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Quem dá mais? Quem leva mais?

Táxi em Dacar não dá recibo. Não tem taxímetro. Os carros são antiquíssimos e completamente acabados. O vidro é invariavelmente quebrado. A porta mal fecha. O carro mal anda. No caso de acidente, o grande risco é morrer de tétano, de tanta ferrugem.

Também não tem tabela. Antes de entrar no carro, você diz onde vai e pergunta o preço. Como num mercado árabe, o taxista sempre joga um valor que é, no mínimo, o triplo do que você vai pagar. Daí você diz que “não, isso é um roubo”, ameaça sair, faz uma cena. Então, ele reclama da vida, grita um pouco, e cobra bem menos.

Um teatrinho bem cansativo.

Dacar é arrumada no centro, com uma bela orla com palmeiras (apesar da praia suja). Não tem um único semáforo – só rotatórias e guardas com apito. Como todas as capitais africanas, foi concebida para abrigar meia dúzia de europeus. Os nativos ficavam lá longe, sem nada. Quando veio a independência, a estrutura da cidade não cresceu – nem tinha como. Mas a população sim – e muito.

O povo é pobre (desemprego de 50%, dez camelôs por esquina, analfabetismo de 70%) mas sempre bem vestido, com roupas muito coloridas. As mulheres usam vestidos cheios de babados. Os homens, aquelas batas claras e chapéu. Apesar de muito pano, é agradável de vestir, mesmo no calorão.

Como no norte de Moçambique, é comum ver gente mascando um graveto, para limpar os dentes. Como também é comum em boa parte da África, que pode masca bem mais que o graveto, e rói o osso até o fim. Exemplinho é o presidente levar 20% de royalties do ingresso de quem visita uma imensa estátua sobre o Renascimento Africano, só porque ele teve a grande idéia de inventá-la.

Seguindo o bom exemplo, as pequenas otoridades garantes seus royalties também.

Quem bobeia, paga o preço – sem recibo, claro. Dei mole: esqueci minha carteira internacional de vacinação. Acho chegar, nada. Mas ao sair, o sujeito olhou meu passaporte, perguntou por ela e, ao ouvir que eu não tinha, abriu aquele belo sorriso.

“Ten dólar”, disse ele, indicando um balcão.

“Mas… pra sair do país?”

“A África do Sul exige”.

“Mas eu não vou para África do Sul. Só troco de avião lá. E já entrei e saí da África do Sul umas 10 vezes este ano – a última há cinco dias. Nunca me pediram isso.”

“É regra nova”, disse o zeloso funcionário, sem sequer ficar vermelho.

No balcão, estiquei a nota de 20 euros (única que tinha). O cara não falou nada. Me deu 5 mil francos de troco (embolsou 13 dólares, portanto) e preencheu o documento lá. Nem me perguntou se, por um acaso, eu queria tomar a vacina.

Meu amigo David conta uma história parecida em Angola. Ao chegar sem a carteira da vacina, também ouviu do zeloso que custava dez dólares. Mas, caso ele não quisesse tomar… o preço era vinte.