Arquivo da tag: referendo no Sudão

Sudão: primeiros resultados do referendo

Pelo que vi e ouvi nos últimos seis meses, os resultados não surpreeendem.

A surpresa é o processo ter mesmo acontecido.

E, aos poucos, protestos também começam a aparecer por lá, na esteira da Tunísia-Egito.

A conferir.

Reportagem da Agência Brasil.

30/01/2011
Resultados oficiais confirmam que mais de 99% querem separação do Sudão

Eduardo Castro
Correspondente da EBC na África

Maputo (Moçambique) – Os primeiros resultados oficiais da consulta popular realizada no Sudão mostram que 99,57% dos eleitores votaram pela independência da parte sul. A escolha ocorreu entre os dias 9 e 15 de janeiro. Os números finais serão oficializados a partir de 6 de fevereiro. No total, 3,8 milhões de eleitores compareceram às seções eleitorais.

O Sudão do Sul (nome não oficial) deverá ser o 54º país africano a ser reconhecido pela comunidade internacional. A data marcada para a independência é 9 de julho. O país já tem até hino nacional e bandeira escolhida.

O anúncio dos primeiro resultados aconteceu em Juba, capital do futuro país, no túmulo de
John Garang, que liderou o Sul durante a guerra civil. Ele morreu em um acidente de avião logo depois da assinatura do acordo de paz, em 2005.

O Sul do Sudão vive de forma mais autônoma da capital Cartum desde o fim da guerra civil, em 2005. O conflito, que durou 23 anos, deixou mais de 1,5 milhão de mortos. A região, do tamanho do estado de Minas Gerais, é uma das mais pobres do mundo.

Como parte do acordo de paz, assinado entre o Norte (majoritariamente muçulmano) e o Sul (cristão ou seguidor de religiões locais), ficou acertado que uma consulta popular iria definir o futuro da parte sul. Somente sulistas puderam votar.

A solução desagradou boa parte dos líderes africanos, que temem que o exemplo tente ser seguido em outras áreas onde há conflitos étnicos, religiosos ou dificuldades econômicas. A medida quebra um princípio definido em 1963, quando da Organização dos Estados Africanos, que dizia que as fronteiras deixadas pelos colonizadores europeus iriam permanecer, por mais artificiais que fossem.

Em 1993, a Eritreia separou-se da Etiópia. Mas o país já existia antes, tendo sido anexado ao território etíope em 1962, logo depois da independência da Itália.

Além das divisões étnicas e religiosas, a riqueza do solo do Sul também é motivo de tensão. Boa parte das reservas de petróleo do Sudão estão lá. Mas as estrutura de refino e distribuição, bem como a saída para o mar, estão no Norte.

As fronteiras exatas do novo país ainda não foram definidas, bem como as regras de relacionamento e distribuição de bens com o Norte. A região de Abyei, rica em petróleo, exatamente na fronteira, é desejada pelos dois lados.

Nos últimos meses, o presidente Omar Al Bashir afirmou várias vezes que iria aceitar os resultados, mesmo que fossem pela separação, algo visto com ceticismo pelos analistas internacionais. O atraso no alistamento dos eleitores, finalizado apenas em dezembro, fez com que fossem grandes as dúvidas sobre a realização da consulta na data prevista – o que acabou ocorrendo.

Sudão do Sul na TV Brasil

Reportagem exibida no Repórter Brasil.
Clique aqui pra ver.

Aliás, vc já viu o episódio dos Simpsons em que o Kent Brokman (o sujeito aí ao lado, que uso para indicar as reportagens de TV) é demitido do Canal 6 e depois volta, coberto de glória?

Como dizem aqui, valapena ver. Coleguinhas de TV, principalmente…

Terminou o referendo no Sudão. A África terá 54 países

Se vai ser bom ou não, vamos ver lá adiante.
Talvez nem tão adiante assim.

Acompanhei o processo há algum tempo – que passa sempre por aqui sabe. Fazendo uma pequena busca no blog (clicando aqui vai direto), dá pra perceber que é algo bem completo.

Boa sorte aos envolvidos – nós todos, que vivemos na África.

17/01/2011
Resultado de consulta popular sobre divisão do Sudão deve ser homologado até 15 de fevereiro

Eduardo Castro
Correspondente da EBC na África

Maputo (Moçambique) – A consulta popular que pode decidir pela divisão do território do Sudão em dois países terminou no sábado (15). O resultado deve ser homologado, no máximo, em 15 de fevereiro. Até lá, haverá a apuração das cédulas de papel e um período para eventuais reclamações.

