Chega a primeira máquina da fábrica de antirretrovirais

Demorou. Mas veio.

27/10/2010
Chega a Moçambique máquina brasileira da primeira fábrica de remédios contra Aids do país

Eduardo Castro
Correspondente da EBC para a África

Maputo (Moçambique) – Depois de quase sete anos de expectativa, chegou hoje (27) a Moçambique a primeira máquina da fábrica de remédios de combate à aids do país, que está sendo montada com auxílio do Brasil. O equipamento, uma emblistadeira, foi trazido do Rio de Janeiro para Maputo em um avião Hércules da Força Aérea Brasileira (FAB).

A máquina serve para moldar e embalar comprimidos. Foi levada para o local definitivo, um galpão na cidade vizinha da Matola, onde hoje já opera uma fábrica de soro fisiológico e glicose do governo moçambicano.

“Os técnicos começam o treinamento já nos próximos dias. Eles vão aprender a montar um equipamento deste porte, bem como utilizar o maquinário depois”, disse a coordenadora do projeto, a brasileira Lícia de Oliveira, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Ela acompanhou a chegada da máquina na pista do aeroporto, junto com representantes da embaixada brasileira, três técnicos e o futuro diretor da fábrica, o também brasileiro Roberto Castrignani.

A Fiocruz será responsável pela gestão técnica da planta, a primeira pública a produzir antirretrovirais na África. Laboratórios privados produzem remédios anti-aids em pequena escala em Uganda, no Quênia e na África do Sul.

Além da emblistadeira, outras máquinas virão do Brasil. “Essa foi emprestada pela Fiocruz. As definitivas já foram compradas e chegam a partir de março do ano que vem”, explicou Lícia. Também foram encomendados diversos equipamentos para fabricação, controle de qualidade e armazenamento de remédios.

A fábrica de antirretrovirais é um desejo antigo de Moçambique. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou, em 2003, a intenção de ajudar o projeto, durante a primeira visita dele a Moçambique. O Congresso brasileiro liberou a verba em dezembro do ano passado (R$ 13,6 milhões). Na nova visita que fará a Moçambique no mês que vem, entre os dias 9 e 10, o presidente Lula deve visitar o local onde a fábrica vai funcionar.

Moçambique é um dos dez países mais afetados pela aids no mundo, com índice de prevalência de 11,5% (no Brasil, por exemplo, é de 0,5%). Tem 1,5 milhão de infectados em uma população de 22 milhões de pessoas. Diariamente, 85 crianças nascem com o vírus HIV no país. Segundo o escritório local do Programa das Nações Unidas para HIV-aids (Unaids), 200 mil moçambicanos são tratados com antirretrovirais. Bem mais que os 6 mil registrados em 2005, mas longe do necessário.

Em setembro, o ministro dos Negócios Estrangeiros informou, em reunião das Nações Unidas sobre as Metas do Milênio, que, mesmo com o avanço, o país não conseguirá atingir seu objetivo no combate ao HIV. “Menos custo vai significar mais gente sendo atendida, porque teremos verba para comprar mais medicamentos, pagar mais médicos. É um ganho imenso”, relativizou o porta-voz do Ministério da Saúde moçambicano, Leonardo Chavane.

Além de antirretrovirais, a fábrica vai produzir medicamentos para combater a tuberculose e a malária. O prazo para o início das atividades depende, além da chegada dos equipamentos, do fim das obras de adequação do prédio.

Edição: Vinicius Doria

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AIDS e África na TV Brasil

Como disse outro dia aqui e na Agência Brasil (clique aqui pra ver), a coisa é ruim, mas está melhorando.

Conversei com dois especialistas brasileiros – um que mexe com política pública, verba e estrutura; outra que está na ponta, tratando dos doentes. Eles são sinceros ao dizer que ainda falta muito. Mas deixam claro que muito já se caminhou.

Assista clicando aqui.

AIDS na África: segue ruim, mas está melhorando

Já tratei em reportagens anteriores, vou tratar em próximas: se diminiuírem os aportes internacionais, a coisa não vai.

Vale para investimentos, doações ou parcerias.

A turma sempre levou o quanto pode daqui – e, diga-se, continua levando.

Precisa mandar de volta também.

Abaixo, reportagem da Agência Brasil.

