Na RD Congo, estupro é arma de guerra

 

E a ONU anuncia a prisão de um suspeito de estar envolvido nos casos de violência contra cinco mil mulheres e crianças.

Pra fugir, mulheres – e homens e crianças – vagam pela África, pelos campos de refugiados.

Conhecer um é ir a outro mundo, dentro do nosso.

Veja como eles são aqui, na reportagem da TV Brasil.

Pra saber mais, leia os textos que escrevi sobre o assunto clicando aqui.

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No Congo, a dura volta para casa

Duas reportagens publicadas em conjunto, na Agência Brasil.

Aproveitei os dados mais recentes para contar detalhes da visita que fiz ao campo de refugiados de Gihembe, durante minha viagem a Ruanda (veja o post que escrevi na época clicando aqui).

Por esses dias vamos editar um especial para a TV Brasil. Será um programa Caminhos da Reportagem que falará de Ruanda como um todo. Se der tudo certo na edição (que dá um trabalho miserável – aqui e no Brasil), ele será exibido em novembro.

Estevão de Abreu faz imagens para a TV Brasil. As crianças observam tudo bem de perto.

22/09/2010
Aos poucos, refugiados da guerra civil do Congo voltam para casa

Eduardo Castro
Correspondente da EBC para a África

Maputo (Moçambique) – Mais de 210 mil refugiados congoleses conseguiram retornar ao país natal desde 2004, segundo levantamento mais recente do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, fechado em agosto. E o número será maior no fim de setembro. Só na semana passada, mais de 4 mil refugiados deixaram a cidade de Zemio, na República Centro-Africana, e voltaram ao Congo.

Outro movimento parecido foi registrado na região congolesa de Katanga, para onde regressaram, até o dia 18, 846 pessoas provenientes de Zâmbia, de acordo com boletim do Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da Organização das Nações Unidas (ONU) no país.

Por outro lado, mais de 1,1 mil pessoas fugiram de suas casas na mesma área, depois de três ataques do Exército congolês a grupos rebeldes. E o retorno de moradores do território de Beni foi suspenso por causa de operações militares contra guerrilheiros ugandenses.

Idas e vindas são comuns na região central da África, onde campos de refugiados surgem e desaparecem de acordo com a intensidade das batalhas. Por causa da guerra civil – responsável pela morte de cerca de 5 milhões de pessoas em 15 anos – a estimativa é de que 1,5 milhão de congoleses vivam espalhados em campos de refugiados montados nos países vizinhos, como Uganda, Ruanda, Angola, Burundi, Tanzânia e Moçambique.

A República Democrática do Congo tem 62 milhões de habitantes e ocupa o sexto lugar entre os piores índices de desenvolvimento humano (IDH) do mundo, segundo a ONU, mesmo sendo rica em diamantes, ouro, petróleo e outros recursos minerais. Uma sucessão de conflitos motivados por interesses políticos, étnicos e econômicos convulsiona o país, que chamava-se Zaire até 1997. Uma missão de paz da ONU (identificada pela sigla Monusco) atua no Congo desde 1999 para acompanhar acordos de cessar-fogo entre grupos rivais, nunca integralmente cumprido.

No começo do mês, o Exército congolês reforçou a atuação em Walikale, depois da denúncia que grupos rebeldes passaram a estuprar mulheres e crianças na região. Para enfraquecer os guerrilheiros, o governo decidiu fechar minas nas áreas do Kivu Norte, Kivu Sul e Maniema. Observadores internacionais acreditam que, apesar de melhorar a segurança na região, a medida pode gerar ainda mais miséria, pois o garimpo é praticamente a única atividade econômica que oferece oportunidade de trabalho para milhares de congoleses.

Em Ruanda, refugiados congoleses estão seguros, mas querem voltar para casa

Eduardo Castro
Correspondente da EBC para a África

Maputo (Moçambique) – A Agência Brasil visitou Gihembi, em agosto, um dos campos de refugiados que recebem congoleses em Ruanda. Localizado a 50 quilômetros (km) da fronteira com a Uganda e a 200 km do Congo, Gihembi foi criado em 1996 como solução temporária para receber congoleses que fugiam da guerra civil. Transformou-se em uma cidade de 20 mil habitantes, na maioria membros das etnias banyamulenge e banyamasisi, ligadas aos tutsi ruandeses.

