Cara de 50 mil

Um amigo que anda pela África me contou mais uma (já leu as outras? Clique aqui) que contaram para ele…

O sujeito ganhou uma concorrência pública para montar um sala. Telas de plasma, fones de ouvido para tradução, microfones de mesa – tudo de primeira. Cadeiras estofadas, divisórias anti-ruído, luz dimerizada. Coisa linda mesmo.

Lá pelas tantas, toca o telefone. Era o assessor encarregado. “Amigo”, diz ele. “Precisamos quotar um equipamento tal e tal, para tal e tal coisa. Aquele que você mandou pra lá não serve! É muito pequeno”.

“Pequeno?”, pensou o amigo. Fazia tudo o que eles pediam, do jeito que eles pediram no edital. Já estava até instalado.

“Como assim, pequeno?”

“Pequeno, meu amigo! Venha ver.”

O amigo foi. Viu lá a caixa, instalada no lugar certo, o troço funcionando, luzinhas piscando, tudo. Só que o ocupava menos de um terço do lugar destinado para ele.

“Viu só? Pequeno”.

“Mas, chefe, isso basta para o que precisa aqui”, argumentou o amigo fornecedor.

“Não. Precisa ser grande. Ocupar isso tudo… olha bem: tem cara de 50 mil? Não! Tem cara de 5 mil, no máximo. Tem que ter cara de 50 mil!”

“Entendido”, pensou o amigo. E mandou trazer outro equipamento, que fazia a mesma coisa. Só que, agora, era do tamanho de uma geladeira. Chamou o chefe pra ver.

“Aí sim, amigo! Agora tem cara de 50 mil.”

O primeiro tinha custado mil. O segundo, 12 mil – que foi o efetivamente pago. A nota lá para a contabilidade, claro, sempre foi a mesma – de 50 mil.

Afinal, tava na cara, amigo!

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White ElefanteNews

O estádio de Mbombela estava vazio no sábado de manhã. Uns quatro guardas sonolentos protegiam (?) o portão do fundo, que estava aberto. Lá dentro, ninguém. Só a grama verde, que deu pra ver ao longe.

“Podemos entrar pra ver?” “Não”, disse o guarda, esfregando os olhos. Tiramos fotos e fomos embora, sem deixar um único rand no lugar que custou mais de um bilhão para ser construído.

Mbombela fica em Nelspruit, África do Sul, capital da província de Mpumalanga, a 200 quilômetros aqui de Maputo e com dois shopping centers. Como Moçambique praticamente não tem fábricas e muito do que consumimos aqui vem do país vizinho, muita gente vai daqui pra lá no sábado só para fazer compras. Vale a pena.

Pois bem. Mbombela é o estádio de Nelspruit. Foi um dos dez construídos na África do Sul especialmente para a Copa. O teto é suportado por colunas com formas que lembram girafas. As rampas e escadas serpenteiam pela lateral da construção para lembrar cobras. Os assentos são todos em preto e branco, numa referência às zebras que ocupam os parques e safáris na região.

Mas o troço já tinha cara de elefante branco desde antes de ficar pronto.

A obra durou dois anos, e parou cinco vezes, por causa de greves dos trabalhadores. Quase no fim da construção, um guindaste caiu sobre a cobertura, durante uma tempestade. O que – obviamente – fez ser necessário um acréscimo no preço.

Dos previstos 600 milhões de rands (150 milhões de reais) o custo total da obra subiu para o dobro. Tudo totalmente suportado pelo abastado contribuinte sul-africano.

Na Copa, Mbombela foi palco dos fantásticos clássicos entre Chile e Honduras (1a 0), Itália e Nova Zelândia (1 a 1), a Austrália e Sérvia (2 a 1) e o emocionante 3 a 0 da Costa do Marfim pra cima da Coréia do Norte.

Depois, em um ano, o lugar recebeu jogos do Mpumalanga Black Aces (time de futebol da primeira divisão sul-africana. Que, diga-se, encerrou a temporada ontem. Orlando Pirates campeão, mas com destaque para o jogo Vasco da Gama X Santos na última rodada). Uma copa terá sua final disputada lá em 28 de maio. E o time de rugby da província, os Pumas, também anunciou partidas para o estádio.

