Antológico, ontológico, sobrenatural

Retomo a publicação, aqui no blog, das minhas colunas no portal Fato OnLine – originariamente publicadas às sextas-feiras.

rio5

Publicado sexta, 13 de novembro (05:59) – Atualizado hoje às 12:33

E o que foi aquele gol de Neymar contra o Villareal? Segundo um reluzente periódico mineiro (a internet tá aí, pra perpetuar barbaridades), foi “ontológico”. Das duas uma: ou o redator queria escrever “antológico”- de antologia – e ficou com medo da anta cruzando sua palavra; ou, de fato, sabia o que estava fazendo e optou por filosofar na manchete. Afinal, ontologia é a parte da filosofia que estuda as propriedades mais gerais do ser, o “além do ser”, mais pra lá do fenomênico, o oculto, o divino. E esse gol, cá pra nós, tem parte com o oculto, é coisa do Mais Pra Lá.

Tem o pé do Sobrenatural de Almeida, personagem de Nelson Rodrigues que fazia gols inacreditáveis. Mário Filho, irmão de Nelson, escreveu uma (aí sim) antológica crônica sobre gols antológicos, ontológicos, sobrenaturais. Chama-se Gols Inesquecíveis, e cita uma série de obras de arte que nunca vimos, nunca veremos, e sequer ouvimos falar. Mas estão na antologia do futebol, que também têm parte com o oculto. “Há gols assim, que entram para ficar na nossa memória”, diz ele. “Podem passar os anos que a gente não esquece mais”.

Nelson Rodrigues chamava Mário de “Homero do futebol brasileiro”, comparando com o grego que escreveu Ilíada e Odisseia. “Hoje, eu e meus colegas andamos por aí, realizados, bem-sucedidos, temos automóveis e frequentamos boates; andamos de fronte erguida e nosso palpite tem a imodéstia de uma última palavra. Mas eu gostaria de perguntar: o que era e como era a crônica esportiva antes de Mário Filho? Simplesmente não era, simplesmente não havia. Sim, a crônica esportiva estava na sua pré-história, roía pedras nas cavernas.”

Mário nasceu em 1908, no Recife. Em 1915, mudou-se para o Rio, trabalhou em alguns jornais antes de dirigir o (também) antológico Jornal dos Sports. Com suas páginas cor de rosa, ele contou a história diária do futebol carioca entre 1931 e 2010. Entre 1936 e 66, tendo Mário como dono e responsável, foi praticamente o primeiro a acompanhar o dia a dia dos clubes fora do campo, informando sobre negociações em andamento, salários e valores de passes de jogadores.

Quando o Brasil foi escolhido como sede da Copa de 50, Mário protagonizou uma disputa feroz com o também jornalista e deputado Carlos Lacerda, que defendia que o novo estádio a ser construído na cidade fosse no então longínquo bairro de Jacarepaguá. Mário Filho queria que ficasse no Maracanã. Ganhou a parada. Por isso, o Estádio Municipal tem seu nome.

E foi no Maracanã que aconteceu o primeiro gol inesquecível descrito na crônica: “E lá vem ele, o gol do Joel, como pintado de fresco, brilhante, limpo, o cheiro de tinta vivo feito um perfume, solto, alado. Não era momento de gol, pelo menos não parecia, porque Ramiro ia chutar a bola, com Olavo junto, para qualquer lado. Eis que Joel se lança, feito um torpedo humano, esticado, a meio metro do gramado. Quando o bico da chuteira de Olavo ia tocar na bola, a cabeça de Joel a impulsionava para o fundo das redes.”

O texto segue, com outros lances inesquecíveis – que, obviamente, ninguém mais lembra simplesmente porque nunca soube ter existido: o de Friedenreich no Sulamericano de 1919, em Álvaro Chaves, contra o Uruguai (“patrimônio nacional”); o de Nilo Murtinho Braga no primeiro campeonato brasileiro de seleções, em 1924 (“Nilo emendou uma bola de cima da área, na linha branca, um pouco de lado, com aquele pezinho de moça que tinha, e não houve Nestor que evitasse o gol”). E o gol do Osvaldinho do América contra os escoceses do Motherwill? “Driblou um, e dois, e três, e quatro, e cinco. Aí o gol se abriu diante dele e ele colocou a bola lá no canto”.