Nos 60 km que separam o campo de refugiados da capital ruandesa Kigali é possível ver plantações de banana e arroz. A estrada é estreita e sinuosa, mas inteiramente asfaltada e sem buracos. Depois de uma hora e meia de viagem surgem casas de taipa enfileiradas nas encostas da colina mais alta da região. Na entrada de Gihembi não há cancelas ou portões. Uma corrente separa o campo da pequena cidade de Byumba. Os refugiados podem circular apenas pela vila. Para ir mais adiante, precisam de autorização do serviço de imigração ruandês. Para facilitar as idas e vindas, cartões de identificação devem ser distribuídos.

O campo também tem uma escola primária – que atende a 4 mil alunos – feita de paredes de barro e telhado de zinco coberto de poeira marrom. Assim também são todas as casas, erguidas pelos próprios moradores. Muito plástico, pedaços de zinco e tábuas dominam o cenário geral. O chão é de terra batida. Há torneiras pelo campo, onde os moradores buscam água em baldes e garrafões. As construções são mais sólidas do que as barracas de lona vistas em outros campos de refugiados da África Central.

Em uma área fechada por cercas de caniço há salas de consulta médica e atendimento psicológico, onde um médico e cinco enfermeiras recebem os doentes. Casos graves são encaminhados à cidade. Também está instalada uma farmácia, que distribui os medicamentos receitados, inclusive para aids, muito comum em toda a região. Só no campo de refugiados, 248 pessoas estão em tratamento contra a aids.

Anemia a carência nutricional em adultos são casos comuns. Ao lado dos consultórios, uma cozinha com fogões de lenha reforça a alimentação de 148 crianças desnutridas. Lactantes (300) e mulheres grávidas (86) também recebem complemento alimentar. Cada refugiado tem direito a 2.200 calorias por dia. Arroz, milho, feijão e óleo são distribuídos uma vez por mês.

No dia que a equipe da EBC visitou o campo de refugiados de Gihembi, em agosto, era dia de distribuição do suprimento de lenha, que deve durar dois meses. A distribuição é feita em uma praça central, onde também estão montadas bancas de frutas e verduras. A movimentação é intensa. Centenas de mulheres e crianças subiam as ruas de terra com toras de madeira equilibradas na cabeça.

As mulheres, maioria visível em Gihembi, vestem panos coloridos amarrados na cintura e na cabeça. Fogem da câmera, assim como os homens mais velhos. Alguns vestem roupas com marcas conhecidas – piratas ou verdadeiras, vindas de doações distribuídas por toda África.

Já as crianças mostram-se curiosas com os visitantes. Sorridentes, fazem poses para a câmera e puxam o repórter pelo braço. Gritam “muzungu, muzungu” (“branco, branco” em kinyarwanda, língua predominante na região) e acompanham de perto o trabalho do cinegrafista da TV Brasil. A maioria fala ou, ao menos, entende francês. E na escola ensina-se inglês. São muitos cumprimentos de “good morning, muzungu (bom dia, branco)”.

Elas correm pelas ladeiras de terra, jogam basquete em uma quadra perto da entrada do campo. Também gostam de futebol. Adolescentes mais arredios aproximam-se ao ver a bandeira verde-amarela no colete da TV Brasil. E tentam se comunicar enfileirando nomes de jogadores brasileiros – alguns com sobrenome: “Kaká, Robinho, Ramires, Ronaldo Nazário de Lima”.

Como a vila vizinha é pequena, poucas são as oportunidades de emprego – tanto para ruandeses quanto para refugiados. Por isso, poucos congoleses vão à cidade. Além das barracas de frutas e verduras, pequenos comércios vendem refrigerante e crédito para telefone celular pré-pago, além de algumas poucas conveniências.

Alguns refugiados conseguem dinheiro (pouco) fazendo melhorias nas casas dos vizinhos. As enfermeiras também são moradoras e recebem uma pequena contribuição pelo trabalho, bem como os professores. Segundo os moradores, há gente com diploma que vive ali, sem perspectiva, esperando há anos para poder voltar para casa. O máximo que consegue é dar aulas na escola primária.

“Aqui estamos totalmente seguros”, diz Gerard Damascene Toma, um dos indicados pelos representares do governo de Ruanda e das Nações Unidas para falar com a Agência Brasil. “Fomos expulsos de nossa terra pela guerra. Espero pelo acordo de paz para retornar e ver o que sobrou”, afirma ele, que vive desde dezembro de 1998 em Gihembe. “Não é bom, mas é melhor que lá”.