Muita vela para pouco defunto.

Nos anos 20, fazendeiros brancos tomaram as terras de Mbombela, e, com apartheid em vigor logo depois, os mdluli só conseguiram reclamar o terreno de volta no fim do século XX. Em 2003, recuperaram a área.

Três anos depois, repassaram uma parte do que receberam de volta (118 hectares) para a prefeitura, ao interessante preço de 1 rand (24 centavos de real, ao câmbio de hoje), diante da promessa da construção de uma escola para substituir as duas pequenas que havia ali, além da pavimentação de estradas, água encanada e energia elétrica.

Três pessoas ligadas de alguma forma à obra foram assassinadas. Outras três morreram em circunstâncias “suspeitas”. A gerência da construção foi e voltou das mãos do governo local para o provincial no meio do processo. Um pântano foi aterrado sem estudo de impacto ambiental. As escolas prometidas só ficaram prontas depois de três anos de espera e muitos protestos.

Com a demora, abriu-se uma guerra judicial sobre a posse do terreno e documentos contábeis – rá! – sumiram do processo. Acusações de corrupção – rá!, de novo – envolvem o negócio, nos vários níveis de governo. E – rá!, pela terceira vez – não achei na imprensa uma linha sequer sobre quem teria sido o corruptor.

Nos poucos minutos em que estive ali, andando na poeira do estacionamento, lembrei da visita que fiz ao estádio olímpico de Seul, durante a Copa de 2002. Depois de procurar e não encontrar alguém que pudesse me dar uma entrevista sobre o local, resolvi ir lá sem consultar ninguém.

Na entrada, vi a placa que lembrava os nomes dos medalhistas de ouro e achei a referência a Aurélio Miguel. Depois, sem ser ajudado ou importunado por absolutamente ninguém, entrei no estádio aparentemente abandonado. Lembro bem dos assentos de cimento cinza-claro. Não tirei fotos, mas não me recordo de cadeiras ou luxo. Desci as escadas e entrei na pista gasta. E vazia. Nada da Copa de 2002 aconteceu ali. O jogo de abertura foi noutro estádio – especialmente construído (rá, de novo) para o novo evento.

Pouco ali lembrava o cenário da final olímpica de 100 metros talvez mais badalada da história, entre Ben Jonhson e Carl Lewis, ali mesmo. A pira olímpica apagada, e a cruvatura do teto, famosa pela leveza. Só. Catorze anos depois, a pista do Estádio Olímpico de Seul quase não mais existia. Mal tinha linha de partida. Era um fim de linha, aliás. Restavam o gigante vazio, as pombinhas voando e o eco dos meus passos. Alguns anos depois, o estádio recebeu jogos de futebol da terceira divisão, até 2009. De lá pra cá, alguns shows. Só.

Não sou contra receber a Copa ou Olimpíada. Fará bem para a auto-estima do brasileiro, que sentirá estar – e estará mesmo – no centro das atenções do mundo. Os eventos também acabam, por interesse dos envolvidos, impulsionando obras que já deveriam ter sido feitas, como uma linha de trem, um terminal novo no aeroporto ou a despoluição de uma lagoa.

Mas estão longe de ser a redenção dos povos, ou solução para todos os problemas, como soa no discurso dos políticos ou dirigentes esportivos. Para nós não vai ser. Nem pra eles, espera-se. Só será, certamente, para as empreiteiras, fornecedores e patrocinadores.

Também enche essa coisa de achar que “só no Brasil” as obras – muitas até desnecessárias – atrasam para depois custar mais caro, são mal projetadas, super-financiadas ou sofrem modificações difíceis de explicar mas fáceis de entender. Não é.

Nem todas têm o mesmo fim. O Soccer Staduim (agora “FNB Stadium”), em Joanesburgo, já recebeu 23 eventos desde o fim da Copa, entre jogos, reuniões de igrejas e concertos, sendo o maior deles um show do U2. 40 mil turistas também estiveram lá, e cada um pagou 80 rands (20 reais) para conhecer a estrutura.