Mário também descreve gols inesquecíveis de Petronilho pulando com um pé só (tinha quebrado a perna no lance anterior); uma bicicleta de Leônidas (esse você ouviu falar) pelo Flamengo, contra o Independiente de Buenos Aires, em 1939 (“foi tão bonito que Bello – do Independiente – saiu correndo para cumprimentar Leônidas”); o gol de letra de Isaías, pelo Madureira, contra o esquadrão do Fluminense que ganhou cinco campeonatos; o de falta de Lelé, no jogo da seleção contra o Uruguai, na despedida dos pracinhas brasileiros que estavam de partida para a Segunda Guerra (“era tão longe que o quíper uruguaio La Paz não quis barreira, não quis nada. (…) Não pôde fazer um gesto.”).

Mas tinha que haver um gol de Heleno, diz Mário. No estádio da Gávea, num Flamengo x Botafogo: “Heleno estava na linha da grande área, de costas para o gol. Parou a bola com o peito, virou-se com ela ainda no peito, e viu a área cheia de flamengos, o gol lá no fundo. Se deixasse a bola cair no chão, teria que travar combate com vários adversários, que já o cercavam, esperando justamente que fizesse o que qualquer um faria. Heleno de Freitas, então, curvou-se um pouco para trás, empinando o peito, deixando a bola onde estava e avançou assim, com ela no peito. Ninguém podia fazer nada contra ele. Se lhe quisessem tirar a bola, pará-lo, travá-lo, era pênalti. Perto do gol, Heleno de Freitas deixou a bola cair e fuzilou o quíper do Flamengo.”

Agora, releia o último parágrafo. Troque “Heleno” por “Neymar”, “flamengos” por “villareales”, “quíper” por “goleiro”. Veja, de novo, o gol de sábado passado. Diga que não é praticamente a mesma coisa. Antológicos. Ontológicos. Sobrenaturais. Inesquecíveis – enquanto não vierem os próximos, enquanto durarem na nossa memória.

Doutor Ross, minhas pílulas, por favor

Retomo a publicação, aqui no blog, das minhas colunas no portal Fato OnLine – originariamente publicadas às sextas-feiras.

tecflaPublicado sexta, 06 de novembro (05:59)

Sou um jovem senhor de idade, desde sempre. Meu ex-chefe Fernando Mitre dizia que nasci com 35 anos; na época, eu tinha uns 23, 24. E assim me mantenho, já passando dos 40, com alguns hábitos antiquados. Por exemplo: ler jornal. Aquele troço bem de antigamente, de papel. Mas não dá mais pra ler todo, porque parte da turma que escreve nele é mais parada no tempo do que eu.

Não perco tempo com capa, coluna ou primeiro caderno. Fundamentalmente, agrupam os fatos da véspera em duas seções: “Como o governo é ruim” e “Como o governo seria bom se fizesse o que eu mando”, um treco bem democrático. Vou direto às partes que podem ter alguma novidade.

Primeiro, claro, o horóscopo. Não acredito em nada daquilo, mas é preciso saber o que quem acredita vai fazer naquele dia. Quem já trabalhou em jornal – nos menores, principalmente – sabe como é feito o horóscopo. O Touro de amanhã é uma parte do Virgem de ontem e do Leão de hoje. As recomendações sobre “ter cuidado no amor” fazem todo sentido.

Depois de passar rapidamente pelo Hagar, o Horrível, chego ao caderno de esportes. Nesta semana, estava lá: “Flamengo suspende cinco que foram pra farra”. E o caderno de esportes passa a ser mais um que, como eu e as partes ditas sérias dos jornalões, pararam no tempo.

No caso, culpa dos dirigentes flamenguistas, que resolveram mostrar quem manda para cinco “craques consagrados” que foram fotografados numa festa: os geniais Pará, Alan Patrick, Everton, Paulinho e Marcelo Cirino. O motivo da indignação foi o dia da celebração cheia de carne (era um churrasco), uma terça-feira. “Deveriam estar concentrados, se preparando para o jogo”, disseram os disciplinadores. Faltou pedir pros caras usarem burca pra sair na rua e incluir as Pílulas de Vida do Doutor Ross na dieta balanceada.