24/09/2010
Apesar dos avanços, Moçambique não vai alcançar os Objetivos do Milênio fixados para a aids

Eduardo Castro
Correspondente da EBC para a África

Maputo – Apesar dos vários avanços, Moçambique não deve atingir as metas de combate ao vírus HIV/aids previstas nos Objetivos do Milênio fixados pela Organização das Nações Unidas (ONU). “Temos de ser realistas e reconhecer que este objetivo dificilmente será cumprido por volta de 2015”, declarou o ministro dos Negócios Estrangeiros e Cooperação de Moçambique, Oldemiro Baloi, falando à Agência Lusa, durante encontro que tratou do tema esta semana, em Nova Iorque.

Os Objetivos do Milênio foram estipulados em 2000. Deveriam ser integralmente alcançados por todos os países membros até 2015. A meta estabelecida para a saúde é a inversão da tendência de crescimento da aids, da malária e de outras doenças graves. Também fazem parte dos objetivos a redução pela metade da pobreza extrema e da fome, o estabelecimento do ensino primário universal, a promoção da igualdade de gênero, a redução em dois terços da mortalidade infantil e em 75% da mortalidade materna, a garantia de sustentabilidade ambiental e o fortalecimento de parcerias globais para o desenvolvimento.

O resultado positivo de Moçambique em alguns desses aspectos gerou comentários favoráveis do presidente norte-americano, Barak Obama, durante a assembleia da ONU. Para Obama, Moçambique, Malaui, Etiópia e Tanzânia adotaram políticas de crescimento econômico que, segundo ele, os põe em marcha mais acelerada no combate à pobreza.

Com 1,5 milhão de seus quase 22 milhões de habitantes portadores do HIV, Moçambique é um dos dez países mais afetados pela aids no mundo, com índice de prevalência de 11,5% (no Brasil, por exemplo, o índice é de 0,5%). É vizinho da África do Sul, que demorou mais de dez anos para estabelecer uma política eficaz de combate à transmissão da doença. Também faz fronteira com a Suazilândia, país que tem o maior percentual de infectados no mundo – um em cada quatro habitantes adultos, o que faz com que a expectativa de vida da população seja de apenas de 37 anos.

O coordenador do programa das Nações Unidas para o combate à síndrome (Unaids) em Moçambique é o advogado brasileiro Maurício Cysne. Cearense, está há seis anos em Maputo. Ele acha que, mesmo sem atingir a meta em 2015, o país deu passos importantes nos últimos anos. “Tendo em vista a magnitude do problema, acho que estamos num bom caminho. Em 2005 tínhamos 6 mil pessoas em tratamento. Agora são 200 mil”, informou Cysne, lembrando que 60% das moçambicanas grávidas infectadas já recebem os remédios antirretrovirais. Para o especialista da ONU, o grande desafio é conseguir mudar comportamentos de risco e massificar ainda mais o uso do preservativo nas relações sexuais.

“Os ministérios de Comunicação, Transporte e Saúde, apoiados diretamente pelas Nações Unidas, têm programas concretos nos corredores de transportes”, disse ele, para evitar que o vírus seja “carregado” por caminhoneiros, prostitutas e comerciantes que circulam pelas fronteiras com África do Sul, Suazilândia e Zimbábue, no sul do país. No norte, de forte influência muçulmana, a incidência do HIV é bem menor.

Em meio às dificuldades, é na África Subsaariana (onde vivem 70% dos infectados no mundo) que são registrados os maiores avanços na luta contra o HIV. Dados do Unaids mostram que, juntos, os 22 países que ficam ao sul do Deserto do Saara tiveram um declínio de mais de 25% nos novos casos entre 2001 e 2009. Os países mais afetados – Costa do Marfim, Nigéria, África do Sul, Zâmbia e Zimbábue – foram os que registraram as maiores quedas.

Alguns recursos de prevenção, comuns em outros continentes, ainda são inatingíveis na África, por causa da pobreza e da falta de segurança alimentar. “Não existem condições de higiene ou acesso a água potável que nos permitam preconizar a suspensão do aleitamento materno para bebês de mães infectadas”, exemplifica a médica pediatra Mônica Machado, da organização não governamental (ONG) Médicos Sem Fronteiras. “Também não conseguimos falar em fazer partos cesariana no lugar do parto normal – dois fatores que ajudaram muito outros países a reduzir a transmissão vertical [da mãe para o bebê]”.

Por dia, 85 crianças nascem infectadas pelo HIV em Moçambique. Em muitos países, essa forma de contaminação caiu praticamente a zero. “Trabalhei por oito anos em Diadema (SP), e lá só vi isso acontecer uma vez”, lembrou Mônica. Ao olhar o quadro geral, ela se diz “esperançosa”. “É bom olhar pra trás e ver os ganhos que tivemos. Isso nos estimula a continuar lutando. Mas ainda há muito que trabalhar”, disse a pediatra.

Edição: Vinicius Doria