Eu mesmo estive em Pequim logo depois da Olimpíada de 2008 a enfrentei fila de padrões chineses para ver o “Ninho de Pássaro”.

Mas também estive em Mpumalanga.

Lá fica o famosíssimo Kruger Park, onde se é possível ver os “Big Five” em uma única tarde (leão, elefante, búfalo, leopardo e rinoceronte – os tais “mamíferos selvagens de grande porte mais difíceis de serem caçados pelo homem”).

Pois o parque estava cheio no sábado – como, aliás, já acontecia antes da Copa do Mundo. Voltarei lá daqui alguns meses para admirar, de novo, os elefantes africanos. Já no elefante branco, de Mbombela, no máximo, vou passar pela porta e, de longe, ver o guarda dormindo.

Português, esse desconhecido

Já pensava em escrever sobre o uso da língua portuguesa quando, na imprensa brasileira, surge mais essa falsa polêmica aí, do “português culto x português das ruas”. Não quero entrar nisso – dá uma preguiça miserável. E, além, já há quem esteja empenhado nessa tarefa (Hélio Schwartsman, da Folha, por exemplo). Freud não explica porque, de um tempo pra cá, não é o sexo que motiva absolutamente tudo no Brasil, e sim a paixão partidária e o ódio de classe.

Mas essa questão da “posse” do idioma tem me chamado muita atenção neste ano e tal que vivo aqui na África. Diferentemente dos vizinhos, Moçambique tem só o português como língua oficial. Mesmo assim, ele é falado, se tanto, por 40% dos habitantes. E ainda assim, é o idioma mais falado no país.

A maioria da população fala outras línguas – cerca de 25. Xangana, ronga, sena, macua, ndau, shona, maconde. Línguas mesmo, com estruturas e vocabulários diferentes entre si. Algumas, claro, têm semelhanças. Mas, como regra geral, o norte não entende o centro, que não entende o sul, que não entende o norte. Para comunicação entre os grupos – a chamada “unidade nacional”- só mesmo o português.

Mas o português é a língua do branco, do estrangeiro, do colonizador, do opressor. E, aqui, a independência é muito presente, mais nova do que eu (é de 1975). Ao contrário dos vizinhos que colocaram inglês e as línguas locais como idiomas em pé de igualdade, a opção moçambicana foi não escolher uma, duas ou três para serem oficiais. Uma decisão controversa, porém bem pensada.

Dizia Samora Machel, herói da independência, homenageado até hoje em todas as notas de metical (que é o dinheiro daqui), primeiro presidente de Moçambique: “o português é como uma ‘G-3”(arma do exército colonial português) – nos oprime nas mãos do inimigo; mas, nas nossas, nos liberta”.

Faz todo sentido. Como escolher, entre 25 ou mais idiomas, qual ser o “idioma moçambicano”. Todos? Impossível. Alguns? Quais? Do sul? Centro? Norte? Por que este e não aquele? Qualquer – ou quaisquer – que fosse o escolhido, estaria oprimindo os demais. Optar pelo português, depois que o colonizador português foi embora, foi escolher a língua de ninguém, na tentativa de fazê-la a língua de todos.

O erro, no meu entendimento, foi deixar as demais línguas para segundo plano. Há pouco tempo começou um trabalho para ensinar as línguas maternas e em línguas maternas nas escolas (até visitei uma delas no interior – clique aqui pra ver). Ao renegar as línguas locais e não ter força para ensinar o português para todos (é um dos países mais pobres do mundo), o governo conseguiu aumentar o ódio contra o idioma oficial – e que nunca deixou de ser visto como a “língua do outro, do opressor”.

Hoje há um movimento, grande até, para que Moçambique abandone o português e opte por uma ou várias línguas locais. A meu ver, é um risco até físico. Poderia exacerbar diferenças regionais e tribais adormecidas e até colocar em xeque até a recentíssima paz, conquistada em 1994, com o fim da guerra civil de 16 anos, que punha frente a frente grupos com ideologias diferentes, mas, também, os do sul contra os do norte.

