Lucrécia Paco e o racismo


Lucrécia Paco é um símbolo de Moçambique. Atriz, interpreta em ronga, português, inglês, francês e alemão. Já esteve na Europa toda, África toda, América toda, representando personagens e todo um país.

Hoje foi a entrevistada do programa do Gabriel Junior, o “Moçambique em Concerto” (já falei deles aqui).

Durante a conversa, relatou pra Moçambique todo que sentiu racismo na pele uma única vez. E…oh!… foi no Brasil. Não disse onde exatamente, mas contou que foi numa casa de câmbio, enquanto participava de um festival de teatro no Instituto Itaú Cultural, que fica na Avenida Paulista, dando a entender que (oh! de novo) foi em São Paulo.

Segundo Lucrécia, uma senhora protegeu a bolsa ao vê-la na fila, e disse que ali “não era lugar pra ela estar”. Não houve queixa formal. Discreta (sempre, aliás), não quis escândalo.

Lucrécia, querida. Antes de tudo, as desculpas sinceras e envergonhadas dos brasileiros que não pensam assim e não são assim. Depois, seria bom que você tivesse feito queixa. Porque há brasileiro que acha, defende e bate o pé – até escreve livro – afirmando que no Brasil não há racismo. Gente mal informada que precisa conhecer a realidade que – oh! – não está nas novelas de maior audiência, mas nos shoppings centers de nossa maior e mais diversa cidade.

Novelas que, por sinal, são vistas – muito vistas – aqui também.

Aqui, link prum texto da revista Época que relata o caso.

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A Luta Continua, xê!

Holanda, 1979. Miriam Makeba canta sua canção mais famosa no exterior, ao lado da filha Bongi (de azul) e da neta Zenzi: Pata Pata.

Você não conhece a história de Miriam Makeba? Óiaqui ó, em português, da internet. E aqui, a página oficial dela, em inglês.

E ouça Miriam Makeba cantando outras músicas. “Click Song”, em xhosa. Ela explica porquê a música tem esse nome.

“Khawuleza”, que quer dizer “Se apresse!”, que as crianças gritavam nos guetos negros quando a polícia chegava. Gravado na Suécia, em 1966. Ao fundo, se não estou enganado – se estiver alguém me corrija, por favor – um dos músicos é Sivuca.

E “A Luta Continua”, homenagem a Moçambique. E a todos que seguem na luta.

Começamos! Na TV Brasil…

A minha primeira apuração feita aqui na África foi sobre a influência brasileira no continente, especialmente nos páises de língua portuguesa. Não sabemos nada sobre eles, mas nossa cultura nos faz muito conhecidos aqui – ou, ao menos, bem mais conhecidos aqui do que eles aí.

Música, literatura e principalmente, televisão, são os canais de divulgação da língua e modo de vida do Brasil pra cá. É claro que é algo parcial: é só o que é retratado pela TV – até agora, só TV comercial, com os problemas que já conhecemos – e só pra quem entende português. Mas aqui em Maputo, capital moçambicana, altera o jeito de falar e a percepção de mundo.

Vejá lá. – link é esse aqui. Se gostar, elogia. Se detestar, me conte porquê.

Começamos! Na agência…

A mesma apuração gerou uma matéria que foi publicada assim em vários veículos e no site da prórpia agência (que você enontra nos links aí ao lado).

O texto dela foi pro ar assim, ó…

Cultura brasileira influencia modo de vida em Moçambique

Eduardo Castro
Correspondente da EBC para a África

Maputo – Localizado na costa sudeste do Continente Africano, antiga colônia portuguesa e país independente desde 1975, Moçambique registra hoje forte presença da cultura brasileira em seu cotidiano. Em primeiro plano, ou lado a lado com manifestações locais, aparecem a música e as novelas brasileiras, cantores, compositores, atores e atrizes que influenciam o modo de vida e até a maneira de falar e de se vestir dos moçambicanos.

