A semana é santa, mas o estado é laico.

Moro em Moçambique e, por isso, terei expediente normal na próxima sexta-feira, por mais santo que seja o dia.

Eu e todo o país, porque aqui não existe feriado religioso.

Herança do tempo do socialismo. Como também foi feito em Angola, o governo acabou com os feriados religisoso porque – simples assim – o estado é laico.

Aqui, o socialismo deu lugar ao capitalismo agressivo, desigual e injusto – igualzinho a quase todos os lugares. Até pior, porque a pobreza extrema é muito grande, e a desigualdade não dá indício de que vá diminuir. Mas isso, do feriado, ficou (olha aqui a lista dos feriados nacionais moçambicanos).

Não tem crucifixo na repartição – só a foto do presidente Guebuza. Não tem data santa de uma religião em detrimento das outras. Feriado aqui, só cívico.

É verdade que o Natal sobrevive disfarçado: virou “Dia da Família”. Mas, ao menos, não consta do calendário oficial do país como sendo dia de descanso para todos por causa da religião de alguns.

Antes que – rá – alguém me crucifique, quero deixar claro que não sou contra que a pessoa tenha dias para fazer suas reverências religiosas. Só acho que não deva ser feriado para todo mundo – porque a maioria vai pra praia, pro churrascão ou fica dormindo mesmo. Poucos vão pra procissão, missa ou culto.

Deveríamos ter direito, por lei, a dias de folga religiosa. Três por ano, que tal? Era só avisar o patrão com antecedência: “olha, sexta-feira, 22 de abril, não venho. É Sexta-Feira Santa”. Este ano, por acaso, engatado num feriado cívico, o 21 de abril…

De saída, vamos manter o 25 de Dezembro como Dia da Família, OK? Daí dá pra tirar (no caso dos cristãos) a Páscoa e um dos outros – Corpus Christi (que ninguém sabe direito o que é, afora os realmente religiosos), Dia da Padroeira, Finados, Padre Cícero, Santo Daime, Dia de Chico Xavier, Dia do Evangélico, Rosh Hashaná, Dia de Gandhi, Candomblé… cada um com os seus. Mas só com os seus.

E antes que a Associação dos Viajantes Inveterados, Sindicato dos Guias de Turismo e Federação dos Hotéis Religiosos venham fazer passeata na minha porta, passarei a defender que os ateus ou religiosos-mais-ou-menos também tenham direito à mesma folga, por equidade.

Como cada um usaria a folga no dia que quisesse, movimentaria hotéis, aviões (pelo fim do caosaéreo!) bares e restaurantes o ano todo, só que com menos gente de uma única vez.

Mas… e o Carnaval? Que é meio religioso, meio pagão e meio vagabundão (porque segunda-feira não é feriado, mas ninguém – a não ser os músicos de trio elétrico e assemelhados – trabalha nesse dia)?

Minha sugestão – séria, seríssima – é instituir a Terça-Feira Gorda como Dia da Diversidade.

Quero ver quem vota contra.

3 comentários em “A semana é santa, mas o estado é laico.

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