Outro grupo gostaria de introduzir o inglês como língua oficial, já que “é o idioma dos negócios internacionais”, “todos os países vizinhos falam a língua, e isso facilitaria a obtenção de emprego, comércio”, tal. Conversa: se fosse pra ser assim, já aconteceria entre Zimbábue, Zâmbia, Tanzânia, África do Sul e não acontece. Além de ser velho esse papo de que, se falar língua de primeiro mundo, vira primeiro mundo também. Fora os cinco lusófonos, toda a África subsaariana fala inglês ou francês. E não me consta que seja exatamente um mar de prosperidade.

“Que cada um fale sua língua, então!” Concordo. E uma dessas línguas deve ser – não há como fugir – o português. Afinal, ela é de todos os moçambicanos. E alguns (negros, inclusive) falam só ela. “Não, é a língua do colonizador e deveria ir embora com ele.” Aí é esquecer de Samora.

Se tem algo que o colonizador não consegue levar embora é a língua que ele trouxe. Oprimia na mão dele; na minha, me liberta. Me insere no mundo exterior, inclusive no do colonizador. Passo a ter a possibilidade mínima e mais básica de ter contato com aquilo que ele sabe, além do que eu já sei. É certo que, com o idioma, não se tem tudo. Mas sem ele não se tem nada deste novo conjunto.

Também liberta na medida em que coloca em pé de igualdade todas as demais línguas nacionais, sem as do sul sobrepujarem as norte, ou as norte dominarem as do sul. “Ah, mas há países em que isso aconteceu”. É, mas se o discurso é o de “preservar as culturas locais”, como é que um local quer que sua cultura prevaleça sobre a do outro? Isso chama-se tribalismo, diria Samora.

E nada me impede ter mais que uma língua. Português não é língua materna de muitos moçambicanos, mas é a língua nativa de todos eles. Feliz do país em que a população nasce, no mínimo, bilíngue. Inglês? Que se ensine desde sempre, ao lado das outros idiomas que, de um jeito ou outro, já fazem parte da identidade nacional daqui. E, bom lembrar, do Brasil também.

Não sou linguista nem gramático, mas não vejo o Português como um único idioma. Cada lugar fala o seu português, com suas formas, vocabulário, ritmo, sotaque, cadência absolutamente próprios. O que se usa aqui não faz sentido lá. E… hummm, o que é considerado certo aqui, nem sempre é lá. E daí? Como fica? Quem está certo e quem está errado?

Ponto, parágrafo: não defendo ensinar o tecnicamente errado. Mas também não acho correto separar o mundo entre os cultos que sabem falar e a animália que grunhe porque não segue uma norma que os sábios definiu (rá!) como sendo a coisa certa. A língua é a falada na rua e também é a que segue as convenções que os estudiosos definiram com sendo “a língua”. No nosso caso aliás, o português nada mais é do que latim mal falado, modificado pela força da sociedade na qual estava inserido. Ao longo do tempo, ganhou suas próprias regras, como o italiano, o francês, o romeno. No fundo, tudo coisa de bárbaro.

Idioma não é “patrimônio nacional” – por mais que os estados ou os gramáticos queiram. É patrimônio de todos e de cada um dos seus falantes, pertencentes aos estados de que forem. E como a regra é “o dono é que manda” (não gosto, sou contra, mas é assim)… perdeu, preibói. Agora, tá tudo dominado.

É: o colonizador deixou aqui sua língua, e agora, nem que queria, consegue levá-la embora. Largou comigo? Virou minha. Não é mais dele – nem sua. É nossa, no máximo. Faço dela o que quiser, mudo, adapto para meu proveito. Se eu entendo o que preciso e quem eu quero que me entenda também, tá tudo valendo. Não tem melhor, nem pior.

Nada é mais meu que minha própria língua. Desde que a sinta como minha.

Saudades de Frank

Frank Sinatra morreu num 14 de maio, em 1998.

Tinha 83 anos, uma mulher (Barbara Marx) e três ex-mulheres (Nancy Barbato, Ava Gardner e Mia Farrow).

