Sobre as doze crianças

Em cinco minutos, morreram doze crianças!

Dentro da escola, num susto. Por que? Como pode? Queremos justiça!

Doze crianças.

Exatamente o mesmo número de crianças que morrem de fome no mundo em um único minuto. E há muitos anos.

Não causam a mesma indignação. Ninguém clama por justiça ou tenta entender porquê. Não ganham capas de jornal. Não levam especialistas à TV. Nem aí, nem aqui, nem em nenhum lugar do mundo.

Também são doze crianças inocentes mortas – só que a cada minuto. Por hora, são 720. Por dia, 17 mil. Desde quinta-feira, oito da manhã, já são mais de 34 mil.

Com medo de que mais crianças morram, pedimos mais segurança. Detectores de metal. Cercas elétricas. Policiais mais bem armados – e dentro das escolas.

Volto às incômodas comparações: o gasto militar dos EUA para o ano que vem (2012) está orçado U$553 bilhões. Isso porque vai sofrer um corte de cerca de 80 bilhões este ano. A FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação) estima que para acabar com a fome no mundo (incluindo adultos, velhos, recém-nascidos, todos) seriam necessários U$ 30 bilhões.

Será que gastar mais com isso vai mesmo evitar que morram mais crianças inocentes?

Ainda há fome no Brasil (como também há nos Estados Unidos e Europa), mas aqui, na África, ela agride sua passividade com mais frequência. Bate no vidro do seu carro no sinal de trânsito – e não tem sopão de igreja, secretaria de bem estar ou bolsa-família. A esmola, se você der, será em metical, que vale 30 vezes menos que o dólar, 20 menos que o real.

As doze crianças de Realengo me doeram, chocaram e entristeceram. Mas as 12 que morrem de fome por minuto – a maioria absoluta aqui da África, mas muitas, ainda, do Brasil – também deveriam ganhar manchetes, provocar revolta.

Afinal, são doze crianças.

Pra quem não gostou do meu texto, recomendo outro, do coleguinha Flávio Gomes, que fechou a conta e passou a régua no assunto (pra quem não leu, está aqui).

É um outro jeito de dizer a mesma coisa. Só que muito mais bem escrito, claro.

6 comentários em “Sobre as doze crianças

  1. Tinha gostado muito do texto do Flávio quando li no dia que ele postou e adorei o seu! Já foi dito nos outros comentário: espetacularização, excessos da mídia, etc. Eu adorei seu texto exatamente pelos dados citados e que deveriam agredir a muita gente. Será que as “otoridades” como disse o Jaime não chocam com esses números?
    – gasto militar dos EUA para o ano que vem (2012): U$553 bilhões;
    – A FAO estima que seriam necessários U$ 30 bilhões para acabar com a fome no mundo;
    – 12 crianças morrem de fome no mundo em um único minuto!!!!!
    Podiam fazer um pouco mais de barulho quanto as mortes infantis pela fome: é tão chocante quanto a barbárie de Realengo não é verdade? Abs

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  2. Incrível esse texto. Pelas circuntâncias, o crime foi realmente chocante, mas não precisava de tanta repercussão.

    50% do que é mostrado, é verdade. A outra metade deve-se ao show que a mídia faz em volta do caso.

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  3. Seu texto e o do Flavio Gomes são ótimos. Cada um explorando um foco diferente.
    Creio que, nesse sentido, penso muito como você por isso nem tenho mais TV. Nem é alienação, tanto é que tomei conhecimento desse ocorrido no Rio, sem precisar ler uma nota na íntegra. Tudo é tão claro, previsível.
    O que você fala aqui só vai além, de como isso se equipara com a questão do capital. O dilema é que apesar de isso tudo ser incômodo, diretamente, não se pode fazer nada. Temos que tomar os caminhos da subversão, agir em pequenas escalas. Enfim… Tenho certeza que você já faz isso.

    Escrevi algo com outro foco também, sem ter diretamente o ocorrido como assunto, mas foi inspiração também. Tentei rumar ao cerne de toda essa barbarie o mais positivo possível.

    Caso tenha sede, beba!
    http://www.facebook.com/#!/note.php?note_id=10150151694628932

    Grande abraço e obrigado por se manifestar.

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  4. A morte de crianças, em que situação for, sempre causa indignação. O que acontece na África é que não existe a “espetacularização” das notícias.

    Neste caso no Rio o choque é ainda maior porque as crianças estavam em uma escola, local que muitos acreditam AINDA ser seguro. Mas quem trabalha na área sabe que a escola não oferece segurança. Todos os anos os professores falam sobre isso e o assunto é tratado com desdém pelas “otoridades”. Enquanto traficantes e drogados entram na escola, ninguém liga, afinal “os professores que se virem”; desta vez quem entrou foi um maluco armado e que saiu disparando tiros para todos os lados.

    Abs. Gostei do que escreveu, entendo perfeitamente o seu ponto de vista.

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  5. Edu,

    Um maluco entrar na escola e matar crianças pode acontecer com ricos e pobres. Não com miseráveis.

    As 12 que morrem por minuto são miseráveis.

    Está aí a diferença da indignação. E o motivo que faz uma virar notícia e outra nota de rodapé.

    Isso é ainda mais triste.

    Gustavo.

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