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Aos ouvintes de sempre, meu muito obrigado

Ouvinte de rádio tem muita intimidade com os profissionais do veículo. Somos parte da família deles – e eles são parte da nossa vida.

Me lembro que, logo depois do 11 de Setembro, uma noiva preocupada me mandou uma mensagem, relatando que iria casar em pouco tempo e tinha lua de mel marcada para dali alguns dias. Ela queria saber se deveria manter a viagem ou não.

Uma baita responsabilidade…

Acabei sugerindo que ela mantivesse a viagem. Depois, a moça me mandou outra mensagem dizendo que seguiu o conselho, deu tudo certo e ela estava muito feliz. Nunca mais soube do casal, mas espero que a felicidade continue até hoje.

Não há motivos para comemorar o 11 de Setembro: muitas pessoas morreram naquele dia; e muitas mais depois, na prepotente, dispendiosa e desastrada resposta americana. Hoje o mundo é mais inseguro, mais injusto, mais instável, mais preconceituoso, e até mais pobre do que em 10 de Setembro de 2001. Não se faz justiça com vingança. Nem se chega à paz por meio do caminho do lucro.

Mas os dez anos do 11 de Setembro me trouxeram motivos para me emocionar. Recebi várias mensagens de ouvintes, que lembram do meu trabalho em 2001.

Agradeço a todos e cada um deles pelo carinho, como o demonstrado pela ouvinte Edna, que mandou a tocante mensagem que eu republico aqui.

“Prezado jornalista Eduardo Castro:

Meu nome é Edna Guisard Thaumaturgo, viúva, 68 anos, residente em Taubaté-SP,formação acadêmica em História.

Já faz bastante tempo que procuro me informar onde o senhor estaria trabalhando, visto que causou-me grande impressão a sua participação como correspondente nos Estados Unidos durante o episódio de 11/09. Nunca mais ouvi uma reportagem com tanta vibração, que me marcou profundamente pela veracidade e dedicação com que o senhor desenvolveu o seu trabalho jornalístico naquele fatídico dia. Procurei depois de algum tempo me informar sobre o seu trabalho mas foi difícil. Estou feliz de saber que o senhor continua trabalhando, agora em terras da Africa.

Parabéns por ter sabido ouvir a voz de seu coração e ter conseguido passar as informações que tanto marcaram a minha vida, como a de outros milhares de ouvintes assíduos da Radio Bandeirantes AM . Reconheço que estou um pouco atrasada em poder conversar por e mail com o senhor. O tempo passou mas a emoção é a mesma.

Seja feliz com sua família e em sua profissão. O senhor merece.”

Não sei se mereço tanto. Mas agradeço muito, por tanta atenção.

Ps: o post anterior é sobre o 11 de Setembro de 2001. Quem quiser ler – e até ouvir um pouquinho do meu trabalho naquele dia - pode clicar aqui.

O 11 de Setembro da minha janela

Em 11 de setembro de 2001, eu me preparava para sair de casa, em Arlington, estado da Virgínia, e tomar o metrô com destino ao outro lado do Rio Potomac, Washington DC, para a entrevista coletiva que Michael Jordan daria em algumas horas, sobre seu destino profissional. Na época, ele estava no time da cidade, depois de ter voltado de uma breve aposentadoria do basquete da NBA.

Achava que isso – nada além disso – faria daquela manhã histórica.

Quem dera.

Na época, era correspondente nos Estados Unidos para o Grupo Bandeirantes, mas basicamente trabalhava na rádio. Até dez dias antes, 1o de setembro, também trabalhava para a Voz da América. O serviço brasileiro acabara de ser fechado.

Ao terminar de gravar meus boletins, com o telefone ainda na mão, vi, pela TV, a imagem de uma das torres do World Trade Center, em Nova York, a pegar fogo. Em alguns canais, os apresentadores falavam em “small plane” ou algo assim.

Há quase dois anos vivendo nos Estados Unidos, não tinha um programa de preferência nas manhãs informativas. Mas, ao notar que era algo grande, passei para a ABC, captaneada pelo falecido Peter Jennings.

Em meio a um intervalo comercial, o programa Good Morning America é interrompido para a informação em “special report”. Jennings vai assumir a transmissão cerca de 15 minutos depois, exatamente às 9:11 – algarismos que marcariam esse dia.

Pedi para ser passado para o estúdio e entrei ao vivo na Rádio Bandeirantes descrevendo o que via na TV, o que consumiu alguns minutos. Em São Paulo, a produção tentava localizar brasileiros que estivessem em Nova York.