Apareceu em mais de 50 filmes e ganhou dois Oscars.

Gravou centenas de músicas. Ganhou 9 Grammy… depois de morto. Os que ganhou antes fiquei com preguiça de contar.

Tem duas estrelas na Calçada da Fama, uma pela música e outra pelo que fez na TV.

Olha aí embaixo e dá logo pra perceber porque.

É claro que tem uma orquestra aí escondida, com músicos bons e instrumentos caros, tocando ao vivo, fora do quadro.

Tá… eram outros tempos sim. Computador era chamado de tabuladora. Não se editava vídeo em casa. Nem se tratava a voz dos cantores com software que conserta tudo…

Mas é um exemplo legal de que é, sim, possível fazer boa televisão só com dois caras e um pano azul, como se vê aí em cima.

E, se quiser mudar tudo, dar um outro ar… mude o pano pra vermelho. Como se vê abaixo.

Ah! Pra quem não sabe, os tios aí são Dean Martin, à esquerda, e Frank Sinatra, à direita. Como está no próprio vídeo, “doesn’t get much better than this”. Concordo.

Tribunal Tradicional para Feiticeiros

Hoje o texto é do coleguinha Albino Moisés, que escreve uma coluna no jornal Notícias.

Para que não haja dúvida:

a) “chapa 100” vem entre aspas porque, aqui, é o nome popular das vans do transporte (de acordo com a denominação legal) “semi-colectivo”. Eu chamaria de “semi-transporte”, porque o povo é carregado como gado;

b) “Régulo” é a autoridade tradicional de uma determinada região. Eles tem poderes (até hoje) para resolver questões relacionadas à comunidade. São consultados até quando o Estado vai destinar terras para um empreendimento novo (lembre-se que aqui não há propriedade privada da terra O estado faz concessões de uso). O régulo mostra onde não pode receber construção por ser um cemitério, por exemplo.

c) “Machamba” é plantação, área agrícola familiar. Fazendão do agronegócio é “farms”.

d) “tungululo” ou “kulungwana” são aqueles gritos de alegria típico dos muçulmanos, bem agudos, também muitos cimuns aqui também.

Vencido o glossário, tem a palavra o convidado… em texto tal e qual copiado do jornal.

“Na minha aldeia — Majaua em Morrumbala — nunca se morre de morte natural. Qualquer morte é tida como tendo sido orquestrada por alguém: o feiticeiro.

O feiticeiro é o ponto de partida para todos os falecimentos que ocorrem na povoação. Mesmo na idade dourada de oitenta, noventa ou até “chapa 100”, os familiares do finado sempre colocam as garras do feiticeiro na berlinda. E quase sempre toda a morte tem envolvimento e conivência directa de um familiar próximo identificado: uma tia, tio ou avô (materna ou paterna).

E havia acusações indirectas e outras até directas às pessoas que se acreditavam terem praticado o feitiço contra outrem. Algumas acusações eram mesmo directas: batiam na porta do feiticeiro e atiravam-lhe na cara: “tu mataste o nosso filho, devolva-lhe já a vida, ou então seguirás tu também pelo mesmo caminho!”. E se o acusado se mostrasse indignado, então ele lançava um “repto” para provar a sua inocência.

Seguidamente, iam ao “mwene” (régulo) comunicar a acusação ao mesmo tempo que pediam autorização (sempre irrecusável) para levar a cabo o rito tradicional denominado “muavi”. Nele o acusado era desafiado a beber uma poção de raízes que só vomitava quem de facto fosse inocente. No caso contrário a morte era certa!

E esse tribunal tradicional não só se destinava a dirimir casos de suspeita de morte por feitiçaria, mas igualmente servia para atender roubos nas machambas e até cenas de amantismo. Especialmente para problemas sem provas materiais e que não houve flagante delito, então todos os “indiciados” eram levados ao tribunal de “muavi”.