O processo de votação durou uma semana e foi aprovado por mais de mil observadores internacionais que acompanharam a votação. Ele era aguardado desde 2005, quando foi firmado o acordo de paz que pôs fim à guerra civil de 23 anos no país. Apesar dos elogios, a votação não foi totalmente pacífica: pelo menos 35 pessoas morreram em confrontos na região de fronteira.

Somente sudaneses nascidos no Sul podiam votar. A região é majoritariamente cristã, enquanto o Norte é muçulmano. Além disso, é lá que ficam as maiores reservas de petróleo do país.

Em várias ocasiões, o presidente Omar Al Bashir disse que o governo aceitará e seguirá qualquer que seja o resultado. A afirmação é vista com ceticismo por analistas internacionais.

Para o ex-presidente norte-americano Jimmy Carter, um dos observadores internacionais, é “altamente provável” que vença a proposta de independência do sul do país. Em entrevista em Cartum, capital sudanesa, ele disse esperar que os partidos do Sul e do Norte unam-se em conversações para “preparar as modificações na Constituição”.

Caso se confirme a vitória da proposta de separação, o novo país será criado em 9 de julho deste ano e nascerá como um dos mais pobres do mundo. Hoje em dia, mais da metade de seus quase 9 milhões de habitantes sobrevivem com menos de US$ 1 por dia de renda média. O índice de analfabetismo ultrapassa os 70%. O Sudão do Sul surgiria com o tamanho do estado de Minas Gerais e com capital na cidade de Juba.

Edição: Graça Adjuto

E como vai o referendo no Sudão?

Vai indo.

Já morreram 30 e tantos. Na “busca pela consolidação da paz”.

No Rio, a chuva matou três vezes mais gente.

Não dava pra prever? No Rio e no Sudão?

Não é fácil.

12/01/2011
Partido do Sul afirma que consulta sobre a divisão do Sudão já atingiu o mínimo de votos exigido

Eduardo Castro
Correspondente da EBC na África

Maputo (Moçambique) – A consulta popular sobre o futuro do Sudão já teria alcançado o número mínimo de eleitores exigido pela lei para ser validada: 60% dos 4 milhões de sudaneses inscritos. A informação é do Movimento de Liberação do Povo do Sudão (SPLM, na sigla em inglês), partido do Sul do país, que defende a separação com o Norte.

O dado, não oficial, foi obtido a partir das listas de presença de eleitores nos três primeiros dias de votação (de um total de sete). Somente quem nasceu no sul pode votar, de acordo com as regras da consulta. Na província onde fica a capital do país, Cartum, no Norte, a informação oficial é que metade dos inscritos já votou.

Representantes do Departamento de Estado norte-americano indicaram que o Sudão pode ser retirado da lista de Estados que patrocinam o terrorismo, se o Norte reconhecer os resultados do processo de consulta popular. Segundo a Voz da América, o embaixador Princeton Lyman disse estar “impressionado”com a “vontade do povo sudanês de tomar uma decisão tão difícil”.

A violência entre grupos rivais já matou 36 pessoas desde a semana passada. A consulta popular está prevista desde 2005, como parte do acordo de paz que pôs fim a mais de 20 anos de guerra civil entre o Sul de maioria cristã e o Norte majoritariamente muçulmano. Se a separação for aprovada, o Sudão do Sul se transformará no 54º país africano em 9 de julho deste ano.

Edição: Vinicius Doria

Sudão: mortes no referendo

Calmo na capital.
Tenso na fronteira.

Reportagem da Agência Brasil.

10/01/2011
Pelo menos 30 pessoas morrem na região de Abyei no Sudão

Eduardo Castro
Correspondente da EBC na África

Maputo (Moçambique) – Milhares de moradores do Sul do Sudão já votaram nos primeiros dos sete dias de consulta popular, que pode culminar na divisão do país em dois. Na área da futura fronteira, pelo menos 30 pessoas morreram na região de Abyei, rica em petróleo, segundo a BBC. Foram três dias de enfrentamentos, entre nômades árabes e integrantes de tribos sulistas. A Organização das Nações Unidas (ONU) também confirmou ter recebido relatos de violência.