Troço ridículo. São moleques de 20 e poucos anos, com alimentação saudável e regrada (ainda que sem as Pílulas de Vida do Doutor Ross, ao menos por enquanto), no auge do gás e da fama, com grana, no Rio de Janeiro. Por mais que se ajoelhem e mostrem os dedinhos pra cima a cada gol que marcam, não ficam lendo a Bíblia o tempo todo. E é normal que sejam assim. Sempre foi assim, sempre vai ser assim. Sobre bons e maus moços, João Saldanha dizia, nos longínquos anos 1960/1970 do século passado: “Não quero jogador para casar com minha filha; só que resolva dentro de campo”.

Claro que não pode exagerar, encher a lata de domingo a domingo. Precisam se preservar fisicamente, pois vivem disso. E – acorda, né? – convém desligar Feicebuque e Istagrão próprios e dos demais presentes nas farras, principalmente daquela querida que faz bocão e do lindo que publica fotos sobre o evoluir diário do bíceps.

Mas, prezados, desde que a Holanda, em 1974, levou esposas e namoradas para a concentração na Copa do Mundo, e os caras revolucionaram o futebol (não foram campeões porque a Alemanha tinha Beckenbauer e jogava em casa), que esse papo ficou mais velho do que eu – que nasci com 35 anos, justamente em 1974.

Sem contar que pune o time. Tá bom que, na lista de festeiros, não tem nenhum Zico ou Adílio (aliás, nunca vimos Romário numa lista dessas, por motivos óbvios), mas, dos cinco, três são titulares, e ausência deles iria atrapalhar o treinador a montar um time que precisa estancar uma fila de três derrotas seguidas. O técnico, claro, não gostou da decisão dos diretores do Flamengo. Oswaldo Oliveira achou exagerado.

Resultado: os dirigentes voltaram atrás. Ô, perdão, voltaram atrás nada: os meninos que “demonstraram arrependimento”, pediram desculpas e foram reintegrados. E já podem jogar contra o Goiás no fim de semana. Permanece a multa de 30% dos vencimentos “porque aqui tem comando, não é bagunça”. Tá bom.

Destarte, nenhum será visto na campanha publicitária da Sexlog.com, que os convidou para participar de uma “incrível festa que só nós sabemos fazer”, segundo a diretora de comunicação do treco, em troca 300 mil reais – mais ou menos a multa que vão pagar para o Flamengo.

Lembrei-me de João Saldanha, de novo: “Todo treinador que defende a concentração é candidato a corno”. Se, como eu, lesse o horóscopo, evitaria ser o Touro de amanhã.

E dá licença, que vou ali tomar uma Crush. Ajudam a engolir as Pílulas de Vida do Doutor Ross.

Miranda, Jesus e a Fogueteira

braxChi

Publicado sexta, 09 de outubro (05:59)

(Nota: estou republicando aqui no meu blog ElefanteNews minhas primeira colunas no Fato On Line. Cheque a data antes de discutir velhas novidades…)

Escrevo antes de começar Chile e Brasil, primeiro jogo das Eliminatórias da Copa de 2018. Almocei há pouco num simpático quilo aqui no Flamengo. A TV estava ligada e apareceu Miranda (que, talvez, você não associe o nome à pessoa, é…), o capitão da seleção brasileira. Ele diz, de bracinhos cruzados em frente ao microfone fininho: “Se empatarmos, já vai ser um bom resultado”. Do meu lado, um senhor de camisa branca meneia a cabeça e vira o rosto na minha direção, sem dizer nada. Só me olha com aquela cara de “a que ponto chegamos”.

De fato. Lembro do tempo (e não estou falando de quando Dondom jogava no Andaraí, de meia na cabeça, chutando bola de capotão) em que ganhar do Chile era mais que premissa, era uma obviedade. Até acontecia de perder ou empatar, mas, “quando acontecia, era um acontecimento”.