Encontrou Cláudio Maurício Alfredo, ex-colega, na altura trabalhando em um escritório de advocacia. Ele descreveu, emocionado, o segundo choque, na outra torre do World Trade Center.

Alguns minutos depois, em meio às participações que fazia na Rádio Bandeirantes – falando com o colega José Nello Marques – senti o vidro da minha casa tremer. Olhei incrédulo para minha mulher, Sandra, ao meu lado. Eu já estava na Rádio Bandeirantes, Band e Bandnews TV, e ela falava, pelo outro telefone, na TV Gazeta.

Corremos para a outra janela e vimos o Pentágono envolto numa nuvem negra, bem na nossa frente. Dali mesmo, dei a notícia antes das imagens serem difundidas.

A ABC começou a mostrar às 9:42 – sem saber o que era.

Eu já sabia.

Lembro do chefe da redação da Rádio Bandeirantes, João Marcos dos Santos, entrando no meu fone e me perguntando, delicadamente, “Meu velho, sei que você está sob pressão, nervoso, mas tem certeza do que está falando? Aqui não vimos nada ainda…”

Infelizmente, eu tinha.

Minutos depois, a ordem era para fechar os aeroportos e derrubar quem não descesse imediatamente. Mais um pouco e chegava a informação de que outro jato havia caído, em um descampado na Pensilvânia. Poucos dias mais adiante, o relato era de que um grupo de passageiros conseguiu entrar na cabine, lutar com os seqüestradores e derrubar o avião antes que ele seguisse também para Washington.

Por mais que torça para que essa história bonita tenha sido verdade, não consigo acreditar. Se tiver sido mesmo assim, sou grato a esses heróis, pois seria mais um avião a passar sobre meu prédio – como o primeiro.

Mas, para mim, ele foi mesmo abatido.

Mais um pouco, e o inacreditável voltava a acontecer. Primeiro uma, depois outra – as Torres Gêmeas vieram ao chão. Na gravação da rede ABC, Peter Jennings – o melhor âncora que já houve e vai haver, na minha opinião – viu, mas duvidou do que viu (a partir dos 4:20 do vídeo – até ele parar de falar, em choque, aos 6:25).

Fiquei no ar mais de 12 horas seguidas, a maior parte do tempo olhando da janela. Descrevi o que via para a Rádio Bandeirantes, TV BAND, Bandnews TV. Meus relatos também foram transcritos pelo IG.

Fosse no tempo em que trabalhava na Voz da América, jamais teria visto tudo tão de perto. Isso porque, àquela hora, já estaria no centro de Washington, nos prédios da VOA, sem visão do que estaria acontecendo no Pentágono.

Os pomposos “estúdios da Bandeirantes em Washington” (devo confessar) eram o “den” do meu apartamento – um quartinho atrás da porta de entrada, que serve para pendurar casacos e roupas de frio, acarpetado e sem janelas. Silencioso e mais do que suficiente para minhas gravações dali até o fim do ano, quando – já tinha acertado – voltaria para o Brasil.

No meio da tarde, consegui ir a pé até mais perto do Pentágono – que ficava a 5 quadras de onde morava. Mas eram poucas as informações e muito difícil de falar no celular.

Mas fiquei ali o tempo suficiente para sentir o cheiro característico da queda de um avião -algo difícil de descrever, inclusive. Como já tinha participado intensamente da cobertura da queda do avião da TAM em Congonhas, cinco anos antes, não tenho nenhuma dúvida.

Na TV era tanta informação, tanto medo, tanta coisa, que as emissoras começaram a colocar notícias por escrito, com o texto correndo no rodapé da tela – algo hoje comum. Até aquele dia, isso só acontecia nos canais destinados ao noticiário econômico (entram no ar exatamente aos 5:58 deste vídeo abaixo, na CNN).

Anotei o quanto pude – informações, sensações, sentimentos. Está tudo guardado, junto da minha mobília, no Brasil. Um dia, quem sabe, mexo nisso de novo. Também tenho gravada a cobertura ininterrupta que a ABC fez. Dos três dias, tenho dois – 12 e 13 de Setembro – em fitas de vídeo cassete.

O colega Milton Parron, aliás, mexeu nos arquivos da Bandeirantes outro dia, e compôs um belo programa, com um longo trecho do relato que eu e Cláudio fizemos aquele dia, comparando com o também histórico “Guerra dos Mundos” de Orson Welles.

Aparece lá bem no finalzinho.

O link está aqui.

E um outro contemporâneo de Washington, Paulo Moreira Leite – hoje na Época; em 2001 na Gazeta Mercantil – escreveu o texto abaixo, com o qual concordo em 100%.

