Caso ou compro uma biclicleta?

No trajeto até os memoriais do genocídio, me impressionei com o número de biclicletas-táxi na estrada que liga Ruanda ao Burundi, aqui bem no centro da África. Isso mesmo: bicicletas-táxi. Você paga uma nota lá e o sujeito sobe e desce as colinas pedalando no seu lugar. Eles têm uniforme e tudo. É um colete verde, com listras amarelas.

Não confundir com o moto-táxi (aliás, aqui chama táxi-moto), que circula na cidade de Kigali aos montes, sempre de capacete verde – um pro motosta e outro pra você, passageiro. Um trajeto de 10 minutos custa 300 francos – exatos 90 centavos de real. Quando descobri, passei a fugir do carro – que cobra 3 mil – 9 reais – pelo mesmo trajeto.

Comentei com o Rachid, o motorista (do carro), que achava interessante aquele monte de bicicleta na estrada cheia de sobe-e-desce. Ao que ele responde: “é status ter bicicleta aqui”.

“Em algumas regiões mais afastadas, quem não tem bicicleta não casa”, diz o Rachid. O pai da noiva logo pergunta: “tem bicicleta? Não? Então nada de casar com minha filha.”

Logo, pare com a bobagem de “não sei se caso ou compro uma bicicleta”.

Compre a bicicleta antes. Em alguns lugares, sem um, não tem o outro.

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Xenofobia na TV Brasil

A reportagem que fiz na fronteira rendeu texto na Agência Brasil e VT na TV Brasil.

O texto foi publicado no sábado, dia 24. Está aqui, pra quem não leu.

E a reportagem na TV foi ao ar no Repórter Brasil da segunda-feira 26. Está aqui.

Aqui dizem lobolo. Em Angola é alambamento…

…mas , no fundo, a idéia é a mesma. Quer casar com ela, bonitão? Pois apresente seus melhores argumentos.

Aqui, no Mosanblog,
a Sandra explica melhor essa tradição casamentícia. Mais pra frente, claro, vai virar reportagem na TV Brasil.

É fato que o hábito está em caindo em desuso. Mas é tão forte que virou comercial de TV em Angola, como você vê aí embaixo.

“Receba as flores que lhe dou…”

Quem acha que festa de três dias é invenção nova, coisa de rave, nunca esteve num casamento aqui em Moçambique.

Fomos a um na sexta-feira à noite. Casamento de um casal casado, aliás. Amadeu é o irmão mais velho de um grande amigo, Gabriel Junior – que vem a ser o apresentador de televisão mais famoso de Moçambique, que faz o “Moçambique em Concerto”, um programa de auditório no domindo à tarde com alto índice de audiência, aqui e na África toda, graças ao satélite. Pois depois de 25 anos junto com Eugênia e com três filhos crescidos, Amadeu chamou a família toda (são sete irmãos dele e mais tantos dela) pra efetivamente casar. O Gabriel chamou a mim. E eu levei minha família toda aqui – eu e Sandra.

Amadeu montou uma tenda para 150 convivas no jardim de casa. Ele vive numa cidade grudada em Maputo, Matola, onde os terrenos são grandes. Fez pista de dança, chamou banda, armou uma bela decoração. “Nossa, quanta gente”, disse brazuca cá ao chegar no lugar. “Vai ficar cheio até domingo”, disse o Gabriel. Pois é festa hoje, sexta, das 19:30 às 3 da manhã. Festa amanhã, sábado, das 2 da tarde à hora de for. Festa domingo, com um almoço “só pra família” de oito irmãos, e o decorrente número de cônjuges, sobrinhos, tios, e tal. E é sempre assim. De acordo com as posses, claro, muda o estilo. Mas a festa é sempre longa, dura dias.

Gabriel é de Tete, no norte de Moçambique, criado em outra cidade, a Beira, que fica no centro do país. Duas áreas com forte influência de muçulmanos e hindus. Dois povos festeiros, misturados aos que eram daqui já, deu em casórios deste tamanho. A lua de mel que é curta. Uma noite só, muitas vezes. E os noivos voltam a trabalhar.

O povo da Beira fala sena, uma das vinte e tantas (uns contam 23, outros até 28) línguas das várias regiões de Moçambique. Quando os sucessos cantados em sena pintavam nos picapes, a pista enchia na hora. O maior deles, “Chiripo?” – que numa tradução livre seria “Qualé o seu problema?”. Um sujeito que diz que dá tudo pra mulher e ela só reclama. Talvez – assim, digamos – não tão apropriado pra tocar em casamento. Mas, como eles dizem aqui, “esteve a bater” – fez um sucesso miserável.

Aliás, falando em expressões locais… um dos sobrinhos vai ao microfone homenagear os tios e parabeniza o “casal de fresco”. Não é isso não, brazuca tonto. “Casal de fresco” é o novo casal, recém-casado. Fresco, portanto.

Forte influência hindu e muçulmana, mas muita música brasileira, pá. Só Robertão foram umas cinco. Axé. Garota de Ipanema. Bruno e Marrone. E o momento mais solene da noite foi ao som de Nílton César (lembra dele? Não confundir com o preclaro Nílson César, que narra futebol na Jovem Pan).

A juíza de paz, aqui chamada de “conservadora” (aliás, por que chamamos o oficial que celebra casamentos de “juiz de paz”? Devia ser o título do cara que faz divórcio…) leu os proclamas, fez lá as mesuras de praxe (iguais às nossas, afora o fato de ter dito quantos anos a noiva tinha – o que no Brasil causaria choro e ranger de dentes de algumas nubentes). “É de livre e espontânea vontade”, “sim, sim”, tal. Trocam as alianças. E a conservadora diz “e agora o noivo pode cumprimentar a noiva”. Neste momento é que vem Nilton César, trazido pelos dedos ágeis do DJ: “Receba as flores que lhe dooooou…e em cada flor um beijo meeeeu….”

Um clássico.

PS: Ouvi dizer que as cerimônias religiosas são interessantes pra nós porque têm elementos misturados de todas as influências daqui: crenças africanas, hinduísmo, islamismo, catolicismo, protestantismo – o povo fala até em “sotaque da Igreja Universal”, diga-se. Prometo relatos circunstanciados. E, por óbvio, reportagens na TV.