Rosinery Mello morreu aos 45 anos, vítima de aneurisma Ronald Theobald/Estadão Conteúdo

Em 1989, foi mais que um acontecimento – foi uma série deles, e , mesmo assim, o Chile não ganhou. Eles tinham um técnico falastrão, chamado Orlando Aravena, que convenceu o país de que, daquela vez, dava pra não apenas se classificar, mas sim ganhar a Copa do Mundo. No mesmo grupo, estavam Brasil e Venezuela; na Venezuela, coitada, todo mundo batia. Restava tirar o Brasil em dois jogos, um lá, outro cá.

O primeiro foi lá, no mesmo Estádio Nacional da final de 1962 e do jogo de agora, 2015. Já antes de o jogo começar, Aravena falou qualquer coisa no ouvido do Romário, que revidou com empurrões. Contagiado pelo clima – ou por alguma outra coisa contagiante –, o preclaro Jesus Dias Palácios, árbitro colombiano (até bom), deu amarelo pra ele antes de a bola rolar. Com dois minutos de jogo, Ormeño, um dos que Romário havia empurrado, deu uma voadora em Branco. Romário foi tirar satisfações. O juiz tirou o vermelho do bolso. Me lembro bem de ter feito uma cara parecida com a que o senhor fez hoje pra mim, no restaurante. Jesus não estava nada brasileiro naquele dia. Muito pelo contrário.

Ainda no primeiro tempo, ele marcou um sobrepasso de Taffarel. Acho que foi a última vez que vi juiz marcar sobrepasso. Um chileno pegou a bola das mãos do goleiro e tocou rapidinho, dentro da pequena área. Tudo errado, porque a infração (mesmo que inventada, como foi) deveria ter sido batida na linha da pequena área. Gol do Chile. Parêntesis: graças a esse lance é que você aguenta Arnaldo César Coelho comentando arbitragem até hoje. No dia seguinte ao jogo, o então diretor da Globo, Armando Nogueira, ligou pra ele, perguntando do lance. Satisfeito com a explicação, convidou Arnaldo pra almoçar e o chamou pra trabalhar na Globo. Dias depois, Arnaldo anunciou que estava parando de apitar pra ser comentarista. Fecha parêntesis. O Brasil ainda conseguiu empatar a partida.

Rojas e Rosi

A partida de volta foi no Maracanã, no famoso “jogo da fogueteira”. Os mais novos não lembram, mas houve tempo em que se podia levar rojão pra dentro do estádio. Uma moça, chamada Rose, uma das 141 mil pessoas presentes naquele dia, acendeu um sinalizador marítimo, que caiu perto do goleiro Rojas (o mesmo que jogou no São Paulo). O Brasil ganhava por 1 a 0, gol de Careca, e o resultado tirava o Chile da disputa.

Rojas diria depois que o clima feito no Chile em torno da possível classificação ficou tão fora de controle que ele não teria coragem de voltar sem a vaga. Desesperado, enfiou uma lâmina na luva, esperando uma chance de simular uma contusão. Ao ver o foguete no gramado, caiu, tirou a lâmina discretamente e fez um corte na testa, como se tivesse sido atingido. O jogo parou, estabeleceu-se uma confusão, e o Chile saiu de campo carregando seu mártir. O jogo foi encerrado pelo argentino Juan Carlos Lousteau. O Chile saiu do estádio se dizendo classificado. Os brasileiros estava atônitos. E ninguém sabia o que iria acontecer.

Hoje em dia, fatalmente, algumas das trocentas câmeras em campo, ou mesmo um celular de torcedor, teriam mostrado o que ocorreu rapidamente. Mas os tempos – como disse lá em cima – eram outros. No dia seguinte, uma sequência de fotos do jornal O Globo deixava claro que o sinalizador havia caído a alguns metros de Rojas, sem feri-lo. O Brasil foi confirmado como vencedor. A seleção chilena, suspensa por quatro anos; Astengo, zagueiro, também. Rojas foi banido do futebol (anistiado anos depois, quando voltou a trabalhar no São Paulo como auxiliar), junto com o técnico Avarena, um médico da delegação e um dirigente chileno. A fogueteira, localizada, virou capa de Playboy, mas sumiu em seguida. Ela morreu em 2011, vítima de um aneurisma.