“Bin Laden e Bush

Eu morava em Washington quando ocorreu o atentado de 11 de setembro. Minha TV estava ligada quando o segundo avião atingiu a segunda torre gêmea no WTC.  Acompanhei ao vivo as cenas seguintes.

Tentei chegar ao centro da capital americana mas fui apanhado no contrafluxo de uma multidão de cidadãos que retornavam para suas casas e bloqueavam o transito a  dezenas de quilometros de distancia do Pentágono, onde caira um terceiro avião.

Como a maioria das pessoas que viviam nos EUA, fiquei com marcas profundas em função do episódio. Quando você está perto de um ataque dessa envergadura, torna-se, queria ou não, uma vítima potencial. Qualquer que seja sua opinião sobre o governo americano, sobre os direitos humanos e sobre o terrorismo, seu julgamento é influenciado pelo angulo de visão, digamos assim.

Uma década depois, a maioria das análises sobre o 11 de setembro aponta suas responsabilidades para a organização terrorista Al Qaeda e seu líder, Osama Bin Laden.

Mas apesar de morar em Washington e ter até conhecido pessoas que perderam parentes no atentado, eu acho que o presidente americano George W. Bush tem uma grande responsabilidade pelo que ocorreu a partir de 12 de setembro e isso não é pouco.

Feito o balanço da obra de um contra a de outro, pode-se apontar muitas diferenças importantes. Mas é difícil dizer, claramente, quem causou maior prejuizo aos homens e mulheres de nosso tempo.

Se Bin Laden organizou um massacre criminoso de inocentes, Bush tomou diversas decisões erradas e injustificáveis. Agiu como aquela autoridade que aceita a provocação do inimigo — em vez de respondê-la com mais eficácia, com seus próprios meios,em nome de interesses e valores claramente definidos.

Não consigo apontar, depois do 11 de setembro, um único aspecto da vida da humanidade que tenha ficado melhor graças a intervenção do ex-presidente americano.
Bush tentou usar a chamada guerra permanente ao terrror como instrumento fácil de ganhar popularidade.

Admito que a reação de Bush ao atentado pode ter tido como origem a necessidade legítima de dar uma resposta a um atentado que matou milhares de cidadãos americanos, o que colocava obviamente a necessidade de elevar a segurança do país e de seus moradores. Mas Bush tomou iniciativas erradas, com o foco deslocado e com finalidades distorcidas, que se mostraram nocivas a longo prazo.
Deu inícío a uma guerra que não poderia ser vencida no Afeganistão. Iniciou outra, no Iraque, com base numa mentira interesseira. Assumiu uma postura tolerante com a tortura de prisioneiros. O saldo é que a hostilidade aos EUA só aumentou ao longo do tempo. Os atentados sangrentos de Londres e Madri encarregaram-se de mostrar que a segurança também diminuiu.

Ao investir 4 trilhões de dolaresa numa aventura militar sem retorno possível, Bush abriu as portas para a grande crise de hoje, quando a potencia número 1 do planeta tornou-se um transatlântico à deriva e carrega boa parte do mundo desenvolvido consigo.
Bush mostrou-se incapaz de dar uma resposta política a qualquer problema sério dos países árabes e do Oriente Médio, causa original dos ataques. Sempre tentou respostas no plano militar e fracassou sempre.

Se a vida no Oriente Médio pode melhorar, daqui para a frente, deve-se a uma atuação corajosa da população árabe que, sem ajuda dos EUA nem da Al Qaeda, muitas vezes apenas hostilizada por ambos, colocou a questão da democracia no horizonte. Não sabemos ainda o que vai acontecer nesses lugares. Só sabemos que tanto Bush como Bin Laden estão perdendo.”

A vida de repórter me deu a chance de ver muita coisa de perto. Tristes e tensas, como enterro dos sem terra mortos em Eldorados dos Carajás ou a ação dos Tupac Amaru ao seqüestrar um monte de embaixadores ao mesmo tempo, no Peru; a queda de avião da TAM em 1996 e o enterro do Papa João Paulo II; a revolta violenta dos trabalhadores moçambicanos em Maputo, em 2010, ou encontrar uma sobrevivente do genocídio de Ruanda em frente a uma igreja que virou memorial, bem no meio do país.

Também vi fatos alegres e emocionantes, como a final da Copa de 98, a abertura da Copa de 2002 ou a final dos 100 metros rasos na Olimpíada da Grécia. E também instantes históricos, como a eleição (interminável) e posse de Bush nos EUA e a posse de Lula, a poucos metros dele, no Congresso Nacional; a visita de Lula a Obama na Casa Branca (o operário nordestino e o negro pela primeira vez no Salão Oval), e até a cerimônia com as virgens e o rei da Suazilândia.