Como o Sul tem altos níveis de analfabetismo, as cédulas de votação trazem dois desenhos, para serem assinalados pelo eleitor: uma mão simboliza a independência do sul; duas mãos dadas indicam preferência por manter o Sudão unificado.

As reiteradas declarações do presidente Omar Al Bashir de que irá aceitar e seguir o resultado, seja ele qual for, aumentou a expectativa de que o processo fosse pacífico. Mas caso o Sul efetivamente venha a separa-se, muito vai ter de se negociar antes da decisão ser completamente efetivada.

Um dos pontos mais complicados é a demarcação da fronteira.“Só sabemos o que é o Norte e o que é o Sul de forma geral”, diz Aly Jamal, doutor do Instituto Superior de Relações Internacionais de Moçambique, e especialista em conflitos africanos. “Mas uma diferença de 200, 300 metros pode ser motivo de discussão depois, percebendo que o poço de petróleo ou a mina de tantalita esteja para o outro lado”, explica.

A tantalita é um mineral composto de ferro, manganês, nióbio e tântalo, usado na indústria eletrônica, vidro e aço, cujas maiores jazidas estão nos estados brasileiros de Roraima e Amapá.

Confirmando-se a esperada separação do Sul, a região ficaria com a grande maioria das reservas de petróleo já descobertas no Sudão. Mas as estruturas de escoamento e refino, bem como a saída para o mar, ficam no Norte.

A ideia inicial era realizar, ao mesmo tempo, uma outra consulta popular simultaneamente, exclusiva sobre o futuro da região de Abyei, que fica exatamente na fronteira. Mas ela foi adiada, por causa tensão que a decisão vai causar.

Aly Jamal justifica sua preocupação citando o caso da Eritreia. O país foi o único surgido na África depois da criação da União dos Estados Africanos, em 1963 – que decidiu que, após o processo de independência, os países manteriam suas fronteiras, para evitar choques. “Em 1987, oito anos depois da separação, Eritreia e Etiópia envolveram-se em conflitos violentos por causa de uma porção de cadeia de montanhas, que alguém dizia que era importante sob o ponto de vista estratégico”, lembra. “Imagino o que pode acontecer onde há riquezas minerais comprovadas.”

Outros pontos que não foram esclarecidos antes do referendo é a cidadania dos moradores do Norte que atualmente vivem no Sul (e vice-versa), as regras de negócios entre os dois novos países e a divisão dos atuais ganhos com o petróleo.

Também é incerto o que vai acontecer no campo político no Norte. A única oposição atuante ao governo está no Sul do país. O partido no poder teria quase nenhuma resistência para impôr a lei islâmica, como já adiantou o presidente Omar Al Bashir. O Norte do Sudão tem maioria muçulmana, e o Sul é majoritariamente cristão.

Edição: Talita Cavalcante

Sudão: é sempre bom ouvir todos os lados

Os americanos querem muito a consulta popular. A ONU apóia. A “comunidade internacional’ se mobiliza. No Sudão – óbvio – tem os a favor e os contra.

Mas, e os africanos? O que pensam disso tudo?

Leiam na Agência Brasil. E aí embaixo.

09/01/2011
Sudaneses do sul começam a votar hoje sobre divisão do país

Eduardo Castro
Correspondente da EBC na África

Maputo (Moçambique) – Apontada pela comunidade internacional como um “marco para a consolidação da paz” no Sudão, a consulta popular que deve dividir o maior país da África inquieta estudiosos africanos consultados pela Agência Brasil.

De hoje (9) até 15 de janeiro, os sudaneses do sul votam na consulta popular prevista no acordo de paz que pôs fim à guerra civil, que durou mais de 20 anos no país. Quatro milhões dos 40 milhões de sudaneses irão dizer se querem ou não que a parte Sul torne-se uma nação independente. Os resultados serão homologados em fevereiro.

Para o ex-presidente norte-americano Jimmy Carter, um dos observadores internacionais, “o referendo é um passo crítico no sentido da implementação do acordo de paz”. Segundo ele, citado pelo Carter Center, a expectativa é de que “o processo ajude o povo do Sudão a trabalhar em um futuro pacífico, independentemente do resultado [da votação]”.

O centro presidido por Carter enviou mais de 100 observadores para acompanhar a consulta popular sudanesa. O ex-secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), o ganês Kofi Annan, também estará presente. “É importante que todos os líderes políticos honrem os compromissos para manter a paz no Sudão, como o previsto no acordo de paz”, afirmou.