A sessão era anunciada na povoação através do rufar vigoroso dos tambores. Fixava-se uma hora de realização. A sessão pública atraía muitos mirones, arrastando até aldeões circunvizinhos. Como era um assunto social que andava na boca do povo, então a casa do curandeiro lotava completamente, já que, por regra, as pessos gostam sempre de saber da vida alheia.

Na hora, o povo se reunia em volta dos acusados, queixosos e “corpo de juízes”. A cermimónia iniciava com todo aquele salamaleque dirigido ao curandeiro que orientava o acto de vida ou morte. O acusado de ser feiticieiro, antes de lhe darem a poção fatídica para tomar, primeiro ele prestava um juramento acerca da sua inocência: “juro por minha ohonra que eu sou inocente e desafio a todos aqui presentes a minha inocência, bebendo desta poção que me será servida dentro de instantes. Se eu for um feiticeiro, que eu também morra imediatamente, mas se não matei ninguém, então que eu vomite, provando ma minha inocência. De seguida era-lhe dado o copo para beber diante da multidão.

Se no acto público o acusado vomitasse, isso provava indiscutivelmente a sua inocência. O vómito significava que o suspeito “sacudia o capote” todas as queixas sobre os seus ombros. Naquela hora, a ala de familiares que também defendia a sua inocência jubilava com palmas e “tungululo” (kulungwana para a região sul). A alegria era porque a pessoa recuperava a sua honra e reputaç]ao,mas tambem porque receberia indemnização pela acusação infundada, geralmente paga com uma machamba ou mesmo em dinheiro.

Todavia, para aquele que bebesse do veneno e o seu estômago aceitasse acomodá-lo tranquilamente e não vomitasse, então caía inerte. O seu corpo era exibido a todos como um troféu e ainda como prova manifesta de quem tinha comido carne humana!”

Sobre morte e vida, Bin Laden e minha avó

Em 1991, eu fazia intercâmbio nos Estados Unidos. Interior dos Estados Unidos – Santa Fé, Novo México. Naquele tempo não havia e-mail ou celular, e interurbano era caro. Nos seis meses em que estive por lá, no geral, matava minhas saudades por carta.

Numa delas, que recebi dois dias antes do meu aniversário, minha mãe me contou sobre a morte da minha avó. Ela não ligou, preferiu escrever. Pôs lá todos os detalhes, que eu li com o coração doendo. Eu amava muito minha avó. Nunca tive babá. Quem cuidou de mim foi minha mãe, meu pai, minha tia e minha avó. Uma parte de mim morreu com ela.

Minha mãe fez muito bem em me contar por carta. Sabia que, se telefonasse, eu iria querer voltar, pra estar lá no enterro. Sabendo por carta, não houve como. O velório e o enterro já tinham passado. Na época fiquei meio chateado, mas, hoje, agradeço muito minha mãe. Não tinha idéia que esse gesto dela me ensinasse tanto sobre a viver a vida.

Dez anos depois disso, em 2001, eu estava de volta aos Estados Unidos, agora casado e trabalhando. Em 11 de setembro, um dos aviões sequestrados (sim, foi avião) passou por cima do meu prédio e estatelou-se no Pentágono, dois quilômetros mais adiante. Eu estava transmitindo ao vivo naquele momento, contando o que via pela TV sobre as torres gêmeas de Nova York. Passei a narrar também o que se vivia na minha vizinhança.

Logo uns dias depois já sentia a mudança no clima do país, no jeito que as pessoas olhavam para os outros na rua. A tal “sensação de unidade nacional”, tão falada e aplaudida, seguramente não era para todos. Quem usava véu, barba, tinha nome árabe ou pele mais parda não se sentia incluído na tal unidade. Nos anos seguintes, as dificuldades econômicas fizeram com que muito mais gente engordasse esse grupo dos de fora.

O que mais me impressionou foi a raiva. O americano médio, meus vizinhos (e eu viva numa área cheia de militares), exigia “justiça” – o que, era muito claro, significava ir lá buscar e matar o responsável pelos atentados. “Justiça”, nesse caso, era vingança mesmo. Revanche. Desforra.