A maior influência chega pela televisão, que funciona em Moçambique há 30 anos e sempre mostrou telenovelas brasileiras. O primeiro grande sucesso foi O Bem Amado, com Paulo Gracindo no papel do prefeito Odorico Paraguaçu, exibida em Moçambique em 1986. Hoje em dia, o moçambicano pode assistir aos capítulos de Malhação na TVM, emissora estatal pioneira no país, Caminho das Índias na STV, e Escrava Isaura e Bela, a Feia na TV Record Moçambique, controlada pela emissora brasileira e até o ano passado conhecida como TV Miramar.

“A novela é um momento absolutamente sagrado da vida moçambicana”, afirma o sociólogo Carlos Serra, pesquisador do Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane, a maior do país. “As famílias, especialmente à noite, param, desde os anos 80, para ouvir, ler, interpretar, ver e comungar aquilo: as história trazidas pela novela brasileira”, diz Serra. “Ainda não se tem um estudo aprofundado sobre o tema, mas fatalmente ele será feito para avaliar como a trama, os personagens e o enredo influenciam a nossa forma de ser urbana.”

Atrizes das novelas têm suas vidas acompanhadas de perto por programas de variedades na televisão e comentadas entre os moçambicanos, a exemplo do que ocorre no Brasil. As atitudes e roupas dos atores influenciam o jeito de vestir e de viver das jovens.

Isso pode ser notado facilmente nas conversas, no jeito de falar. “Entre amigas, a gente fala assim… sai sem perceber”, confirma a estudante de direito Cristina Saúde, usando a expressão “a gente” de forma abrasileirada. “Tá querendo me enganar, é?” exemplifica a também estudante Arrucina Santos, usando uma expressão que, segundo ela, é “brasileira e muito repetida por toda a gente – ou como vocês dizem, ‘por todo mundo’”.

“O português de Moçambique é infiltrado pela forma de os brasileiros falarem português”, confirma o professor Serra. “ Muitos dos nossos jovens fazem exclamações, usam termos e corriqueiramente aplicam o gerúndio em substituição ao infinitivo, como é no português clássico de Portugal – ‘comendo’, ‘falando’, em vez de ‘a comer’ e ‘a falar”.

Serra aponta ainda “outra vertente de influência brasileira”, que já é grande, a dos pastores evangélicos neopentecostais, principalmente da Igreja Universal do Reino de Deus que, a exemplo do que faz no Brasil, transforma antigos cinemas em templos (um grande está sendo construído na área histórica de Maputo) e espalha sua palavra pelos meios de comunicação. “É algo que também carece de estudo acadêmico mais aprofundado, para que seja medida a extensão da influência”, afirma o professor.

Há cinco anos em Moçambique, Nair Telles chefia o Departamento de Sociologia da Universidade Eduardo Mondlane. Para ela, o moçambicano gosta do brasileiro e tem o Brasil como “uma referência, algo a ser atingido, mas não copiado”. “Eles querem chegar ao nosso grau de desenvolvimento econômico, intelectual e social, mas do modo deles, com a linguagem daqui”, diz a professora. “É, aliás, um espaço que os brasileiros deveriam ocupar melhor. Eles querem fazer mestrado e doutorado no Brasil. E nós investimos pouquíssimo em Moçambique.”

Muito populares são também os cantores brasileiros. A baiana Ivete Sangalo e o grupo KLB estão entre os mais conhecidos. “Eles são muito famosos aqui”, diz Bélia Machava, locutora da Rádio Comunidade, uma emissora FM de Maputo, capital moçambicana. “O grupo já veio aqui e fez muito sucesso. Eu toco muita música dele”, completa. As duas apresentações que a maranhense Alcione fará no próximo fim de semana ocuparam meia página no jornal O País e foram notícia no programa Tinzhava, da STV, o canal de maior audiência na TV aberta. Tinzhava, no idioma xangana, língua nativa mais falada na região de Maputo, quer dizer fofoca em português.

Roberto Carlos é um ídolo de várias gerações. Lindomar Castilho, Wando, Teixeirinha, Ângela Maria também são citados pelos mais velhos, ao lado de estrelas moçambicanas como Lalarita, João Cabaço e Aída Humberto como referências populares do país.

Edição: Nádia Franco