Mia Couto e as honoris causas

Mia Couto recebeu, esta semana, o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Politécnica de Maputo. Os jornais moçambicanos reproduzem, hoje, seu discurso na cerimônia.

Separei alguns trechos:

“Um dia destes, um jovem funcionário propôs-me o pagamento de um suborno para emitir um documento. Aquilo não correu bem porque ele, num certo momento, reconheceu-me e recuou nos seus propósitos.

Para se redimir o jovem explicou-se da seguinte maneira:

– Sabe, senhor Mia eu gostava muito de ser uma pessoa honesta, mas falta-me o patrocínio.

(…)

Escrevi uma vez que a maior desgraça de um país pobre é que, em vez de produzir riqueza, vai produzindo ricos. Poderia hoje acrescentar que outro problema das nações pobres é que, em vez de produzirem conhecimento, produzem doutores (até eu agora já fui promovido…) . Em vez de promover pesquisa, emitem diplomas. Outra desgraça de uma nação pobre é o modelo único de sucesso que vendem às novas gerações. E esse modelo está bem patente nos vídeoclips que passam na nossa televisão: um jovem rico e de maus modos, rodeado de carros de luxo e de meninas fáceis, um jovem que pensa que é americano, um jovem que odeia os pobres porque eles lhes fazem lembrar a sua própria origem.

É preciso remar contra toda essa corrente. É preciso mostrar que vale a pena ser honesto. É preciso criar histórias em que o vencedor não é o mais poderoso. Histórias em que quem foi escolhido não foi o mais arrogante mas o mais tolerante, aquele que mais escuta os outros. Histórias em que o herói não é o lambe-botas, nem o chico-esperto. Talvez essa histórias sejam o tal patrocínio que faltou ao nosso jovem funcionário.

(…)

E vou terminar partilhando um episódio real que foi vivido por colegas meus. Depois da Independência, um programa de controlo dos caudais dos rios foi instalado em Moçambique. Formulários foram distribuídos pelas estações hidrológicas espalhadas pelo país. A guerra de desestabilização eclodiu e esse projeto, como tantos outros, foi interrompido por mais de uma dúzia de anos. Quando a Paz se reinstalou, em 1992, as autoridades relançaram esse programa acreditando que, em todo o lado, era necessário recomeçar do zero. Contudo, uma surpresa esperava a brigada que visitou uma isolada estação hidrométrica no interior da Zambézia. O velho guarda tinha-se mantido ativo e cumprira, com zelo diário, a sua missão durante todos aqueles anos. Esgotados os formulários, ele passou a usar as paredes da estação para registar, a carvão, os dados hidrológicos. No interior e exterior, as paredes estavam cobertas de anotações e a velha casa parecia um imenso livro de pedra. Ao receber a brigada o velho guarda estava à porta a estação, com orgulho de quem cumpriu dia após dia: acabou-se o papel, disse ele, mas o meus dedos não acabaram. Este é o meu livro. E apontou para a casa.”

A íntegra do discurso de Mia está aqui: http://www.contioutra.com/o-livro-que-era-uma-casa-a-casa-que-era-um-pais-por-mia-couto/

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Mia Couto no Mosanblog

Sandra acompanhou os coleguinhas que cá estiveram em uma conversa com o autor moçambicano.

Dê uma olhada clicando aqui.

Logo depois dos protestos do início de setembro estive com ele, que fez alguns comentários sobre as manifestações na Agência Brasil (você pode reler clicando aqui).

A cada conversa com ele, fico mais fã. Grande autor, ótimo papo.

Entrevista com Mia Couto na Agência Brasil

Estive com Mia Couto no escritório dele aqui em Maputo. Simpático, lembrou de quando foi aos estúdios da TV Brasil no Rio de Janeiro para uma entrevista da qual eu participei, no ano passado.

Fez considerações bem interessantes sobre a FRELIMO. Ele não dá nomes – mas já descobri pelos menos duas figuras que estiveram nos bairros populares nos dias dos protestos. Um foi o ministro da energia, Salvador Namburete, que decidiu por mudanças depois de ouvir alguns relatos.

Outro foi o ex-presidente Joaquim Chissano, que foi à Mafalala e passou pela casa onde viveu quando jovem. Em 2008, nas manifestações contra o aumento na tarifa dos chapas (as vans), ele também esteve conversando diretamente com as pessoas na periferia.

A conversa com Mia também terá uma versão na TV Brasil, que vai ao ar em breve.

Aqui, a reportagem tal qual publicada pela Agência Brasil.

09/09/2010
Para Mia Couto, revolta popular em Moçambique vai levar governo a ações na área social

Eduardo Castro

Correspondente da EBC na África

Maputo (Moçambique) – O escritor moçambicano Mia Couto acredita que a revolta popular da semana passada vai levar o governo de Moçambique a tomar medidas na área social, que há muito tempo rolam nas gavetas dos governantes do país. “Alguém da comunidade doadora me dizia que, de repente, coisas que estavam sendo discutidas há anos passaram a ser simples de serem aceitas pelo governo”, afirmou ele, em entrevista à Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

As mudanças podem incluir o fortalecimento de programas sociais, que não saem do papel por falta de infraestrutura para aplicação e fiscalização. Mas o escritor acha que é preciso ter claro que os passos serão cuidadosamente acompanhados. “O governo é capaz de ter uma agenda autônoma, independente? Não, não é. E nem sei se quer ser”.

