A internet voltou. Mas Khadafi continua

Uns vão e voltam – a internet, por exemplo.

Já alguns não vão nunca.

Inevitável, sobre Khadafi: em 2003, Lula foi recebido por ele na tenda montada dentro do complexo do Palácio (que foi bombardeado pelos americanos nos anos 80 e continua lá, sem ter sido mexido).

Nós, os jornalistas, chegamos correndo, porque uma multidão bloqueou o comboio. Tinha até cavalo no meio da pista…

Correndo chegamos, corremos entramos na tenda, cercada pelas famosas seguranças-mulheres. A tempo de ver (e fazer a imagem do) Lula cumprimentando Khadafi, a uns cinco metros de mim. Logo atrás vem o Fernando Rodrigues, da Folha, esbaforido, que bate o olho e manda, baixinho no meu ouvido:

“Ih, ó lá! O Khadafi é uma mistura de Reginaldo Rossi com Wanderlei Luxemburgo!”

Minhas pernas ficaram bambas e meu rosto vermelho, de segurar a gargalhada. Quase cai no colo do Luxa – ops, do coronel Khadafi.

Não foi a única do dia. Terminado o encontro, a comitiva partiu pro hotel Corinthia Bab Africa (todo verde e branco, como, no geral, é a Líbia). Eu, o câmera Ubaldino Motta e o produtor João Beltrão – hoje chefe da Record Brasília – disparamos pro local da geração, a TV estatal. Pegamos carona numa Kombi cujo motorista só falava árabe.

Naquele tempo, quase século passado, não existia geraçao pela internet. Tínhamos que ir onde ficava o famoso “local da geração”, que conectava o satélite com o Brasil, a mil dólares o minuto. Tínhamos dez. Atrasou, perdeu.

Como é mister em países altamente democráticos, fomos parados pelo polícia, para que fosse averiguado o inusitado fato de uma câmera de TV sair por aí, livre e solta. Lembro da cara do polícia, acendendo um cigarro dentro da viatura, com uma luzinha acesa, e nós no escuro.

Liguei para o Heitor, do Itamaraty:

“Ó, a polícia nos parou.”
“E o que ele disse?”
“Meu árabe, ainda que escorreito, não me permite asseverar”.
“Liga avisando”.

Depois do chá de cadeira de praxe (Motta tinha escondido a fita, por via das dúvidas), fomos liberados com a ordem expressa de voltar para o hotel (pelo menos foi isso que eu entendi, no meu árabe escorreito). Claro que mandamos o cara tocar pra TV. Mais confusão, mas chegamos, minutos antes do sinal abrir.

Tudo miraculosamente gerado, hora de voltar. O cara da TV queria nossos passaportes, que tinham ficado lá na tenda do Khadafi. Mais telefonemas, mistura de inglês, árabe e italiano… podemos ir. Mas tragam os passaportes amanhã, ok? Ok.

Quando chegamos ao hotel, era uma correria. Afinal, “jornalistas brasileiros haviam sido presos e possivelmente, agredidos” (era o que se dizia lá). Indignação na sala de imprensa, onde já se praparavam as matérias contra a sangrenta ditadura, exigindo a liberdaaade dos colegas…. que éramos eu, Motta e João.

“Bateram em vocês?”, me perguntou o então ministro Ciro Gomes. “Não, nada, só uma chateação lá.” Se não me falha a memória, até o chanceler Celso Amorim veio nos ver, sem contar Johnny Saad, nosso patrão, que fazia parte da comitiva do presidente.

Conheço coleguinha que passou pelo mesmo e quase publicou livro depois, descrevendo as agruras pelas quais- oh! – tinha passado…

Quando é, é. Foi o caso dos nossos Gilvan e Corban lá no Egito, há umas semanas. Mas quando não é, não é.

Abaixo, reportagem da Agência Brasil. Preparo outra, para entre hoje e amanhã, sobre como a coisa espalhou-se pela África. E seguirá se espalhando.

21/02/2011
Ki-moon fala com Khadafi e mostra preocupação com aumento da violência na Líbia

Eduardo Castro
Correspondente da EBC na África

Maputo (Moçambique) – O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, falou hoje (21) por telefone com o presidente da Líbia, Muammar Khadafi. De acordo com o relato distribuído pela ONU, foi uma “ampla conversa”, na qual Moon manifestou “profunda profunda preocupação com o aumento crescente da violência” no país. Ainda de acordo com o texto, o secretário-geral solicitou o fim “imediato” dos atos violentos e apelou pelo respeito “às liberdades fundamentais e aos direitos humanos, incluindo os de associação pacífica e de informação.”

Ki-moon também convocou as autoridades a iniciar um diálogo amplo para responder às preocupações legítimas da população. Não há referência no comunicado às palavras de Khadafi, nem sobre onde ele estaria quando da conversa telefônica. Rumores de que o líder líbio teria deixado o país rumo a Venezuela circulam por vários veículos de comunicações desde o início do desta segunda-feira (21). O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Líbia negou que Khadafi tenha deixado o país.

Na sede das Nações Unidas, em Nova York, diplomatas líbios anunciaram apoio aos protestos antigoverno e pediram interferência da ONU. De acordo com a rede de televisão árabe Al Jazeera, pilotos de dois caças Mirage líbios pousaram sem autorização na Ilha de Malta e pediram asilo, alegando terem se recusado a atirar sobre manifestantes em Benghazi, segunda maior cidade da Líbia e palco de grandes manifestações contra o governo.

Uma marcha em Trípoli teria sido alvo de tiros disparados de aviões militares. A sede do Parlamento estaria entre os prédios incendiados por opositores nos protestos, segundo a Voz da América. Tiros também foram ouvidos na segunda-feira à noite, de acordo com testemunhas. O Departamento de Estado dos Estados Unidos ordenaram a retirada do país de parentes dos diplomatas americanos e de todo o pessoal considerado “não essencial”.

Cortes na internet e nos serviços de telefonia dificultam a comunicação com a Líbia, bem como a verificação de informações de forma independente. Não há nenhuma confirmação sobre o número de mortos nos protestos, apenas relatos de entidades civis não governamentais que apontam para mais de 60 as vítimas fatais apenas nesta segunda-feira.

Edição: Vinicius Doria

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Um comentário em “A internet voltou. Mas Khadafi continua

  1. Como eu costume comentar, não precisava nem da matéria, bastava o texto introdutório. Genial, como sempre. Não sei se você viu, lá pelo twitter estão dizendo que o Khadafi é uma mistura de Aracy de Almeida com Cauby Peixoto rss. Mas nessa foto, que provavelmente é da época do episódio, realmente parece uma mistura de Rossi + Luxa hahaha. Abs

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