Mas, entre os analistas africanos, a certeza não é tão grande. “Isto não é bom na história política de África”, afirma Aly Jamal, doutor em relações internacionais e especializado em conflitos africanos. “Isso pode ser um mal exemplo para alguns países onde as circunstâncias não são iguais, mas podem ser procuradas para justificar o uso do mesmo caminho”, disse. “Já temos o caso do Congo, a República Centro Africana… se um rastilho semelhante ocorre por aquelas bandas, vamos fazer referendo para autodeterminação?”, pergunta Aly Jamal.

Citado pelo jornal moçambicano O País, o investigador do Instituto de Ciências Políticas em Paris, o sudanês Roland Marchal, chama o processo no Sudão de “Berlim 2”, lembrando que foi na Conferência de Berlim, em 1885, que as potências europeias dividiram a África entre si, demarcando fronteiras sem levar em conta, em muitos casos, aspectos culturais, sociais e étnicos das comunidades atingidas.

Para a professora Iraê Baptista Lundin, do Instituto Superior de Relações Internacionais de Moçambique e que participou do grupo que negociou a paz para guerra civil do país (entre 1992 e 1994) trata-se da quebra de outro tratado, mais recente. “Em 1963, quando foi criada a Organização dos Estados Africanos, foi definido que as fronteiras iriam permanecer, para não criar mais problemas. Já quebramos esse tratado quando separou-se Eritreia da Etiópia (em 1993). Se acontecer a separação do Sudão será a segunda vez.”

Entretanto, lembra a professora, a Eritreia já havia existido como estado separado, o que não ocorre com o Sudão do Sul. Em 1962, logo depois da independência da Itália, a Eritreia foi anexada à Etiópia. Após uma guerra de mais de 30 anos, votou a favor da sua separação em 1993.

“O ideal teria sido discutir mais autonomia, instituir o federalismo”, defende Iraê Lundin. “Nigéria e África do Sul têm, hoje, estados federados. A história mostra que é possível encontrar outras saídas. Tenho receio de que [a possível divisão] vá exacerbar um conflito que, neste momento, está latente – e é um dos mais antigos de África.”

O professor Aly Jamal concorda. “A comunidade internacional ficou satisfeita com a simples ideia de ‘vamos fazer a paz. Vamos determinar o que que eles querem’… Mas não foi atrás daquilo que, objetivamente, tem a sido causa de todos os problemas”, afirma. “Se, pelo menos, o referendo ocorresse com uma delimitação bastante clara sobre o traçado de fronteira, traria mais tranquilidade. Mas isso ficou para depois”.

Os especialistas dizem, porém, que o temor não é de um conflito imediato. “O Sul não tem interesse em entrar numa guerra logo depois de formar-se como estado autônomo”, diz Aly Jamal. “Nem o Norte, certamente, quererá se envolver nisso”. O tempo até que a tesão renasça não depende só dos sudaneses. “Quem tem interesse no petróleo e nas outras riquezas que estão ali vai tem um importante papel na moderação”, diz Aly Jamal. “Com um país ou dois, elas vão continuar existindo”.

Edição: Aécio Amado

Olhar brasileiro sobre o Sudão II

Agora, pela lente da TV Brasil.

Clique aqui para ver a reportagem, exibida no Repórter Brasil.

Olhos brasileiros sobre o Sudão

Entrevista que fiz com o embaixador Antonio Pedro. Boa sorte pra eles: o embaixador e pro Sudão.

06/01/2011
Às vésperas de consulta popular, Sudão vive momento de expectativa e tranquilidade

Eduardo Castro
Correspondente da EBC na África

Maputo (Moçambique) – O Sudão aguarda com expectativa e tranquilidade
o início da consulta popular que pode dividir o território do país. De acordo com o embaixador brasileiro no país, Antonio Carlos do Nascimento Pedro, as ruas da capital Cartum não indicam que uma tão temida revolta popular possa acontecer nos próximos dias.

“As instituições estão funcionando. Não há movimento na rua que denuncie ou prenuncie violência ou instabilidade política”, afirma o diplomata brasileiro. “Não há nada que, concretamente, indique uma situação de insegurança. Há, sim, uma ansiedade natural pelo processo.”

