Doria

Mudanças

Estamos mudando de casa – um processo que se alonga por 3 dias.

Deixamos a vizinhança do presidente Guebuza para um apartamento mais ao centro, bem mais perto da Academia de Comunicação, onde a Sandra trabalha e eu comecei a dar aulas.

Minha paranóia com segurança anda atrapalhando meu sono. Mas as providências estão sendo tomadas para garantir toda tranquilidade ao Otto e àqueles que o cercam.

A internet volta algum dia desses. Lembra aquele filme da marmota, o Feitiço do Tempo. O prazo vem se renovando desde domingo, a cada novo telefonema para a prestadora de serviço. Faz 72 horas que a internet volta em 72 horas. Imagino que amanhã, quando ligar reclamando, vão dizer que ela volta em… 72 horas.

Este post é um oferecimento da Academia de Comunicação de Maputo, que me empresta minutos de sua internet (meia boca, que eles lá não ouçam).

Além da casa, outras mudanças virão. Sandra e Otto seguem junto, claro. O barco pode até ser furado, mas sempre nos leva a todos.

Quem dá mais? Quem leva mais?

Táxi em Dacar não dá recibo. Não tem taxímetro. Os carros são antiquíssimos e completamente acabados. O vidro é invariavelmente quebrado. A porta mal fecha. O carro mal anda. No caso de acidente, o grande risco é morrer de tétano, de tanta ferrugem.

Também não tem tabela. Antes de entrar no carro, você diz onde vai e pergunta o preço. Como num mercado árabe, o taxista sempre joga um valor que é, no mínimo, o triplo do que você vai pagar. Daí você diz que “não, isso é um roubo”, ameaça sair, faz uma cena. Então, ele reclama da vida, grita um pouco, e cobra bem menos.

Um teatrinho bem cansativo.

Dacar é arrumada no centro, com uma bela orla com palmeiras (apesar da praia suja). Não tem um único semáforo – só rotatórias e guardas com apito. Como todas as capitais africanas, foi concebida para abrigar meia dúzia de europeus. Os nativos ficavam lá longe, sem nada. Quando veio a independência, a estrutura da cidade não cresceu – nem tinha como. Mas a população sim – e muito.

O povo é pobre (desemprego de 50%, dez camelôs por esquina, analfabetismo de 70%) mas sempre bem vestido, com roupas muito coloridas. As mulheres usam vestidos cheios de babados. Os homens, aquelas batas claras e chapéu. Apesar de muito pano, é agradável de vestir, mesmo no calorão.

Como no norte de Moçambique, é comum ver gente mascando um graveto, para limpar os dentes. Como também é comum em boa parte da África, que pode masca bem mais que o graveto, e rói o osso até o fim. Exemplinho é o presidente levar 20% de royalties do ingresso de quem visita uma imensa estátua sobre o Renascimento Africano, só porque ele teve a grande idéia de inventá-la.

Seguindo o bom exemplo, as pequenas otoridades garantes seus royalties também.

Quem bobeia, paga o preço – sem recibo, claro. Dei mole: esqueci minha carteira internacional de vacinação. Acho chegar, nada. Mas ao sair, o sujeito olhou meu passaporte, perguntou por ela e, ao ouvir que eu não tinha, abriu aquele belo sorriso.

“Ten dólar”, disse ele, indicando um balcão.

“Mas… pra sair do país?”

“A África do Sul exige”.

“Mas eu não vou para África do Sul. Só troco de avião lá. E já entrei e saí da África do Sul umas 10 vezes este ano – a última há cinco dias. Nunca me pediram isso.”

“É regra nova”, disse o zeloso funcionário, sem sequer ficar vermelho.

No balcão, estiquei a nota de 20 euros (única que tinha). O cara não falou nada. Me deu 5 mil francos de troco (embolsou 13 dólares, portanto) e preencheu o documento lá. Nem me perguntou se, por um acaso, eu queria tomar a vacina.

Meu amigo David conta uma história parecida em Angola. Ao chegar sem a carteira da vacina, também ouviu do zeloso que custava dez dólares. Mas, caso ele não quisesse tomar… o preço era vinte.