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Cesária, Mariza…

Hoje ouvi Odair José, Daniel, Gal Costa, Leonardo, Alexandre Pires e Nelson Ned. Tudo entre o almoço e o começo do treinamento da tarde, perto das três da tarde.

Vi um pouco de Beleza Pura e Caminho das Índias, além do meu amigo Celso Zucatelli entrevistando a última estrelea eliminada dA Fazenda. Ontem, passou show do Calcinha Preta às quatro da tarde. Inteirinho.

Sigo em Cabo Verde – bom que se ressalte.

Inegável que dá uma pontinha de orgulho. Afinal, é nóis na fita, nossa gente bronzeada mostrando seu valor.

Mas, também inegavelmente, me sinto um pouco como me sentia vendo um monte de música americana – muita porcaria no meio, inclusive – nas FMs brasileiras.

Ps: falando em divas da música lusófona, hoje é aniversário da Mariza. Tá bom, amigão, vou quebrar seu galho: descubra quem ela é clicando aqui, porque a Sandra já falou dela hoje no Mosanblog.

Cabo Verde: fiat lux

Vai, volta, vai de novo.
Sinal de que incompetência – ou competência – tem no público e no privado.

14/12/2010
Cabo Verde vai reprivatizar empresa de energia elétrica

Eduardo Castro
Correspondente da ABC na África

Cidade da Praia (Cabo Verde) – Cabo Verde vai reprivatizar a Elektra, empresa de geração e distribuição de energia elétrica do país africano. A informação foi confirmada pelo primeiro-ministro, José Maria Neves. “Já há uma empresa cabo-verdiana interessada, com capitais estrangeiros europeus e africanos”, disse ele em entrevista à rádio pública RCV, sem revelar o nome do grupo interessado nem se ele já atua no setor.

No início dos anos 1990, o governo de Cabo Verde, controlado na época pelo partido Movimento pela Democracia (MpD), hoje na oposição, vendeu a companhia a um consórcio português. Como os problemas de geração e abastecimento não foram solucionados (ao contrário, se agravaram depois da privatização), a Elektra foi retomada pelo governo três anos depois.

Desde o ano passado, Cabo Verde vive repetidos episódios de falta de energia. O último apagão ocorreu na noite do domingo (12), quando a capital, Cidade da Praia, ficou no escuro por cerca de meia hora. Os apagões são alvos de críticas constantes da oposição, que acusa o governo de não ter feito os investimentos necessários no setor. “Por razões éticas, o negócio não será fechado antes das eleições”, afirmou o primeiro-ministro, que concorre à reeleição pelo partido PAICV (Partido Africano pela Independência de Cabo Verde). A votação está marcada para 6 de fevereiro do ano que vem.

Segundo José Maria Neves, há geração suficiente de energia elétrica para suprir a demanda do país. Segundo ele, “tudo era prioridade”, o que fez com que não houvesse recurso para substituir as linhas de distribuição. “Investimos 8 milhões de contos [R$ 180 milhões] na implementação da nossa política energética e na eletrificação rural. Faltam só 5% do país [para ser atendidos]”.

Cabo Verde também começou a construir quatro parques eólicos (geração pelo aproveitamento da força dos ventos) nas ilhas de Santiago (onde fica a Cidade da Praia e quase metade da população), São Vicente, Boavista e Sal, orçados em 70 milhões de euros (aproximadamente R$ 170 milhões), além de dois parques fotovoltaicos (geração por energia solar). Também estuda implementar o sistema pré-pago para racionalizar o uso da energia elétrica nos edifícios públicos.

Cabo Verde tem cerca de 500 mil habitantes espalhados por nove das dez ilhas que compõem o arquipélago, no Oceano Atlântico. É um dos países mais bem colocados no Índice de Governança da Fundação Mo Ibrahim, instituição sudanesa que elabora um ranking anual com os 53 países africanos levando em conta 88 quesitos, que vão da liberdade política ao acesso aos serviços básicos. Ilhas Maurício, Ilhas Seychelles, Botsuana, Cabo Verde e África do Sul integram o grupo dos melhores países do continente em 2010.

Edição: Vinicius Doria

Stá tudu dretu, crioulo?

A frase aí em cima está corretíssimamente escrita – em crioulo caboverdiano.

Leia rápido e em voz alta que você descobre o que quer dizer. Isso mesmo: “está tudo direito?” Ou, “tudo bem?”