Nem com Jesus do lado deles e sinalizador chovendo em campo, o Chile nos punha medo. Hoje, como diz Miranda, se empatar, vai ser bom. Ponto. Parágrafo.

Dunga faz história

Agora escrevo depois da estreia do Brasil nas Eliminatórias. Depois da primeira vez em que o Brasil perdeu numa estreia de eliminatórias de Copa: 2 a 0 para o Chile. Tá: é o melhor Chile da história. Mas nós ajudamos.

O time de Dunga, aliás, parece que não saiu do Chile desde a Copa América. A mesma coisa modorrenta, sem criatividade, sem brilho. Transpirando no limite do necessário. É muito jogador mais ou menos numa seleção brasileira – todos vindos da Europa ou do time que levou de sete da Alemanha. Não entendo tanta insistência com essa turma. Também não entendo quem diz que são “bons jogadores”. Não são. São medianos.

Houve tempo em que mediano não cabia na seleção. Mais recentemente, o mediano tinha que se matar, suar sangue. Mas os tempos são outros. Na segunda etapa, entram dois do Santos – Ricardo Oliveira e Lucas Lima – e o time melhora. Pouco, mas sobe de produção. Não o suficiente. Nada garante que, se Neymar tivesse jogado, a coisa teria sido diferente.

A conversa agora é dizer que “o time comportou-se bem, mas está tudo muito equalizado”, uma versão mais moderna da velha frase, dita há uns 30 anos, que “não tem mais bobo no futebol”. Papo. Se eles melhoraram, os melhores deveriam ter melhorado também. Não, ficamos pra trás.

Que Miranda e seus colegas façam alguma coisa diferente já, agora, terça-feira (13), contra a Venezuela. Mas não tentem trazer Jesus pro nosso lado, nem comprar sinalizadores para espalhar na torcida. Muito menos simular contusão pra sair de campo coberto de glórias. Não funciona. Os tempos, definitivamente, são outros. A que ponto chegamos.

http://fatoonline.com.br/conteudo/10366/miranda-jesus-e-a-fogueteira?or=h-opi-colu&p=l&i=2&v=0

E o Brasil (uma parte, claro) descobre que há refugiados no mundo

Reproduzo, abaixo, texto que escrevi para a Agência Brasil em 2010.
É sobre a vida dos refugiados em um campo que ficava entre Ruanda e Uganda.
A foto, tirada da janela do carro, mostra a curiosidade das crianças quando cheguei.
Mesmo sob as mais precárias condições, elas sorriam.

Os meninos checam quem chegou

garoto de Ruanda

As crianças querem ver a imagem que o Estevão está fazendo.

Em Ruanda, refugiados congoleses estão seguros, mas querem voltar para casa

Eduardo Castro
Correspondente da EBC para a África

Maputo (Moçambique) – A Agência Brasil visitou Gihembi, em agosto, um dos campos de refugiados que recebem congoleses em Ruanda. Localizado a 50 quilômetros (km) da fronteira com a Uganda e a 200 km do Congo, Gihembi foi criado em 1996 como solução temporária para receber congoleses que fugiam da guerra civil. Transformou-se em uma cidade de 20 mil habitantes, na maioria membros das etnias banyamulenge e banyamasisi, ligadas aos tutsi ruandeses.

Nos 60 km que separam o campo de refugiados da capital ruandesa Kigali é possível ver plantações de banana e arroz. A estrada é estreita e sinuosa, mas inteiramente asfaltada e sem buracos. Depois de uma hora e meia de viagem surgem casas de taipa enfileiradas nas encostas da colina mais alta da região. Na entrada de Gihembi não há cancelas ou portões. Uma corrente separa o campo da pequena cidade de Byumba. Os refugiados podem circular apenas pela vila. Para ir mais adiante, precisam de autorização do serviço de imigração ruandês. Para facilitar as idas e vindas, cartões de identificação devem ser distribuídos.