Jean Paul está no campo desde 1997, quando conseguiu escapar da República Democrática do Congo. No campo de refugiados, se sente em segurança. Mas não pensa em ficar. “Não podemos estar satisfeitos. Recebemos comida e abrigo, mas queremos voltar para nossos lugares.”

Edição: Vinicius Doria

Ruanda: a lenta reconciliação pós-genocídio

Já de volta a Maputo, preparando as próximas reportagens.

Um dos temas será minas – aquelas que explodem. Não confundir com o estado nem com as mina dos mano.

Por ora, um pouco mais do que fiz em Ruanda. Abaixo, matéria pubicada na Agência Brasil.

14/08/2010
Ruanda, a lenta reconciliação de um país dividido pelo genocídio

Eduardo Castro
Correspondente da EBC para a África

Kigali (Ruanda) – Hutus e tutsis ainda estão aprendendo a conviver sem medo em Ruanda. Alguns passos já foram dados desde o genocídio que matou 800 mil pessoas há 16 anos. Porém, o processo é lento e uma integração plena só virá – se vier – ao longo de muitas gerações. A opinião é do pesquisador suíço Roland Junod, da Escola de Altos Estudos de Assistência Social de Genebra.

“É preciso dar um passo de cada vez”, diz Roland. Um dos primeiros, segundo ele, é reconhecer que uma etnia não vai conseguir exterminar a outra. Outro é saber que, se algo do tipo voltar a acontecer, os culpados serão punidos”. Mais de 100 mil acusados já passaram pelos tribunais populares, mas inúmeros processos prosseguem.

As etnias Hutu e Tutsi conviveram integrados por séculos em Ruanda. Não há confirmação fatual sobre qual das duas chegou antes ou de onde vieram exatamente. Casavam entre si, tinham as mesmas língua (o kinyarwanda) e religião (adoravam o seu rei como deus).

Os tutsis, na maioria, eram pastores. Os hutus trabalhavam no campo. Fisicamente, os tutsis costumam ser mais altos e longilíneos. Os hutus têm o rosto mais redondo e são mais baixos. Com a miscigenação, resultante dos casamentos entre membros das duas etnias, ficou mais difícil identificar apenas pelos aspectos físicos quem pertence a cada um dos grupos

Com um rei tutsi, a etnia chegou à administração do país, mesmo sendo minoria. O grupo acumulou poder e riqueza. Em meados do século 19, os chamados “estudos raciais” tinham grande repercussão na Europa e as pesquisas do inglês Jonh Hanning Speke defendiam que africanos de pele mais clara e mais altos – descendentes de abissínios e, segundo a Bíblia, da linhagem rei Davi –
tinham mais capacidade intelectual. Em Ruanda, esse estereótipo pertencia aos tutsis.

Quando os europeus chegaram a Ruanda, no final do século 19 (inicialmente alemãs), encontram os tutsi no poder e se aliaram a eles, seguindo a lógica científica da época. Em 1934, os belgas, que receberam a colônia na redivisão ocorrida após a 1ª Guerra Mundial, exigiram que a etnia constasse dos documentos de identidade. O fosso entre hutus e tutsis só aumentou, provocando o ódio que resultou em um genocídio 60 anos depois.

Em 1994, hutus descontentes mataram o presidente Juvenal Habyarimana, embora ele pertence à etnia, por assinar um acordo com os opositores tutsis. O vácuo de poder foi ocupado pelo caos. Em pouco mais de três meses, cerca de 800 mil pessoas, a maioria tutsis – mas também hutus moderados – foram mortos por extremistas hutus e pelo Exército. Em julho, a Frente Patriótica Ruandesa (RPF), liderada pelo hoje presidente Paul Kagame, conseguiu dominar a situação. Os conflitos internos levaram 2 milhões de hutus a exilar em países vizinhos, como o Burundi, a Tanzânia e o Zaire (hoje República Democrática do Congo).

O suíço Roland Junod já esteve dez vezes em Ruanda desde o genocídio. Para ele, o país se convenceu sobre a necessidade de um pacto pela convivência. “Reconciliação é uma decisão política.” Mas não se deve esperar, assinala, por um “heroísmo ético” das vítimas, perdoando seus algozes. “Como perdoar quando você perdeu sua família e suas crianças foram violentadas?”