Já ouvi de uns entendidos aí que crioulo é português mal falado. Não deixa de ser certa verdade. Quase todos os vocábulos são em português, embora tenha coisa do francês. A gramática não foi formalizada ainda. A estrutura é diferente, mas é bem possível de acompanhar. Também é fácil distinguir até alguns “pra mó de faze”, “pra mó de cume” no meio das frases.

Mas lembro que o próprio português surgiu não passando muito de um latim vulgar – e mal falado. Não vejo muita diferença.

Aqui há quem defenda que o crioulo passe a ser idioma oficial do país (hoje é só o português). Ele é falado por todos, com variações regionais. Todos mesmo – ricos, pobres, de lá, de cá. Mesmo assim, também há quem queira que tudo continue como está: sem gramática, sem oficialização, sem ensino. Ou seja: fazendo de conta que não a língua existe.

Cinco dias aqui já me fez ver que esses últimos vão perder logo, logo. Se há algum lugar em que o português pode sumir com o tempo, é aqui. Em Angola e Moçambique, a língua de Camões (e MC Leozinho também, pra ficar só nos clássicos) tem um papel fundamental na unidade nacional: os idiomas locais são muitos e muito diferentes entre si. Sem o português, o norte não entende o sul, que não entende o centro, que não entende o norte. E nem se fala em escolher um idioma local pra chamar de nacional – seria guerra na certa.

Aqui não é assim.

A chance do português sobreviver aqui é a turma pôr na cabeça que, se ficar falando só crioulo, vai perder o ponto de contato com 250 milhões de pessoas no mundo. Um belo motivo, diga-se. Afinal, como é que se iria acompanhar os cultos da Universal, as novelas Caminho das Índias e Beleza Pura, e o show de Alexandre Pires que assisti no restaurante, enquanto comia, na hora do almoço? Traduzido nunca é igual, não?

Ouvi e entendi – todo em crioulo – o discurso do primeiro ministro José Maria Neves na convenção do partido, hoje, que oficializou sua recandidatura em 6 de fevereiro. Ele elencou os avanços e progressos (por exemplo: pobreza indo de 36% para 24% da população em 10 anos, igualdade de gênero no governo, internet de graça às pampas, e – principalmente – democracia estabelecida, com a certeza de que quem ganhar vai tomar posse. E mesmo que seja a oposição, porque já foi assim uma vez). E nos planos para fazer de Cabo Verde um “cluster de serviços financeiros, marítimos, de TI e aeroportuários”.

Mais um motivo pro português abrir o olho por aqui. Se isso der certo, ele corre o risco de ser atropelado pelo crioulo e – of córse, mai rorse – pelo inglês também.

Cabo Verde de olho na Costa do Marfim

Terminou hoje – sexta – o curso que vim ministrar para o pessoal da TV de Cabo Verde. Dois turnos desde terça. Praia só no nome da cidade mesmo. E no sábado e domingo… vou fazer matéria, chefe.

Sem contar as matérias que tenho feito daqui para a Agência, como a que está aí embaixo.

Segunda recomeça o curso, agora com o pessoal da rádio. E praia que é bom…

Falando em praia, Praia (a capital de Cabo Verde) é pequena, montanhosa e bem ajeitada. Belos prédios coloniais no Platô, ruas limpas que quase caindo no mar pra todo lado.

Um dia volto, de férias.

08/12/2010
Países vizinhos estão preocupados com a instabilidade política na Costa do Marfim

Eduardo Castro
Correspondente do Brasil na África

Cidade da Praia ( Cabo Verde) – O futuro dos moradores da Costa do Marfim e a possibilidade da volta da guerra civil preocupa os governos dos países próximos. Cidadãos de outras nacionalidades começam a pensar em como deixar o território marfinense caso o conflito recomece. No último fim de semana, pelos menos 300 pessoas fugiram pela fronteira com a Libéria.

O primeiro-ministro de Cabo Verde, José Maria Neves, afirmou hoje (8), na Ilha do Sal, Norte do país, que o governo acompanha a situação e já age com discrição. Segundo ele, contatos constantes estão sendo mantidos com a comunidade caboverdiana da Costa do Marfim. Até agora, há calma. “Se houver agudização do conflito, e esperamos que não, estamos com todos os canais abertos e medidas tomadas”, afirmou Neves.