O campo também tem uma escola primária – que atende a 4 mil alunos – feita de paredes de barro e telhado de zinco coberto de poeira marrom. Assim também são todas as casas, erguidas pelos próprios moradores. Muito plástico, pedaços de zinco e tábuas dominam o cenário geral. O chão é de terra batida. Há torneiras pelo campo, onde os moradores buscam água em baldes e garrafões. As construções são mais sólidas do que as barracas de lona vistas em outros campos de refugiados da África Central.

Em uma área fechada por cercas de caniço há salas de consulta médica e atendimento psicológico, onde um médico e cinco enfermeiras recebem os doentes. Casos graves são encaminhados à cidade. Também está instalada uma farmácia, que distribui os medicamentos receitados, inclusive para aids, muito comum em toda a região. Só no campo de refugiados, 248 pessoas estão em tratamento contra a aids.

Anemia a carência nutricional em adultos são casos comuns. Ao lado dos consultórios, uma cozinha com fogões de lenha reforça a alimentação de 148 crianças desnutridas. Lactantes (300) e mulheres grávidas (86) também recebem complemento alimentar. Cada refugiado tem direito a 2.200 calorias por dia. Arroz, milho, feijão e óleo são distribuídos uma vez por mês.

No dia que a equipe da EBC visitou o campo de refugiados de Gihembi, em agosto, era dia de distribuição do suprimento de lenha, que deve durar dois meses. A distribuição é feita em uma praça central, onde também estão montadas bancas de frutas e verduras. A movimentação é intensa. Centenas de mulheres e crianças subiam as ruas de terra com toras de madeira equilibradas na cabeça.

As mulheres, maioria visível em Gihembi, vestem panos coloridos amarrados na cintura e na cabeça. Fogem da câmera, assim como os homens mais velhos. Alguns vestem roupas com marcas conhecidas – piratas ou verdadeiras, vindas de doações distribuídas por toda África.

Já as crianças mostram-se curiosas com os visitantes. Sorridentes, fazem poses para a câmera e puxam o repórter pelo braço. Gritam “muzungu, muzungu” (“branco, branco” em kinyarwanda, língua predominante na região) e acompanham de perto o trabalho do cinegrafista da TV Brasil. A maioria fala ou, ao menos, entende francês. E na escola ensina-se inglês. São muitos cumprimentos de “good morning, muzungu (bom dia, branco)”.

Elas correm pelas ladeiras de terra, jogam basquete em uma quadra perto da entrada do campo. Também gostam de futebol. Adolescentes mais arredios aproximam-se ao ver a bandeira verde-amarela no colete da TV Brasil. E tentam se comunicar enfileirando nomes de jogadores brasileiros – alguns com sobrenome: “Kaká, Robinho, Ramires, Ronaldo Nazário de Lima”.

Como a vila vizinha é pequena, poucas são as oportunidades de emprego – tanto para ruandeses quanto para refugiados. Por isso, poucos congoleses vão à cidade. Além das barracas de frutas e verduras, pequenos comércios vendem refrigerante e crédito para telefone celular pré-pago, além de algumas poucas conveniências.

Alguns refugiados conseguem dinheiro (pouco) fazendo melhorias nas casas dos vizinhos. As enfermeiras também são moradoras e recebem uma pequena contribuição pelo trabalho, bem como os professores. Segundo os moradores, há gente com diploma que vive ali, sem perspectiva, esperando há anos para poder voltar para casa. O máximo que consegue é dar aulas na escola primária.

“Aqui estamos totalmente seguros”, diz Gerard Damascene Toma, um dos indicados pelos representares do governo de Ruanda e das Nações Unidas para falar com a Agência Brasil. “Fomos expulsos de nossa terra pela guerra. Espero pelo acordo de paz para retornar e ver o que sobrou”, afirma ele, que vive desde dezembro de 1998 em Gihembe. “Não é bom, mas é melhor que lá”.

Jean Paul está no campo desde 1997, quando conseguiu escapar da República Democrática do Congo. No campo de refugiados, se sente em segurança. Mas não pensa em ficar. “Não podemos estar satisfeitos. Recebemos comida e abrigo, mas queremos voltar para nossos lugares.”