E tudo muito natural. Em nenhum momento vi alguém levantar um “e se?” “E se” isso provocar mais violência? “E se” o culpado não for um só? “E se” o culpado formos nós mesmos, com nossa atitude com relação aos outros?” Muito menos um “‘pera lá: isso é certo?” Nada. Alguém era culpado, inocentes morreram. Isso não podia ficar assim.

As famílias das vítimas também pensavam desta forma, na amplíssima maioria. Queriam “justiça”. Nada traria seus parentes de volta. Mas encontrar e punir o culpado daria “um fechamento”- “closure”, é o termo repetido várias vezes – para esta triste história. Sem esse “fechamento” não era possível ir adiante. Vi muito psicólogo explicando que isso era normal, inclusive.

E assim seguiram-se dez anos à espera do “closure”. Filhos cresceram sem os pais, acreditando que, um dia, isso viria e que, depois desse dia, finalmente, era possível seguir em frente – “move on”.

Pois domingo à noite, muitos saíram à rua, comemorando a “vitória”, a “justiça”. “Finalmente, o fim dessa história”.

Imagino a tristeza de quem, hoje, três dias depois da morte de Osama – o esperadíssimo “closure” para o 11 de Setembro – ainda não viu a dor ir embora. Será que a saudade diminuiu, ou a dificuldade de ter perdido o pai ou a mãe passou?

Aqui da África, fico incomodado ao ver americanos (não são todos, mas são vários e ruidosos) transformando a morte de alguém – mesmo a de um crápula desequilibrado e perigoso – em um réveillon. Não sou só eu. Muitos moçambicanos, que saíram de uma guerra civil há menos de 20 anos e convivem com a fome bem perto, também não conseguem compreender o motivo de tanta alegria. Eles não querem vingança, nem sequer falam em justiça. Querem é viver.

É quando lembro de minha mãe, sabiamente me ensinando, quando da morte de minha avó, que tanto faz ver o corpo, dar o último beijo no corpo inerte, derramar a “última lágrima na beira do caixão”. O que fica não é isso. É todo o resto. A história, quando é boa, não acaba no cemitério. Não precisa de “closure”.

“Ah, mas ninguém a matou! Ninguém tirou sua avó de você com violência! Queria ver se tivesse sido assim”.

Seria igual, garanto. O que matou minha avó foi o câncer, foi a vida dura que ela levou para criar três filhos, viúva, na grande cidade. Foi ter deixado sua terra criança e nunca mais ter voltado. Foi a saudade de meu avô, que morreu quando minha mãe tinha só três anos. Foi comer carne vermelha, verdura com agrotóxico, leite com hormônio, margarina com gordura vegetal. Foi respirar ar com fumaça, sovar a massa do pão e fazer macarrão todo domingo, tomar metrô de madrugada, cuidar dos netos no clube.

Não há como me vingar de tudo isso.

O que matou minha avó foi a vida, que é o que nos mata a todos. O câncer, o tiro, a facada, a gripe, o golpe de ar, a queda do avião, o avião usado como míssil – o que fosse – é detalhe. Chame de “closure”, se fizer tanta questão.

A morte, seja como for, revolta na hora. Mas se essa revolta da morte durar para sempre vai esconder o que realmente foi importante: a vida. É duro de engolir – principalmente para quem costuma fazer prevalecer sempre sua vontade e não aceita que suas razões sejam sequer discutidas – mas tem coisa que não tem jeito. Nem força.

A presença da minha avó é imensa, feliz, alegre, atual, quase física. E não se trata de nada religioso. Um bandido, um motorista bêbado ou o Osama não teriam força pra mudar isso.

Por falar em algo religioso, é cristão (ou muçulmano, diga-se) comemorar a morte de alguém?

A saudade não passa nunca. Aprendi a conviver com ela. Até porque não há o que traga dona Ida de volta, não há o que diminua a falta que ela faz. Se descobrirem a cura do câncer hoje, ou provarem que o médico dela errou, não sairei gritando pela rua, fazendo o “V” de vitória.

Não há “closure” para quem vive a vida. Nem quero que haja. Quero mais é que as memórias fiquem.

Elas são intermináveis.