Sobre o impasse político, o primeiro-ministro apela para o entendimento. “A situação é difícil, exige diálogo entre as partes. As regras do jogo democrático precisam ser cumpridas. Devemos nos habituar a eleições livres e transparentes, com aceitação dos resultados”, disse. “A deterioração da situação seria prejudicial para Costa do Marfim e para todo Oeste da África”.

Cabo Verde é um dos poucos países africanos em que a oposição, vitoriosa nas urnas, conseguiu assumir a chefia do governo. Em 1991, o partido de José Maria Neves, o PAICV, perdeu a eleição para o MpD. Mas retornou ao poder, democraticamente, dez anos depois.

A tensão na Costa do Marfim é crescente. Depois de quatro dias de espera pelos resultados do segundo turno das eleições presidenciais, ocorrido em 28 de novembro, a Corte Constitucional inverteu o resultado original, proclamado pela Comissão Eleitoral, que dava vitória ao candidato da oposição, Alassane Ouattara. De acordo com os juízes, houve erro na contagem conduzida pela comissão, que deu 54% dos votos para o ex-primeiro-ministro. Na revisão judicial, o então presidente, Laurent Gbagbo, venceu por 51% a 49%.

A decisão da Justiça da Costa do Marfim provocou reações da comunidade internacional, que pediu que Gbagbo aceitasse o resultado das urnas. Sem ouvir os apelos, o candidato tomou posse para o novo mandato de cinco anos. Ao mesmo tempo, Ouattarra também fez o juramento constitucional e se recusa a aceitar a revisão do resultado.

Para as Nações Unidas, não há espaço para Gbagbo contestar a decisão da Comissão Eleitoral. “O povo escolheu Alassane Ouattara por uma margem irrefutável”, disse o representante da ONU na Costa do Marfim, Young-Jin Choi. Ele também rejeitou a acusação de que a entidade multilateral estaria tentando interferir em temas internos. “Estou apenas fazendo meu trabalho, de acordo com o solicitado pelas autoridades marfinenses”, afirmou ele, em entrevista coletiva.

Na véspera, Choi deu explicações sobre o processo eleitoral aos líderes dos Estados-Membros da Comunidade dos Países da África Ocidental. O grupo reiterou apoio à opinião do representante da ONU. E apelou a Laurent Gbagbo que entregue o poder “sem demoras”.

Esta foi a primeira eleição presidencial na Costa do Marfim em dez anos. O mandato de Gbagbo deveria terminar em 2005, mas as eleições foram adiadas cinco vezes. Em 2002, o governo de Laurent Gbagbo foi alvo de uma tentativa de golpe. Ele manteve-se no poder, mas perdeu o controle da Região Norte do país. A guerra civil prolongou-se por dois anos.

O conflito armado afugentou investidores, que, na época, procuravam o país de 20 milhões de habitantes e maior produtor de cacau do mundo. De lá para cá, a economia deteriorou-se. A rivalidade étnica também tem muito peso na situação, pois Alassane Ouattara e Laurent Gbagbo são de grupos distintos.

Eleitos em Cabo Verde

Estou na expectativa de ir para lá, trocar experiências sobre cobertura de eleições. Será uma bela oportunidade.

Postarei fotos. Do workshop e da praia, claro.

Por ora, notícia…

23/11/2010
Novo Parlamento de Cabo Verde será eleito em 6 de fevereiro

Eduardo Castro
Correspondente da EBC na África

Maputo – As eleições para o novo Parlamento de Cabo Verde estão marcadas para o dia 6 de fevereiro do ano que vem e as eleições presidenciais devem ocorrer seis meses depois. O anúncio foi feito pelo presidente Pedro Pires, depois de ouvir todos os partidos políticos e reunir-se com o Conselho da República.

Pires disse que não seria bom que a campanha fosse muito longa, gerando “maiores ansiedades”. Segundo o presidente, país pequeno e de economia aberta ao exterior, Cabo Verde tem “a obrigação de garantir a confiança” das instituições, dos parceiros e investidores externos.

A marcação da data das eleições cabo-verdianas, como em vários outros países africanos, cabe ao presidente da República. As últimas eleições foram realizadas em janeiro de 2006. No Brasil, por exemplo, ela é estipulada na Constituição Federal (no primeiro domingo de outubro, a cada quatro anos).