O discurso do governo passou a ser o da “unidade nacional”. O que é considerado ameaça é respondido severamente. Nas eleições presidenciais do último dia 9, dois dos possíveis adversários do presidente Paul Kagame não conseguiram registrar suas candidaturas, sob a alegação de “pregarem a ideologia que levou ao genocídio”. Isso foi interpretado por grupos de direitos humanos como uma tentativa de calar a oposição.

Janvier Ndahayo, 35 anos, é taxista em Kigali. A mulher dele, Uwicyeza Frola, 32, está no primeiro ano da faculdade de administração. Ambos votaram pela reeleição de Kagame por causa da economia, das oportunidades criadas para as mulheres e da segurança. “O governo diz que não há mais etnias. É coisa do passado. Concordo. Está melhor agora”, comenta Janvier. Ao ser pergunta se é da mesma etnia do taxista, Uwicyeza olha para ele, sorri e repete: “Hoje em dia não há mais etnias”.

Uwicyeza é filha de uma mulher tutsi e um homem hutu. Na época do genocídio, fugiu para o interior por dois meses. Janvier era militar em 1994. Ambos evitam falar sobre o genocídio. “Não se lembra de nada”, diz Janvier. “Só sei que perdi mais de 50 parentes em poucos dias.” O assunto genocídio nunca foi tocado nas conversas do casal, que não se conhecia em 1994, ou com os filhos, de 4 e 7 anos. “Não penso nem falo disso. Quando passa na televisão, desligo”, afirma Uwicyeza. “As crianças não precisam saber sobre como foram aqueles dias em muita gente morreu.”

De acordo com Roland Junod, é comum os ruandeses não quererem falar do passado. “Tenho duas alunas muito amigas, uma hutu, outra tutsi. Até dividem um quarto. Ajudam-se em tudo. Mas nunca, de jeito nenhum, falam sobre o que aconteceu. Isso mostra que já possível a boa e segura convivência, mas não vai além disso.”

Edição: João Carlos Rodrigues

O atentado na TV Brasil

Última reportagem que foi ao ar de Kigali – um dia depois do atentado com a granada.

Isso foi quinta. Ontem, sexta, foi confirmada a segunda morte. Algumas agências deram 6 mortos – e tiveram que “ressuscitar” os mortos mais tarde.

Veja clicando aqui.

Gravei mais depois disso, para um especial que farei sobre Ruanda no programa Caminhos da Reportagem – como expliquei em alguns posts anteriores.

Vai demorar um pouquinho ainda, porque o trabalho de edição é bruto.

Mas, só pra dar vontade de saber mais, logo devem entrar algumas outras matérias na Agência Brasil. Claro, vou reproduzir aqui também.

Eu e os carimbos

Não foi a primeira vez que precisei esperar por um carimbo para fazer reportagens aqui na África (clique aqui veja aqui minhas outras lutas contra os burocratas), mas foi a primeira vez que precisei esperar pelo carimbo chegar ao prédio em que eu estava.

Para entrar no campo de refugiados, é necessária a autorização do ONU e do governo de Ruanda, que tem um ministério que só cuida disso: o Minister for Refugees and Disaster Preparedness.

Como mandam as tradições, lá fui eu com minha cartinha, timbrada e assinada (tudo por mim mesmo), pedindo pra entrar no campo. Antes liguei lá: “alô, sr. Fulunorumukobwa, bom dia. É isso, isso e isso”. “OK, não há problema. Venha aqui que eu assino”, diz o sr. Fulanorumukobwa (os sobre nomes aqui são sempre longos assim). “Mas diga ao taxista que estamos novo endereço, prédio tal”.

Depois de alguma procura pelo novo enfereço, chego lá. Não tinha sequer o nome do ministério na porta. Ele tinha mudado de prédio… ontem.

Achar o andar já foi meio duro. Subi. Em meio às caixas, pastas e funcionários instalando telefones, o sr. Fulanorumukobwa me atendeu rapidamente, com um sorriso, perguntando do Brasil (e sempre do futebol), tal. Em cinco minutos o papel estava assinado.

Mas faltava o carimbo. Que ainda não tinha chegado no prédio novo.

Carimbo é uma coisa tão importante que a secretária do sr. Fulanorumukobwa tinha levado a uma caixa com eles para casa dela, para que nada se perdesse durante a mudança. E ela só viria de tarde.