Mas nada será como o 11 de Setembro.

11 de setembro, de novo

Onde você estava em 11 de setembro de 2001?

Eu estava na rua South Eads, número 1600, sexto andar, em Arlington, Virgínia, Estados Unidos – uma das vias que termina no Pentágono.

De lá, narrava para a Rádio Bandeirantes e Bandnews o que via pela TV, com imagens diretas de Nova York. Dois aviões já tinham batido nos prédios do World Trade Center. Foi quando senti o vidro da sala tremer.

Corri pra janela do corredor. Foi possível ver fumaça preta saindo do meu enorme vizinho.

Comecei a descrever aquilo antes de qualquer imagem aparecer, seja nas emissoras brasileiras ou mesmo nas americanas.

Faz 9 anos. Mas nem parece.

Morreu Lourival Pacheco

Fiquei sabendo hoje. Ele tinha 75 anos.

Lourival foi locutor do Primeira Hora, da Rádio Bandeirantes, por 40 anos. Por um ano e meio dos meus 13 na casa, convivi diarimente com ele quando ancorei o jornal, ao lado de Julio César Arêdes e Walker Blaz, entre 1999 e 2000.

Era uma alegria diária. Cada vez que engasgava, por menor que fosse o erro, mandava lá o seu famoso e italianado “Maxxxx, porrrrra!”

Lourival era a personificação do Repórter Bandeirantes. Lia textos sérios com força, mas era imbatível nas crônicas. Nunca ouvi alguém melhor para dar molejo, graça e vida às palavras escritas.

Vozeirão potente, sempre tinha uma história boa pra contar. Rachava de rir quando lembrava de um comercial de uma rádio argentina, de um comprimido para combater prisão de ventre, que terminava dizendo “Pílula Tal (não lembro mais o nome): chiquitita. Pero… cumplidora!!!

No dia que estreei na TV, ele foi direto: “Tá bom, mas quando você muda de câmera fica meio Rodolfo Valentino”. Tratei de melhorar e controlar as sobrancelhas…

Remanescente do “Templo da Voz” – como era chamada a Bandeirantes da década de 60 – é protagonista da história talvez mais conhecida sobre o radiojornalismo. De tão marcante, ganhou versões fantasiosas – e, claro, mais trágicas e engraçadas que a original.

Reconto aqui, tal qual relatada por ele, numa das tantas vezes que alegremente conversávamos no estúdio.

Todo mundo sabia que era questão de dias para morrer o Papa João XXIII (já ouvi falarem de Pio XII, Leão XII…).

Adiantando o serviço, a redação gravou num disco de acetato o necrológio do Papa (se faz isso corriqueiramente, até hoje, nas rádios e TVs. O cavalheiro ou a madame dá pinta de que vai desta para a próxima e a turma já deixa tudo pronto).

Era só esperar pelo desenlace.

Num certo dia em que Lourival estava lá de plantão, toca o sininho do teletipo e sobe o texto: “ROMA (ANSA) – Morre Papa João XXIII”.

Correria habitual na redação. Simbora dar, simbora… entra a vinheta de notícia extradordinária e roda o acetato com a vida e obra do Sumo Pontífice.

Com o disco tocando no ar, eis que toca o sininho de novo… “tlim, tlim, tlim”… e sobe novo texto: ROMA (ANSA) – Infelizmente nota anterior equivocada. Papa João XXIII segue internado, e tal…”

A correira foi maior ainda. Arrancam aquele teletipo da máquina e atiram na mão do Lourival: “Corrige aí, corrige…” Ele segura a orelha (como todo locutor de rádio que se preze, pra ouvir a própria voz) e lê o começo do teletipo: “Infelizmente…. erg, hummm,… informamos que o Papa não morreu.”

Pronto, estava feita a lambança. Tem versão que diz que foi o locutor do estádio do Maracanã que fez isso. Mas não foi. Infelizmente… foi o Lourival mesmo.

Ele ficava emocionado toda vez que contava a história, como que precisasse se desculpar ou se explicar.

Não precisa não, Lourival. Você já estava na história do rádio antes disso acontecer, e os 40 anos que vieram depois deram ainda mais razões para você ter seu nome escrito nela com letras douradas.

Douradas como um presente que ele mesmo me deu.

Quando eu e Sandra casamos, em 1999, Lourival estava muito triste, porque a esposa dele havia acabado de falecer.