Alguns partidos, como a União Cabo-Verdiana Independente e Democrática (Ucid), queria que as eleições ocorressem em 27 de março, depois do carnaval (8 de março). O partido do presidente – Partido Africano da Independência de Cabo Verde (Paicv) – não anunciou a preferência. O Movimento para a Democracia (MpD) preferia o pleito no fim de fevereiro, para que o recenseamento no exterior pudesse durar mais tempo.

País formado por pequenas ilhas no Oceano Atlântico, Cabo Verde tem mais da metade de seus cidadãos morando no exterior, principalmente nos Estados Unidos, em Portugal, na Holanda, em Angola, no Senegal e Brasil. Estima-se que, hoje em dia, sejam 500 mil cabo-verdianos morando no país e um número ainda maior vivendo fora. O recenseamento eleitoral já começou em vários países. Em alguns, como Bélgica, está atrasado.

No ano passado, o fenômeno inverso também foi marcante: a chegada de novos habitantes estrangeiros ao país cresceu 20%, totalizando 12 mil pessoas, a maioria procedente da Guiné-Bissau.

Sem recursos minerais ou grandes terras para a agricultura, Cabo Verde depende muito do turismo. No ano passado, uma crise no setor trouxe fortes impactos. Também houve queda significativa no investimento estrangeiro direto.

Neste ano, as receitas fiscais também devem ser menores do que em 2008. O governo cortou 18 milhões de euros nas despesas. Na semana passada, a União Europeia aprovou um financiamento de metade desse valor.

Companheiros de armas

Segunda-feira estive na recepção que o presidente de Moçambique, Armando Guebuza, ofereceu ao presidente de Cabo Verde, Pedro Pires.

Ambos lutaram – lutaram, aqui, quer dizer lutaram mesmo – pela independência dos seus países.

Pedro Pires fez treinamento militar em Cuba e União Soviética. Depois tomou parte do Conselho de Guerra em Guiné Bissau e negociou a independência em Cabo Verde.

Guebuza foi preso, torturado, e depois, já no governo, foi vice-ministro da defesa durante a guerra civil.

Na saudação, ele chamou Pedro Pires de “amigo”, “camarada” e “companheiro de armas”.

Talvez seja complicado pra alguém que nasceu, cresceu e viveu na zona sul de São Paulo, em apartamento acarpetado, com luz, água e gás, dois carros na garagem, estudando no Pueri Domus, fazendo cursinho no Anglo e inglês na Cultura, formando em faculdade privada, e frequentando o EC Pinheiros e o CA Paulistano (eu, por exemplo) entender que, para ambos, ser “companheiro de armas” é algo do qual eles não se envergonham. Muito pelo contrário.

Hoje em dia, depois de ver alguma coisa por aí, eu entendo, e bem.

E você?

África 50, Lusófonos 35

Mais sobre o processo de independência dos países africanos.

Angola, o último dos lusófonos, celebrou semana passada 35 anos de autonomia (como a Agência Brasil mostrou aqui).

E hoje? Independnente?

Reportagem da Agência Brasil.

15/11/2010
Países africanos comemoram independência política, mas avançam pouco no combate às desigualdades

Eduardo Castro
Correspondente da EBC para a África

Maputo (Moçambique) – Este ano, duas das últimas grandes possessões africanas que se transformaram em países, Moçambique e Angola, celebraram 35 anos de independência. Para o presidente de Cabo Verde, Pedro Pires, que lutou não só pela independência do próprio país como também participou da luta de Guiné-Bissau, as nações africanas de língua portuguesa têm, como grande benefício desse processo de libertação, o Estado de Direito. “A vida após as independências não foi fácil, com muitos obstáculos e alguns conflitos”, afirmou o presidente, em visita a Moçambique nesta segunda-feira (15).

“Em fase de aperfeiçoamento ou já mais sólido, esse instrumento permite programar o futuro e ganhar muito mais, com avanço nos diversos domínios. O Estado de Direito nos permite ter muita esperança e garantir que vamos ganhar o desafio”, disse o líder cabo-verdense.