A consulta popular, marcada para 9 de janeiro, é aguardada desde 2005, quando foi assinado o acordo de paz que pôs fim à guerra civil que tomava conta do país havia 23 anos e deixou mais de 1,5 milhão de mortos. De um lado estava o Norte, de população muçulmana, onde fica a capital Cartum; do outro, o Sul, majoritariamente cristão, liderado a partir da cidade de Juba. Além da religião, o petróleo fazia com que o Sul lutasse pela independência.

Analistas internacionais indicavam que – caso o governo central resistisse à realização do processo ou colocasse em dúvida a implementação dele, no caso de vitória da separação – os conflitos não tardariam a voltar.

A tensão atingiu pontos altos durante as negociações que definiram as regras do recenseamento eleitoral e a tentativa – deixada para mais adiante – de delimitação clara das fronteiras das duas regiões. Houve movimento e instalação de tropas dos dois lados. Mas, de acordo com o embaixador Antonio Pedro, o quadro é outro na capital do país.

“Não vejo nenhuma situação de conturbação social ou qualquer excepcionalidade”, afirma ele. “Vejo, sim, um país caminhando para uma consulta popular ampla e de extrema relevância”, diz o diplomata, que está no Sudão desde julho de 2009.

Dos cerca de 40 milhões de sudaneses, 4 milhões registraram-se para votar. São sulistas que vivem em todo o país e também em algumas cidades do exterior. O processo dura uma semana. Para ser válida, a decisão precisa ser tomada por 60% dos eleitores inscritos.

Terminada a apuração, no dia 15, começa a verificação dos votos em cédulas de papel. Contando com o prazo para recursos e homologação, os resultados oficiais devem ser divulgados apenas em meados do mês que vem. Mas deve ser de conhecimento público, extraoficialmente, bem antes disso.

Apesar da tensão natural, o embaixador brasileiro em Cartum acredita que, caso haja mesmo a separação, os dois lados precisam rapidamente definir bases pacíficas para a convivência. E o mesmo petróleo – que chegou a ser motivo de conflito – será também fator para esse equilíbrio.

“Grande parte das reservas [do petróleo já descoberto] está no território que seria do país do Sul”, lembra Antonio Pedro. “Mas a estrutura de refino e escoamento está instalada no que seria um futuro país do Norte. Poderia ser desenvolvido algo parecido no país do Sul? Sim, mas leva tempo. Até lá, eles precisam achar a melhor forma de conviver.”

O Brasil abriu uma embaixada no Sudão em 2006. Ela apoia o comércio entre os dois países – que é pequeno, mas crescente – bem como projetos de cooperação técnica, além da implementação de ações de empresas brasileiras, especialmente no campo da agricultura.

Edição: Talita Cavalcante

Em Cabo Verde, assinando de Lisboa, falando da Costa do Marfim e Sudão

É dura a vida do repórter. Mas, às vezes, cabe um docinho… em Lisboa.

Foi assim domingo à tarde, esperando dar 22h para embarcar para Cabo Verde. Foi o jeito: pegar o metrô e ir ao Rossio para um café – e um pastel de nata, pá -na Pastelaria Suíça.

Foi lá que abri o romance “Anjo Branco”, do âncora da RTP, José Rodrigues dos Santos, que trata de Moçambique (onde ele nasceu, aliás). Para minha surpresa, uma das primeiras passagens se dá, justamente, na Pastelaria Suíça, onde eu estava. Mais tarde, tive a satisfação de conhecer a RTP, tendo o próprio como guia.

Lá na Pastelaria mesmo, vendo a chuva cair, juntei algums entrevistas feitas antes de sair de Maputo e mandei a matéria que repito abaixo. Por isso ela é assinada de Lisboa, mas não fala rigorosamente nada sobre Portugal.

Coisas do jornalismo. E da vida de repórter.

Aqui em Cabo Verde estou ministrando um curso sobre cobertura eleitoral. Com o atraso no vôo, a correria tem sido grande. Só agora consigo teclar, aqui da redação da TV caboverdiana. Daqui a pouco – como em Moçambique – começa a indefectível Caminho das Índias…


06/12/2010
Medo da guerra civil leva marfinenses a fugir do país a pé

Eduardo Castro
Correspondente da EBC na África

Lisboa – O medo de viver de novo os horrores de uma guerra civil fez pelo menos 300 marfinenses fugirem do país no fim de semana. Eles saíram da Costa do Marfim a pé, em direção à Libéria, apesar de as fronteiras estarem oficialmente fechadas. Segundo a Agência Lusa, o toque de recolher obrigatório, instaurado antes das eleições presidenciais de 28 de novembro, que devia acabar hoje (6), foi prorrogado até a próxima segunda-feira (13), por decreto de Laurent Gbagbo, que está no poder há dez anos.