Edição: Vinicius Doria

O Importante – sempre tão importante

microfone de rádio” – E aí, Fulano: vitória importante…
– Sem dúvida. Foram três pontos importantes, com um gol no momento importante, com a participação importante de todo o grupo, numa competição importante.
– Fale da importância dessa sequência de bons resultados do Clube do Mé Futebol Clube…
– Importantíssimo. Mas só chegamos a isso graças à participação importante do torcedor, apoiando nos momentos importantes, lotando o estádios em rodadas importantes, nos colocando nessa posição importante na tabela do campeonato.
– E quarta-feira tem um jogo importante…
– Por isso é importante a gente descansar bem amanhã, importantíssimo treinar bem na terça, porque é importante chegarmos bem preparados na próxima rodada.
– Tá aí o Lucas Fulano, jogador importantíssimo em mais uma vitória importante do Clube do Mé”.

É assim: em rádio e TV, nada mais – rá! – importante que o tempo. Então, só fale o que for… importante. Se não tiver importância, não diga.
Se você está dizendo aquilo, é importante – porque você não fala bobagem, não perde tempo com besteira, não enche linguiça.

Não precisa contar por ouvinte/telespectador que aquilo é importante. Se precisa explicar que tal coisa é importante, deve ser porque ela não importa pra ninguém nem pra nada.

Ou você troca a palavra por outra, que realmente informe alguma coisa, ou – melhor ainda – não qualifique, não adjetive. Só conte a importantíssima coisa que o David Fulano fez pelo Clube do Mé Futebol Clube.

Falar de improviso é uma coisa importante, meu caro.
Mas é importante treinar muito antes, no chuveiro, segurando o xampu igual microfone.
Importantíssimo.

Voltando…

O ElefanteNews ficou desativado desde 2011, quando voltamos de dois fantásticos anos vivendo em Moçambique. Desativado numas: deixou de ser alimentado, mas nunca saiu do ar.

Nesse tempo todo, uma média de 150, 200 pessoas por dia procurou o seu conteúdo, e teve a chance de conhecer um pouco mais da África no geral e de Moçambique em especial.

Pois o Elefante vai voltar a trombar por aí. Ainda não sei exatamente como, nem com qual frequência, mas decidi fazer com que ele volte a trombar com as notícias – sempre contra a manada.

Juntando um pouco do que tenho visto sobre jornalismo, falando um pouco da minha experiência no rádio e na TV, revisitando os maravilhosos períodos que vivemos em Moçambique, em Washington DC, em São Paulo e em Brasília.

Ou seja: o conteúdo antigo segue inteiramente disponível. E coisas novas vão começar a chegar.

Afinal, ainda há muita história pra contar.

E outras pra recontar. Afinal, como diz o nosso preclaro Ney Hayashi da Cruz (atualmente na Bloomberg de São Paulo, mas que por dez anos foi setorista da Folha no Banco Central): “Furo é tudo aquilo o que o meu editor ainda não sabe”.

Tem gente que acha que o mundo começou no dia em que ele nasceu. Ou, mais ainda: no dia em que ele começou a trabalhar.

Nesta linha, tenho lido que “uma das grandes novidades” na linguagem televisiva é ser “informal”-  usar “tá” no lugar de “está”, por exemplo. Já em termos de passagem de televisão (aquela hora em que o repórter aparece no vídeo), a “última moda” é aparecer com a mão no bolso.

Por isso, resolvi colocar, como foto fixa do Elefante, uma de 2008 – com um repórter conhecido dos senhores, fazendo passagem em Nova Jersey, Estados Unidos. Naquele tempo, o assunto já era crise. E o repórter já metia as mãos no bolso.

Tá?

A caminho de Cabo Verde

Chego lá segunda-feira, depois de uma escala (longuíssima, aliás) em Lisboa.

É isso mesmo: pra ir da África para a África, é preciso dar uma passadinha na Europa.

Fico lá por quase duas semanas, ministrando cursos para os jornalistas da TV e rádio de Cabo Verde, focado na cobertura de eleições.

Por isso, aqui vai ficar meio parado por uns dias. Mas o Mosamblog, segue com as postagens normalmente.