No dia em que voltei a trabalhar, ele me entregou uma caixa embrulhada em papel verde (ambos somos palmeirenses). Dentro estavam as taças de champanhe com bordas douradas, que ele ganhou no casamento dele, 50 anos antes.

Guardo – e uso – com todo carinho. O mesmo que senti dele quando me deu o presente.

Como também guardo com carinho, emocionado, a lembrança de ouví-lo todos os dias, extatamente às 7:59, quando ele encerrava o Primeira Hora com sua linda voz, sempre do mesmo jeito, sempre com o mesmo entusiasmo, com um firme e alegre (como ele sempre foi) “boooommmmm diiiia, Brasillllll”.

Maxxx, porrra! E viva o Palestra, Lorivas. Muita saudade de você.

Como é duro ser global

Global aqui é global mesmo. Planetário. Até porque o fato se deu na Record.

A reportagem é sobre a falta de educação no ambiente social. A repórter está numa escada rolante, mostrando que o filho de boa família abre espaço para quem tem pressa. Para fazer isso, o bem educado pára do lado direito, deixando a esquerda livre para quem precisa sair correndo…

Errado, fofa.

Isso vale para os países que usam a mesma mão de direção que o Brasil. Mas quem tem a chamada mão inglesa (ingleses, escoceses, japoneses, indianos, e um imenso número de africanos) parar do lado esquerdo é uma tremenda falta de touché – ui!

Como a amiga repórter fala num canal que é simultaneamente transmitido para o resto do mundo pela Record Internacional, deveria lembrar disso na hora de escrever o texto.

Mas nem culpo a repórter. A turma sequer leva em conta que o Brasil é grande na hora de fazer matéria, quanto mais que sua carinha está rodando o planeta. Pautas são elaboradas e produzidas por ou para paulistas, cariocas e mineiros – nesta ordem. Do resto o local cuida.

Lutei muito contra isso na redação da TV Brasil. Mas, se bobeasse, a moçada esquecia de, ao dizer um horário, completar informando tratar-se da hora de Brasília; usava gírias cariocas ou paulistas – mas pedia pra mudar o texto quando surgia uma expressão diferente nos textos aque vinham de Manaus ou Recife.

O motivo é comercial. É ali que está a bufunfa e só ali funciona o IBOPE minuto-a-minuto. Logo, é para eles que falamos. Também tem um pouco de desconhecimento. E até uma pitadinha de bairrismo.

Aprendi muito sobre esse troço com meu amigo Pedro Bassan. Na minha primeira copa, em 98, a Rádio Bandeirantes fez um acordo com uma rádio de Paris que só falava portugues (já falei disso no blog – relembre aqui . Apresentávamos programas que eram transmitidos simultaneamente no Brasil, na França, Portugal e até na Austrália e Canadá, numa cadeia bem interessante. Fora a Bandeirantes, todas as demais falavam para público lusitano.

Pois um dia Bassan cruza comigo no centro de imprensa e diz, que eu tinha atrapalhado bem aquele dia dele. “Mas por que”, perguntei. “Porque voce falou que hoje era dia do rodízio pros carros com placas tal e tal.”

“É, lá em São Paulo”, disse eu.

“Pois na próxima diga bem alto – e repita 50 vezes – que é só pra São Paulo. Porque meu motorista portugues não queria sair da garagem de jeito nenhum”.

Claro que era sarro. Mas serviu de alerta.

Quer dizer, espero que tenha sido só sarro mesmo…

José Maia, o mito

Mais uma historieta copística. Passada em 1998, em Paris. José Maia, o moço que veio de Jaú, é o personagem central.

Personagem mesmo, até porque o nome dele de verdade não é Maia. É José Maria Contatori. O “Maia” foi uma invenção de Sérgio Cunha, editor-chefe da Rádio Bandeirantes na época que ele chegou. Cunha, o primeiro dos vários chefes que tive na Bandeirantes, achava que “José Maria Contatori” era complicado pra falar na transmissão. Tirou o “r” do Maria e virou José Maia.

Pois bem. Alguns dias depois de chegar a Paris, nosso solerte narrador começa a reclamar de dor de garganta. Algo muito normal em copas, porque os caras narram um monte de jogos – mais de um por dia até – no geladíssimo ar condicionado do IBC – Internacional Broadcasting Center. Limão não resolveu, tal… o jeito foi procurar ajuda profissional.

Maia pega pelo braço o nosso chefe da técnica na época, Luis Anunciatto Neto, o Netão. E seguem ambos para a farmácia mais próxima. Nenhum dos dois exatamente dominava o idioma de Alberto Camus.