Gbagbo e o ex-primeiro ministro Alessene Ouattara, que disputaram o segundo turno presidencial, afirmam ter assumido o governo no sábado (4). Quinta-feira (2), a Comissão Eleitoral declarou Ouattara vencedor, mas, no dia seguinte, a Corte Constitucional reverteu a decisão, sob alegação de fraude, e oficializou a reeleição de Gbagbo.

“A Costa do Marfim é um barril de pólvora – e não é de agora, depois da eleição”, diz o professor Antonio Gaspar, do Instituto Superior de Relações Internacionais de Moçambique. “Ali a questão étnica pesa muito.”

Ele não se espanta com a “dificuldade” de Gbagbo em entregar o cargo. “Não são muitas as vezes em que, nos países africanos, a vitória da oposição é encarada com normalidade.” Ainda que, lembra Gaspar, no caso específico da Costa do Marfim, haja chance de a troca de poder gerar uma perseguição, por causa da recente guerra civil. O desfecho “depende também da pressão internacional”, acredita.

A pedido da União Africana, o ex-presidente da África do Sul Tabo Mbeki está em Abidjan, capital marfinense, para tentar mediar a situação. No gera, a comunidade internacional pede a Gbagbo que reconheça a derrota. Oficialmente, o mandato dele terminou em 2005. As eleições foram adiadas cinco vezes, por causa da instabilidade surgida com a tentativa de golpe de Estado de 2002 e a subsequente guerra civil, que durou dois anos.

O peso da pressão internacional, diz Gaspar, também será decisivo para o Sudão, que passará por uma consulta popular em janeiro, que pode culminar na divisão do território do país. A votação está marcada para o dia 9, mas já se fala na possibilidade de adiamento. “O Norte precisa pesar muito suas decisões. Se perder, vai colocar na balança qual seria o prejuízo maior: perder o controle da parte sul ou isolar-se da comunidade internacional.”

A consulta está prevista desde 2005, no acordo de paz que pôs fim à guerra civil de 23 anos entre o Sul, separatista, e o Norte, que governa o país. Além do petróleo que há na Região Sul, a rivalidade étnica também é um componente na disputa. A volta à guerra civil não é possibilidade afastada, “muito embora haja uma distância entre o desentendimento e a guerra, propriamente”, afirma Gaspar.

Segundo ele, é de interesse dos africanos que, no Sudão, haja uma solução em ambiente de paz – mesmo com possibilidade de abrir um precedente divisionista e outros países terem de passar pelo mesmo processo.

Para o pesquisador sul-africano Greg Mills, consultor para temas internacionais de vários governos do continente, a situação vivida na Costa do Marfim, e possível de ocorrer no Sudão, não poder ser tomada como regra. “Em 1980, havia apenas duas democracias na África. Hoje, são mais de 40 nações com eleições regulares e multipartidárias”, diz ele. “Não devemos deixar que os problemas da Costa do Marfim, do Sudão do Norte ou Sudão do Sul se imponham sobre a imagem da África como um todo. Há muitos países tendo enormes progressos.”

“Obviamente, a democracia tem um grande papel na maior responsabilidade dos governos, que são melhor conectados com suas populações”, afirma Mills. “E, invariavelmente, há dificuldade no crescimento dos países que passam de autocracias para democracias.”

Atualmente à frente da Brenthurst Foundation, baseada em Joanesburgo, Greg Mills foi diretor nacional do Instituto Sul-Africano de Relações Internacionais entre 1996 e 2005. Seu livro mais recente chama-se Por Que a África é Pobre. “Basicamente, o livro defende que a África é rica, mas que más decisões ao longo da história impedem o continente de entender essa riqueza”, diz. “E, nos últimos dez, 20 anos, há uma diversidade cada vez maior entre países africanos.”

De acordo com Mills, é importante para o continente que a comunidade internacional não considere a África monolítica. “Isso não é verdade, como não é na América Latina ou na Ásia.” Ele lembra que, logo depois do fim do colonialismo, a ideia de uma “África Única” fortaleceu-se, inclusive entre as lideranças locais. “Ainda que haja unidade política de alguma forma, no campo econômico, há uma crescente diferença entre os países africanos.”