Nos países lusófonos, a independência demorou mais a chegar do que no restante da África. A ditadura portuguesa de Oliveira Salazar, que durou de 1933 a 1968, e que prosseguiu até 1974 sob o comando de Marcello Caetano, nunca abriu mão das chamadas províncias ultramarinas, empenhando-se em guerras para manter a posse dos territórios em Angola, Moçambique, Guiné Portuguesa (Guiné-Bissau), Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Mas, tão logo a Revolução dos Cravos derrubou o governo totalitário, em 1974, os países africanos também ganharam liberdade política. Primeiro Guiné-Bissau, no mesmo ano, e os demais, em 1975.

Para estudiosos e protagonistas, a autonomia política ainda não se refletiu em liberdade plena, não só nos países mais populosos da lusofonia na África, mas no continente como um todo. “Livre significaria os países africanos serem efetivamente soberanos. Mas, no contexto atual, os Estados não conseguem decidir por si próprios os seus destinos”, analisou o historiador moçambicano Sérgio Maungue, investigador do Arquivo Histórico e professor de história e antropologia. “Usava-se o chavão do imperialismo; hoje fala-se de globalização. Mas, no fundo, consegue-se perceber que os propósitos são os mesmos: manter os países africanos ancorados no sistema mundial, sob controle de determinados países”, completou.

O historiador ressaltou que a independência política foi o primeiro passo. “Visava, depois, a um desenvolvimento econômico, de serviços e intervenções nacionais. Mas o que se verifica agora é que os países africanos não têm conseguido a soberania que permite levar isso a cabo. Falta o componente econômico para consolidar a parte política já conseguida. Esse era um dos objetivos que levaram ao movimento de independências que se iniciou em 1960”.

O processo de ocupação territorial, exploração econômica e domínio político da África por nações europeias (França, Reino Unido, Portugal, Holanda e Espanha) começou no século 15, na busca de novas rotas para o Oriente e de mais mercados produtores e consumidores. Quatro séculos depois, com a expansão do capitalismo industrial, países como Alemanha, Bélgica e Itália também se lançaram na corrida para ocupar o Continente Africano, aumentando a presença europeia. Em 1884, a Conferência de Berlim dividiu a África entre os europeus. Somente a Etiópia e a Libéria mantiveram-se independentes.

Como lembra Martin Meredith, no livro O Estado da África – Uma História dos 50 anos de Independência, os negociadores “frequentemente traçaram linhas retas sobre os mapas, levando pouco ou nada em consideração a miríade de monarquias tradicionais existentes na realidade”. Metade das novas fronteiras impostas era composta de desenhos geométricos perfeitos, separando etnias em nações diferentes ou reunindo tribos inimigas em um único país.

Terminada a 2ª Guerra Mundial (1939-45), a difusão de ideias democráticas e o nacionalismo, influenciados pelas disputas locais e pela Guerra Fria, levaram aos processos de independência no continente. Em 1950, somente Egito e África do Sul tinham se libertado de seus colonizadores. Dez anos depois, 17 países conseguiram autonomia em um único ano (1960): Alto Volta (hoje Burkina Faso), Camarões, Costa do Marfim, Congo, Daomé (hoje Benin), Gabão, Mali, Mauritânia, Níger, Nigéria, República Centro-Africana, Madagascar, Senegal, Somália, Chade, Togo e República Democrática do Congo (ex-Zaire).

Os últimos países africanos a alcançar a independência, na década de 1990, libertaram-se não mais de Estados europeus, mas de países africanos: a Namíbia separou-se da África do Sul e a Eritreia, da Etiópia. Mas, até hoje, ainda há territórios ocupados por europeus, como as possessões espanholas no Marrocos e as ilhas de Santa Helena, Ascensão e Tristão da Cunha, do Reino Unido. Já as ilhas Reunião e Mayotte decidiram, em consulta popular, se manter sob controle da França.

O camaronês Achille Mbembe, professor de história e ciência política da Universidade de Witvatersrand, em Joanesburgo (África do Sul), publicou este ano o livro Saindo da Grande Escuridão – Ensaio sobre a África Descolonizada. Nele, defende que a descolonização é um processo inalcançado, “fictício” como a democratização. De acordo com o acadêmico, o adversário não é mais externo; é a desigualdade e a estrutura de exploração que permanecem intactas no Continente Africano.

Edição: Vinicius Doria

Luz pré-paga. Aqui tem. E Cabo Verde vai ter.

Na Agência Brasil.