O Sudão, o futuro e o milagre

Os especialistas com os quais tenho conversado/lido a respeito simplesmente não acreditam na realização da votação na data marcada.

Mas o posicionamento do líder do sul tem sido firme. Até porque, se não for assim, a tampa da panela voa mesmo.

Vou acompanhar com cuidado.

29/10/2010
Fazer consulta sobre futuro do Sudão no prazo será milagre, diz chefe da comissão

Eduardo Castro
Correspondente da EBC na África

Maputo – O chefe da comissão que organiza a consulta popular sobre o futuro do Sudão, Mohamed Ibrahim Khalil, disse que realizar o processo no prazo será um “milagre” que, no entanto, ainda pode acontecer.

A votação, marcada para o dia 9 de janeiro do ano que vem, irá definir se o Sudão, país de maior extensão territorial da África, continuará com as mesmas fronteiras. A consulta é uma exigência da Região Sul do país, rica em petróleo, que quer a independência. Faz parte do acordo de paz, fechado em 2005, que pôs fim a uma guerra civil de 23 anos, que matou mais de 1,5 milhão de sudaneses.

Khalil fez a afirmação aos jornalistas em Cartum, capital sudanesa, logo depois de anunciar a nova data para o início do recadastramento eleitoral: 15 de novembro, um dia depois do anteriormente previsto, por causa de um atraso na entrega do material. O registro dos eleitores poderá ser feito durante três semanas. A campanha está marcada para começar em 7 de dezembro.

Segundo o chefe da Comissão Eleitoral, o tempo é muito curto e os obstáculos começam a aumentar por causa da falta de recursos. O grupo espera mais apoio das entidades multilaterais. Até agora, não houve doações significativas. É necessária a contratação de mais de 10 mil pessoas para o registro de eleitores e para o trabalho no dia da votação. O custo total estimado supera os US$ 370 milhões (R$ 630 milhões).

Representantes das correntes políticas do Sul e do Norte voltaram a se reunir para discutir o andamento do processo. O líder sulista Salva Kiir reiterou que não vai abrir mão de fazer a consulta popular no dia marcado, mesmo se houver pedido de outros países.

A pressão no Sul do Sudão é grande, e a violência poderia voltar caso houvesse um adiamento.

Edição: Graça Adjuto

Pequenos ajustes

Mudei um pouquinho o visual do ElefanteNews.

Ficou mais arejado. A visualização dos títulos é melhor. A coluna da direita ficou menos entulhada. E o azul deu lugar ao verde – algo mais perto da minha personalidade futebolística.

No mais, seguimos como sempre. Contra a manada.

Maitê o os “meus direitos”.

Li agora que Maitê Proença voltou a ter direito de receber 13 mil de pensão dos pais mortos por nunca ter se casado no papel. A previdência paulista parou de pagar, ela recorreu e a justiça reconheceu o direito dela.

O “direito dela”…

É meu, eu tenho direito, e dane-se: se preciso ou não, se alguém precisa mais que eu, se as aposentadorias no geral são de menos de 3 mil, tudo isso vem depois do “meu direito”.

E se você não vai lá e exige os “seus direitos”, é chamado de trouxa. Afinal, ˜paguei meus impostos, tenho meus direitos”.

São tantos que pensam assim. Quase todos?

No início da Copa pus aqui um post pequeno, sobre um ministro que foi muito criticado na África do Sul por exercer o “direito dele” de levar o filho para uma cirurgia num hospital público.

Causou revolta na população, na imprensa, na comunidade médica. O raciocínio lá era o seguinte: se ele pode pagar, ele tem que pagar e deixar o espaço, os médicos e os recursos públicos para quem não pode.

“Direito dele” é o cacete.

Seus direitos são seus direitos pagando ou não impostos. Direito não se compra com imposto. É uma conquista reconhecida e garantida. Você tem direitos porque está vivo – isso basta.

Mas também é “seu direito” (oh!) optar por não se beneficiar deles. Ou permitir a outros que tenham acesso aos direitos deles, já que o orçamento do Estado tem limites e você tem como exercer seus direitos sem ser às custas dele.

Faça a sua escolha. E faça direito.