“Olha”, disse o sr. Fulanorumukobwa. Se você quiser, pode ir sem o carimbo, só com minha assinatura. Mas acho melhor esperar. Mando alguém buscar.”

Então eu esperei. Uma, duas horas. Até que o motorista chegou com o carimbo.

Foi ele entrar na sala e o sr. Fulanorumukobwa carimbar uma, duas, três, quatro vias: uma pra ele, outra pra mim, uma pra ONU e outra pro gente do campo. E pronto, eu podia seguir viagem.

Com a autorização do ministério. E com um belo de um carimbo.

Muzungu verde-amarelo

Campo de refugiados de Gihembe, fronteira entre Ruanda e Uganda. Vivem ali cerca de 20 mil pessoas, todos congoleses que fogem da guerrilha. Perto de outros campos do gênero, com barracas de lona e pedaços de zinco, é bem montado: tem escolas e casas de taipa, distribuição regular de comida. Mas é um campo de refugiados. Não é um camping.

Não há luz regular ou água encanada. Hoje, quando visitei o lugar, era um dia muito esperado: o da distribuição de lenha. Muitas senhoras e crianças carregando na cabeça, pedaço por pedaço, o combustível que vai aquecer a casa e a comida pelos próximos dois meses.

Você vai conhecer o campo muito em breve, no Caminhos da Reportagem, da TV Brasil.

Por enquanto, só pra dar vontade de ver, mais um detalhezinho: “muzungu”, em kinyarwarda, quer dizer “branco”, homem branco (no sul de Moçambique é “mulungu”). E a garotada neste campo está aprendendo inglês. Daí eu ter ouvido tanto “godo morning, muzungu”, ao longo de toda a tarde.

Outra coisa que é bem marcante é o sorriso das crianças – mesmo sem ter a mínima idéia do que seja um Playstation. Sorriem só por você estar lá. Tocam em você. Cantam pra você. Eu não estava vestido de Papai Noel. Nem dei dinheiro a ninguém.

Meu antecessor cá em África, Carlos Alberto Junior, escreveu sobre isso lindamente uma vez. Recomendo dar uma olhada, clicando aqui.

Mas algo que o muzungu trazia colado no colete o tornava ainda mais interessante: a bandeira do Brasil.

Daí os jovens também se interessavam em falar comigo. Num papo que juntava inglês e português do muzungu, francês e kinyarwarda deles. E, claro, a língua comum: o futebol.

Vai estar tudo na reportagem – vocês vão ver.

Fim do primeiro ato.

Segundo ato: sala do representante do Banco Africano de Desenvolvimento em Kigali.

Jacob Diko Makete é da República dos Camarões, PhD em nãoseioqueconomics pela London School of Economics, formado em Cambridge, príncipe de um clã (ele não falou; descobri na internet) e admirador queixocaidístico da melhoria econômica brasileira dos últimos anos, da independência da política interna e da atenção que o país dá, agora, para a África.

E ele nem ensaiou discurso ou estudo pra me impressionar – cheguei sem avisar. “Quero falar com alguém aí no Banco”, disse pro guarda. “D’accord”, respondeu ele, deixando claro que não tinha entendido nada. Abriu o portão e eu subi. Por acaso – era feriado – o chefe estava. Ficou fascinado com a TV Brasil estar aqui em Ruanda, e, especial, ali, na sala dele.

Falamos por quase uma hora (ele não quis gravar, veja bem! Estou insistindo ainda). No meio do papo, me veio à cabeça uma conversa que tive com o ministro Ney Bittencourt, da embaixada brasileira em Maputo, logo que cheguei. Ele foi o primeiro representante brasileiro em uma reunião da União Africana. E contou que, além de alegria e certo espanto em vê-lo ali, os representares dos outros países olhavam pra ele com aquela cara de “que bom que você finalmente veio.”

É assim que tenho me sentido inúmeras vezes no exterior – e em especial aqui na África – só pelo fato de ter nascido em algum lugar entre os pampas e os seringais. Uma mistura de surpresa com carinho, admiração com inveja boa.

Nunca fui de arrotar patriotismo ou sair elogiando o gingado, o tempero, a malemolência e o veneno da brasilidade. Até porque é o jactar-se disso que nos fez – até agora – muito reconhecidos pelo rebolar de nossos quadris e a qualidade da nossa depilação íntima (chamado, em vários países, de “brazilian wax”).

Não é mais só o futebol que nos faz objeto de admiração aqui fora.