23/09/2010
Cabo Verde adota sistema pré-pago para fornecimento de energia a órgãos públicos

Eduardo Castro
Correspondente da EBC para a África

Maputo (Moçambique) – O governo de Cabo Verde vai instituir o sistema pré-pago para racionalizar o uso da energia elétrica nos edifícios públicos. Um teste já foi feito na capital Praia e, até o fim do ano, será expandido para 500 locais em todo o arquipélago. No projeto-piloto, 100 medidores foram instalados em repartições públicas. “Este tipo de sistema estimula o uso racional de energia, permitindo aos responsáveis pelos serviços administrativos do Estado uma gestão mais fácil da despesa e maior transparência e qualidade de serviço”, diz um comunicado do Ministério do Turismo, Indústria e Energia de Cabo Verde.

Segundo o Presidente da Electra, Antão Fortes, empresa de eletricidade e água que participou do estudo-teste, já há interesse de várias repartições públicas em implantar o sistema. Fortes disse à TV pública caboverdiana que ainda não há previsão de quando a sociedade civil poderá optar pelo serviço pré-pago de distribuição de energia, como já ocorre em outros países.

Em Moçambique, o sistema pré-pago (conhecido como “credelec”) é muito comum. O consumidor compra créditos nos postos da empresa estatal Electricidade de Moçambique e insere os números em um terminal dentro de casa, como se digitasse a senha em uma caixa eletrônica de banco. Um marcador indica os quilowatts/hora (kWh) disponíveis, que diminuem à medida que são usados. O sistema calcula o uso mensal de cada casa e acende uma luz amarela quando o crédito atinge o equivalente ao consumo de uma semana. A luz passa para cor vermelha quando o prazo cai para 24 horas. Ao final dos créditos, a energia é imediatamente cortada.

Desde o ano passado, Cabo Verde vive episódios de falta de energia. Segundo a empresa Electra, por avaria nos equipamentos. O país vai começar em breve a construir quatro parques eólicos (que transformam a força dos ventos em energia elétrica) nas ilhas de Santiago, São Vicente, Boavista e Sal, orçados em R$ 170 milhões, além de dois parques fotovoltaicos (que geram eletricidade a partir da energia solar).

Edição: Vinicius Doria

Enquanto isso, em Cabo Verde…

Uma ONG cheia de boa vontade decidiu montar uma fonte de água em um povoado afastado. As mulheres lá caminhavam quilômetros para levar a roupa pra lavar no rio e trazer água pra casa.

O lugar escolhido para a obra foi o meio da vila, bem na praça.

Fizeram o projeto, descolaram a verba, contrataram o pedreiro, compraram o material. Como convém, fotografaram o passo-a-passo. Feito o poço, tinha água em boa quantidade. Subiu a alvenaria. Pintaram tudo de branco, bem bonitinho.

Chamaram lá os líderes locais e os políticos da região pra inauguração – também devidamente fotografada. Sorrisos e sensação de dever cumprido.

Seis meses depois, alguém da ONG volta lá. Acha o poço abandonado e vê as mulheres andando os mesmos quilômetros pra ir à beira do rio, carregando suas trouxas na cabeça. A surpresa ficou maior ainda ao verificar que a água jorrava abundantemente.

Foi perguntar às senhoras por que elas não estavam usando a fonte. Ouviu delas uma liçãozinha básica de vida.

“O rio é longe”, disse uma senhora. “E isso era bom”.

Lá só vão mulheres. Os maridos, os líderes, os religiosos e os solteiros ficam na vila. O rio, na hora de lavar roupa, era o único lugar em que elas se sentiam à vontade para falar mal dos maridos, dos líderes religiosos, suspirar com a beleza dos solteiros, fofocar…

Tirá-las de lá foi como desligar a televisão do lugar – que, claro, não tinha televisão. Era no rio que elas invejavam a vida das outras, lamentavam por sua sorte. Mas também se vangloriavam dos filhos, se orgulhavam das suas habilidades, desopilavam o fígado, ganhavam coragem para vida. E sonhavam.

Na fonte no meio da praça, às vistas dos maridos, nada disso era mais possível.

Ao invés de largar seus sonhos, elas largaram o poço. E voltaram pra beira do rio. A quilômetros de distância, com as trouxas de roupa na cabeça.

PS:
Direto ao ponto: pergunte antes – e ouça a resposta. E não meça os outros pela sua régua. Por mais brilhante e magnânimo que você se imagine.