Olham pro balconista e tentam explicar o problema com sinais mímicos universais: “aaaaahhhhh! Aaaaahhhhh! Aqui ó!” Sem conseguir muito mais que uma cara de espanto, Maia vai lá atrás nas aulas de francês do externato de Jaú, aponta pra garganta e manda ver:

“Injechiôn, si vu plê! Injechiôn! Aqui ó! Aqui na gole! Na gole!”

Eu e os portugueses. Os portugueses e eu. Nós e a Copa

Eu com o microfone da TSF. Paulo Cintrão com o da Rádio Bandeirantes. Ao lado, nas carrapetas de Seul, João Bicev. Copa de 2002.

Minha primeira copa foi 1998, na França. Fiz um relato aqui, até, sobre como os portugueses estiveram ligados a essa experiência, via Radio Alfa de Paris (e eu não sabia direito quem era Carlos do Carmo. Leia aqui). Quem tomava conta lá era o Ricardo Botas. Além de diretor da estação, ele apresentava o programa “Xuta Brasil” (com ‘x’ mesmo) comigo.

Fizemos boa amizade. Ele era um tipo divertido, simpatizou comigo, e eu com ele. Vendo Ricardo trabalhar aprendi bastante sobre como não basta falar bom português pra se comunicar bem com todo mundo. Vale, claro, pro sotaque lusitano. Mas vale dentro do Brasil também, devido à vastidão do nosso país.

Segredo: durante a Copa, a convite do Ricardo, dava umas escapadas (seguindo minha escala na Bandeirnates, claro) pra comentar os jogos que eram transmitidos pela TV5 – a estatal francesa – para os países lusófonos da África. Jamais imaginava que um dia, iria morar aqui.

Uns anos depois, perdemos contato. Fiquei sabendo que ele mudara pra São Tomé e Príncipe, mas não o achei mais.

Pois chego aqui a Maputo e bato os olhos numa revista de economia. Li um pouco, gostei, fui ver quem dirigia. Tá lá: Ricardo Botas. “Não é possível…” Mas era. Liguei lá e confirmei ser ele mesmo. Isso foi logo na primeira semana aqui. De lá pra cá, almoçamos duas vezes por semana, quando ele me ensina muito de Moçambique, da África, do mundo. Afinal, quantas pessoas você conhece que já viveram em SETE países?

A seríssima expressão de Ricardo Botas no expediente da Revista Capital

Como ele veio parar aqui? A terceira mulher dele é moçambicana. Lá na França eu conheci aquela que viria a ser a segunda. Comigo já estava a Sandra. Depois de Paris, e daquela mulher, Botas já dirigiu rádio e TV para portugueses em Luxemburgo e Canadá, agência de publicidade em São Tomé. Largou o jornalismo por um tempo e foi dirigir uma fábrica de sabão no interior do Senegal! Voltou pro jornalismo ao aportar aqui, em Maputo, dois anos atrás. Dirige a revista Capital, de economia. Já escrevi artigo lá pra ele; qualquer hora publico aqui também.

Mas Botas não foi o único portugua que conheci em Paris. Outro que andava comigo dum lado pro outro era Paulo Cintrão, da rádio TSF. Portugal tava fora daquela copa e a rádio dele não tinha pago direitos – o que faz da vida de qualquer um O inferno num evento desses. Dei ao Paulo todo suporte que era possível: gravações de jogadores do Brasil, acesso ao centro de imprensa, até café, quando dava. Não queria nada em troca – mas ganhei a amizade dele.

E amizade sempre compensa. Fomos nos reencontrar em 2002 na Coréia, agora com Portugal em campo. Ele me levou como convidado para o jogo Portugal e Coréia do Sul, que desclassificou os patrícios. Fui no ônibus (autocarro, pá!) dos jornalistas portugueses. Uma festa tremenda, eles estavam certos da classificação.  Perderam por 1 a 0. O locutor da TSF, Fernando Correa, quase morreu no fim do jogo. “Portugal prrrdeu! está tudo acabado! Tudo a-ca-baaaa-do!” Acompanhei isso tudo da cabine, enxugando as lágrimas deles.