Está mudando. E eu tô curtindo.

Atentado em Kigali

Na Agência Brasil. E, logo depois, por telefone, no Repórter Brasil.

19:54
11/08/2010
Granada explode no centro da capital de Ruanda

Eduardo Castro
Correspondente da EBC para a África

Kigali (Ruanda) – Uma granada explodiu na noite de hoje (11) no centro de Kigali, capital de Ruanda. Segundo o porta-voz da polícia, Eric Kiranga, sete pessoas – sendo duas crianças – ficaram feridas com gravidade e levadas para os hospitais da cidade. Até o momento, não há informação sobre o estado de saúde delas.

A explosão, ocorrida por volta de 19h (hora local – 14h em Brasília) deixou um rastro de sangue na calçada, próximo a um terminal de transporte coletivo. Segundo testemunhas, houve pânico e correria. Agora a noite, soldados do exército patrulham o centro de Kigali, que está vazio e aparentemente tranquilo.

Ainda de acordo com a polícia, três pessoas foram presas logo depois do atentado. Elas estão sendo interrogadas. Não há informações sobre o motivo do ataque. A autoria do atentado não foi assumida por qualquer grupo.

A explosão ocorreu no mesmo dia em que a Comissão Eleitoral de Ruanda confirmou a reeleição do presidente Paul Kagame para mais um mandato de sete anos, com 93% dos votos.

Edição: João Carlos Rodrigues

Caso ou compro uma biclicleta?

No trajeto até os memoriais do genocídio, me impressionei com o número de biclicletas-táxi na estrada que liga Ruanda ao Burundi, aqui bem no centro da África. Isso mesmo: bicicletas-táxi. Você paga uma nota lá e o sujeito sobe e desce as colinas pedalando no seu lugar. Eles têm uniforme e tudo. É um colete verde, com listras amarelas.

Não confundir com o moto-táxi (aliás, aqui chama táxi-moto), que circula na cidade de Kigali aos montes, sempre de capacete verde – um pro motosta e outro pra você, passageiro. Um trajeto de 10 minutos custa 300 francos – exatos 90 centavos de real. Quando descobri, passei a fugir do carro – que cobra 3 mil – 9 reais – pelo mesmo trajeto.

Comentei com o Rachid, o motorista (do carro), que achava interessante aquele monte de bicicleta na estrada cheia de sobe-e-desce. Ao que ele responde: “é status ter bicicleta aqui”.

“Em algumas regiões mais afastadas, quem não tem bicicleta não casa”, diz o Rachid. O pai da noiva logo pergunta: “tem bicicleta? Não? Então nada de casar com minha filha.”

Logo, pare com a bobagem de “não sei se caso ou compro uma bicicleta”.

Compre a bicicleta antes. Em alguns lugares, sem um, não tem o outro.

Massacre, genocídio

Em 1996 fui enviado a Eldorado dos Carajás, no interior do Pará, para cobrir o massacre dos trabalhadores sem-terra. Eu era um menino – tinha 22 anos, e foi minha primeira grande cobertura nacional. Inesquecível por isso. Mas não só.

Logo ao chegar pela estrada, vindo de Carajás, a tal “Curva do S” tinha velas dos dois lados da pista. Foi ali que os trabalhadores rurais foram encurralados pela polícia. Uma imagem difícil de esquecer.

Era uma quinta-feira. O massacre foi na terça. A notícia levou um dia pra sair daquele canto do mundo e chegar às redações. Quando eu cheguei, os corpos já estavam no IML de Marabá, para serem identificados e periciados.

Foram liberados só dois dias depois, no sábado. Vieram em cima de um caminhão, cobertos com bandeiras do MST. Quando ele parou, subi no estribo de trás da carroceria e vi os caixões um do lado do outro. Não fui o único, claro. Sebastião Salgado imortalizou esse momento com um foto preto e branco, lindíssima, que correu o mundo – e está aí em cima.

Algumas horas depois, do velório, entrei ao vivo na Rádio Bandeirantes por um telefone rural (não tinha celular na região na época). Sob minhas palavras, apareceu um som diferente, constante, quase um zunido. Antes de entrar no ar, o técnico me perguntou se eu podia sair de perto da máquina que estava causando aquele som. Só que não era máquina – era o choro das mães, esposas e filhas dos mortos naquela chacina.