A comunidade doadora a que referiu o escritor são os países que ajudam economicamente Moçambique. Cerca de 40% do orçamento de Moçambique vêm de doações da comunidade internacional. Arrasado pela guerra civil nos anos 1990, e na década anterior vivendo dificuldades no período em que adotou o socialismo após a independência, Moçambique abriu seu mercado, privatizou boa parte dos bens públicos e recebeu uma enxurrada de investimentos estrangeiros. Mesmo assim, sua população continua como um das mais pobres do mundo, pelos índices internacionais de renda e desenvolvimento.

“Hoje em dia, essa governação é muito feita a partir de fora”, afirmou Mia Couto. “Moçambique tem compromissos dos quais não pode fugir. Está entalado entre o que tem que fazer por compromisso (porque precisa de empréstimos e doações), e o que tem que fazer por consciência própria. É uma posição muito difícil, que não pode ser reduzida a um julgamento sobre se o governo é bom ou mau”.

Para Couto, a margem é pequena, mas ainda assim maior que em outros países – por necessidade dos organismos internacionais comprovarem suas próprias teses. “Moçambique é um dos últimos casos para se mostrar que essa linha é viável. Então as instituições permitem que aqui se vá um pouco mais longe, para pelo menos haver uma situação de êxito. Mas isso é frágil. Há pouco tempo, na Grécia – Europa, portanto – os tumultos foram muito parecidos e o governo grego também ficou entre a espada e a parede”.

Segundo Mia Couto, não se escapa deste labirinto sozinho. E países como o Brasil são importantes na busca por uma saída. “Hoje temos que ser do mundo. Temos que ser parte dele, e não existem dois. Mas está nascendo qualquer coisa. E o Brasil pode ser parte dessa alternativa, essa outra opção”.

“Há de haver um contraponto a essa voz única, que dita as economias do mundo e as regras do jogo. Essa hipótese de nascer um contraponto no sul do mundo… Brasil, África do Sul aqui perto, Índia, China… pode ser algo que venha a nos permitir explorar outras possibilidades”, disse o escritor.

Na política moçambicana, Mia Couto acha que a explosão social também serviu para trazer o governo para um caminho que, segundo ele, havia sido abandonado pela Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), partido do presidente Armando Guebuza, formado pelos guerrilheiros que conseguiram a independência de Portugal, em 1975.

“Sobreviveu uma coisa que era antiga na Frelimo: a ligação profunda com as pessoas”, disse o escritor. “Isso é o mais importante. Vivo este processo desde que tenho consciência, fui militante da Frelimo por muitos anos e senti agora que venceu essa linha popular sem ser populista, de ir aos bairros, ouvir as pessoas onde elas vivem, mantendo um diálogo mais profundo. Os ministros foram para o locais onde havia revolta, sentaram-se e escutaram a população. E isso foi fundamental para mudar a postura do governo, primeiro arrogante e tentando resolver pela via policial, para a posição adotada depois, de rever as decisões”.

Depois de quase uma semana de bloqueios e manifestações, além da confirmação oficial da morte de 13 pessoas nos enfrentamentos com a polícia, o governo resolveu congelar os aumentos do pão, água e energia, além de salários estatais e gastos públicos. “Fiquei muito feliz com a mudança de postura do governo. Não pelo conteúdo das decisões em si, mas pelo fato da Frelimo e a cúpula terem aceito, pela primeira vez, que há um problema, e que não é só econômico – tem a ver com moral. Obrigou a essas pessoas a se olharem no espelho. O problema também é dos dirigentes e este apertar de cintos precisa ser partilhado por todos”.

“Isso foi um acontecimento”, disse ele, no escritório em que trabalha como biólogo, em uma rua tranquila de Maputo. “E o risco era ser um não acontecimento. Que esse motim passasse, ficasse no registro das coisas que não aconteceram. Ou ainda como um assunto marginal – ou de marginais, resolvido ao nível policial, que não obrigasse a pensar coisas”.

Atualmente, Mia Couto é um dos mais premiados escritores da língua portuguesa. Filho de portugueses, nasceu na cidade da Beira, em 1955. Estudou medicina, formou-se em biologia, mas adotou o jornalismo depois da queda da ditadura em Portugal, em 1975, e engajou-se na guerra de libertação de Moçambique. É um dos autores do hino nacional moçambicano, adotado em 2002.

Terra Sonâmbula, seu primeiro romance, de 1992, foi considerado um dos doze melhores livros africanos do século 20 por um júri criado pela Feira do Livro do Zimbábue. Mia Couto é sócio correspondente da Academia Brasileira de Letras, ocupante da cadeira 5, que tem por patrono Dom Francisco de Sousa.

Dono de uma narrativa particular, usa muitas palavras de dialetos moçambicanos na sua prosa, sendo comparado a Guimarães Rosa pelo tratamento dado à língua. Seu romance mais recente, Jerusalém, foi publicado no ano passado. Atualmente, finaliza um livro de poesia e já trabalha no próximo romance, “sobre os leões que comem gente na província de Cabo Delgado”, divisa de Moçambique com a Tanzânia.

Edição: Antonio Arrais