Naquele centro de imprensa enorme, ninguém podia fumar – claro. Mas ele e o nosso técnico João Bicev não se continham. Um virava pro outro e dizia: “vamos lá na Coréia do Norte?” Era a senha pra ir fumar lá na escada de incêndio, saindo escondido. Como se fosse cruzar a zona desmilitarizada pra entrar na Coréia do Norte…

Não dá pra esquecer do Paulo Cintrão. E pelo que acabei de descobrir, ele também não esqueceu do tio aqui. Ele conta algumas histórias nossas no blog que escreve. Dê uma olhada clicando aqui. Como eles dizem em Portugal, “valapena, pá”…

A Copa de 2002 e a novela coreana

A Copa de 2002 foi interessante pra quem, como eu, trabalhava em rádio. Jogos de madrugada na Coréia-Japão significavam manchetes de manhã, pelo horário do Brasil. A gente deitava e rolava. E sem correr tanto.

Também teve a história da Jovem Pan não transmitir, o que nos deixou (eu era da Rádio Bandeirantes) com a faca, o estilete, a espada… tudo na mão. Principalmente à medida que o queijo aumentava – e só aumentava, porque o Brasil foi bem mais longe que muita gente – a Pan entre eles, acredito – esperava.

Naquele ano, o Grupo Bandeirantes todo mandou só 4 pessoas pra Copa: o pai do gol José Silvério (ouça ele aqui, narrando a final – é de matar de emoção), o repórter Leandro Quesada, o técnico João Bicev e o seu amigo aqui. Comparando, esse ano deve levar, por baixo, umas 150, somando rádio, TV, TV a cabo, etc.

Mas estar lá não bastava. Era preciso mostrar que estava – já que nem todos foram. E mostrar pelo rádio é colocar som.

Pois bem. Na Copa de 94, o cabeção Milton Neves gravou um gol narrado por um colombiano – um único gol – e repetiu aquilo à exaustão. Era legal mesmo. Bom, se um gol fez todo aquele barulho, muitos gols fariam bem mais. E foi o que eu fiz.

Durante os jogos, ia à rádio ou TV das seleções que estavam jogando. Ouvia o jogo lá, ligado na Bandeirantes pelo microfone e escuta sem fio. quando saía gol, o Bicev gravava direto, separava o som e, minutos depois, eu entrava na transmissão e soltava o gol, por exemplo, da Turquia, narrado pela TV turca. Teve um pênalti que o Mendieta bateu e o locutor espanhol gritou gol exatas 85 vezes. Se alguém tiver a gravação… eu, claro, não tenho mais.

Mas só jogo não bastava, precisava encontrar algo que mostrasse que nós estávamos vivendo a vida da Coréia e do Japão. Que estávamos lá. Quebrando a cabeça com isso, abri o jornal (em inglês) e li um editorial metendo o pau numa novela na KBS, emissora pública coreana. Dizia que era um atentado à família, um absurdo, tal. Mas não relatava exatamente qual era o caso. Fiquei intrigado.

Chegando ao café, duas atendente discutiam em coreano. Em inglês, perguntei o motivo. “É a novela”, disse a mocinha. Pronto. Tinha alguém pra me explicar qual era o problema: a professora se apaixonou pelo aluno adolescente. E o romance dos dois era proibido. Aliás, esse era o título da novela: “Romance”, que ia ao ar, lá na Coréia, exatamente na hora em que entrávamos ao vivo no programa Esporte Notícia.

Foi assim que comecei a colocar no ar, no fim do Esporte Notícia, pílulas da novela “Romance”. Roberto Avallone apresentava o programa. Depois de uns dias, entrou na brincadeira: “e aí, Castro, o aluno já beijou a professora?” “Ainda não! Vamos ouvir o capítulo de hoje”. E eu falava 30 segundos sobre o capítulo, com o som da TV por baixo.

A novela teve final feliz. Pra mim, ao menos. Recebi um monte de mensagens de gente que curtiu a história e queria saber quando o mocinho iria beijar a professora. Foi no último capítulo (oh!!!!!), sábado, um dia antes da final Brasil e Alemanha.

E um segredo, que guardei pro fim – como todo bom autor de novela. O capítulo que eu descrevia era sempre o da véspera. Afinal, meu coreano não era “tão” fluente assim, pra pegar a história ali, ao vivo. Aliás, nem dos ouvintes, porque ninguém ligou reclamando que os diálogos que eu descrevia não tinham nada a ver com o que eles falavam em coreano. Tinham sido os do capítulo anterior, que as meninas do café me resumiam animadamente, logo que eu chegava ao centro de imprensa, pela manhã.

PS: lembra do Avalone na Rádio Bandeirantes? 2002, 2003, por aí. Na Copa, chamava o Quesada de “Espadachim de Sevilha”. Eduardo Affonso era o “Rei de Portugal”. E eu era o “Monstro de Seul”. Grande Ávalos.

Carlos do Carmo

Carlos do Carmo, numa foto que NÃO fui eu que tirou!

Carlos do Carmo é um dos maiores cantores do fado da história. Pra muita gente em Portugal, só fica atrás de Amália Rodrigues. Em 1976, ele cantou todas as músicas que concorreram no prestigiado Festival da Canção da RTP. Nunca mais ninguém fez isso. “Os Putos”, “Um Homem na Cidade”, “Canoas do Tejo”, “Lisboa Menina e Moça”, “Duas Lágrimas de Orvalho”, “Bairro Alto” são alguns dos sucessos dele em 47 anos de carreira.

Pois.

Em 1998 eu não sabia nada disso. Mas eu também era um “puto”, pá – tinha 23 anos. E estava na primeira Copa do Mundo, na França, quando cruzei com esse monstro sagrado… e mal percebi.

Foi assim: em 98 a Rádio Bandeirantes fechou um acordo com uma rádio francesa que só falava e cantava em português, a Rádio Alfa. Como Portugal não se classificou, os caras acharam que seria bacana ter a transmissão dos jogos do Brasil. Era bom pra ambos: a Rádio Alfa transmitiria a Copa em português sem gastar um puto (pá) e a Rádio Bandeirantes seria ouvida em Paris e faria um belo marketing (e fez).

Pois.

Também fazia parte do acordo que a Bandeirantes mandaria um de seus profissionais que estavam em Paris pra participar de um programa diário criado para ocasião – o “Xuta, Brasil” (assim mesmo, com “x”). Era às 10 da noite, depois de um dia todo de trabalho, lá do outro lado de Paris. Claro que o escalado era o mais novo – o “puto” aqui, pá. E lá ia eu, de carro, cruzando o Periférico todo, ou pela margem do Sena (variando o caminho porque era longe).

Mas eu curtia. O programa era divertido. Quem fazia comigo era o diretor da rádio, Ricardo Botas (que acabo de reencontrar aqui em Moçambique – caso para contar mais tarde), que punha os purtugas “na antena” conosco, passava rápido. Leandro Quesada, hoje primeiro repórter do esporte da Bandeirantes , foi comigo lá algumas vezes.

Pois.

Um mês e tanto de programa (foram 60 dias) chega a grande festa da rádio – a Festa dos Santos Populares (pra brasiléééiros, são as festas juninas). E a grande estrela seria… Carlos do Carmo. Carlos do Carmo vem, Carlos do Carmo vai, Carlos do Carmo, Carlos do Carmo… e eu sem saber direito quem era o sujeito (ah, se houvesse Google!).

Pois chega a festa. Chega Carlos do Carmo! O dono da rádio (um português riquíssimo, dono de uma pedreira e uma joalheira em Paris) me leva no camarim de Carlos do Carmo. Eu converso com ele. Mas não pego autógrafo, não saco o gravador do bolso, nem tiro foto. Não sabia que estava na frente de um mito.

Vim saber só de volta ao Brasil. Conversando com meu colega Agostinho Teixeira, filho de portugueses, comento “pois é, eu falei com Carlos do Carmo na festa…” E ele: “você falou com Carlos do Carmo? Você tocou no Carlos do Carmo? Meu Deus, que sensacional”!

Pois eu tinha estado com um monstro sagrado e nem aproveitei! Não curti. Não senti tudo isso que o Agostinho certamente teria sentido… a inguinorânça da mocidade é bruta mesmo.

Tudo isso porque acabo de ouvir na rádio RDP (Rádio Difusão Portuguesa) que Carlos do Carmo estará cantando para a comunidade lusa de África do Sul durante a Copa. Pois eu vou atrás dele de novo. Vou arrumar um jeito de entrar no camarim. E vou tirar uma foto com o homem, três copas e 12 anos depois… pois.

Como dizem por aqui, “valapena”…

Em 2000 tive minha primeira experiência como correspondente, trabalhando conjuntamente para a Rádio Bandeirantes e para a Voz da América em Washington, Estados Unidos. Agora estou aqui na África há quase um mês.

Meu amigo Junior (o famoso e popular Carlos Alberto Junior) fez o caminho inverso: começou aqui pela África, estacionando uma ano e meio em Angola, e agora desembarca nos EEUU, para fazer dobradinha comigo e com outros colegas que farão a EBC cada vez mais forte.

Você acompanha as andanças do Junior no Olhares Míopes. Antes, ele fazia (na época sem revelar seu nome, por razões bem particulares de Angola) o Diário da África. Olhe lá…

E além dos blogs do Junior, há uma listinha, sempre atualizada, com coleguinhas e amigos que também “valapena” ler. Estão aí ao lado, em “Dos Amigos”. Passe por lá.