Dezenove caixões foram espalhados pelo salão de festas da igreja local, que não passava de uma cobertura e estacas no chão de terra. Tarde, perto das 11 horas, um dos líderes dos sem terra (se eu não estiver muito enganado, o Gilmar Mauro) pega um microfone lá e diz “gente, eu sei que vai ser difícil pra todo mundo, mas nós vamos ter de abrir os caixões pra fazer a identificação”. Alguns estavam tão desfigurados que olhar pelo vidro do caixão não adiantava.

Quando as tampas foram erguidas, um cheiro fortíssimo, nauseante, tomou conta do espaço. Os corpos já estavam há dias esperando por liberação em Marabá; quando chegaram já haviam se deteriorado. Esse cheiro está na minha memória até hoje.

Uma cobertura marcante, determinante na minha carreia e também na minha vida. Naquela época, como diria Renato Russo, o Eduardo aqui ainda estava no esquema de escola, cinema, clube, televisão. Escola privada e paulista, diga-se. Pará, sem terra, massacre… tudo isso era outro mundo. Foi a partir dessa cobertura que saquei que não era. Era o mundo em que eu vivia, e eu é que não conseguia ver.

Ponto. Parágrafo.

Em 6 de abril de 1994, hutus descontentes com um acordo fechado com a oposição tutsi para acabar com a violência entre as duas etnias derrubaram o avião em que viajava o presidente aqui de Ruanda (e o presidente do Burundi também). Horas depois, o Exército e hutus descontrolados saíram estuprando, violentando, torturando e matando todos os tutsis (e também hutus moderados) que encontravam no caminho.

Aqui, mais sobre o massacre em uma das matérias que escrevi sobre as eleições aqui em Ruanda na Agência Brasil. Aliás, o presidente Paul Kagame (oh, que surpresa!) foi reeleito com 93% dos votos).

Os ataques começaram por Kigali e foram subindo pelo país. Sentido que a coisa estava mesmo sem controle, os tutsis (minoria) tentavam se proteger em conjunto. Majoritariamente cristãos, lotaram igrejas, buscando proteção. A princípio, proteção dos homens. Ficaram só com a divina.

Cerca de uma semana depois, uma pequena igreja em Ntarama foi atacada com granadas e invadida em seguida. Só ali, 5 mil pessoas morreram. Perto, duas mil pessoas caminham horas para sair da escola técnica em que estavam abrigadas para serem exterminadas em um campo aberto. Um pouco mais adiante, em Nyamata, outra igreja já recebia milhares de refugiados quando os hutus chegaram. Ali estão enterradas 10.080 pessoas.

E assim foi: 5 mil aqui, 2 mil lá, 10 mil ali. 45 mil. No total, 800 mil em 100 dias. Dez por cento da população do país. Um em cada dez. O termo “dizimar” refere-se, sempre, a 10 por cento de algo. O “dízimo” vem daí. Pois, em Ruanda, dizer que a população foi dizimada não é adjetivar nada. É ser preciso.

Dentro dos memoriais todos, alguns elementos comuns: faixas roxas e brancas, a frase “se você me conhecesse e se melhor se conhecesse, não me mataria”, além de pilhas de ossos (e crânios, muitos crânios) e as roupas sujas de sangue dos milhares de mortos.

Ponto. Parágrafo, de novo.

Vendo tudo isso, hoje de manhã aqui em Ruanda, lembrei muito do que pensei, senti e vivi no agora distante 1996, no (agora também muito distante) interior do Pará.

Um massacre de 19 pessoas, perpetrado em algumas horas, já foi difícil de compreender.

Não consigo sequer imaginar o que aconteceu aqui.

Mas preciso, pois vou preparar um “Caminhos da Reportagem” sobre como vai o país hoje. Um dos personagens do programa será uma senhora de 73 anos que teve a mão cortada durante o genocídio. Nada perto de nunca mais ter visto o marido e 4 dos 5 filhos. Mukamu Soni é o nome dela.

Você vai conhecê-la em breve. Eu aviso quando o programa irá ao ar. Vai demorar um pouquinho, porque preciso editar tudo ainda.

Rever o que gravei hoje será penoso. Espero que valha a pena.

PS: Sandra também escreveu sobre Ruanda no Mosanblog. Não é porque é minha mulher não, mas ela escreve bem…

Ruanda na TV

Mais uma reportagem feita aqui, sobre a eleição que – oh! – foi ganha pelo atual presidente.

Clique aqui pra ver como ela foi ao ar no Repórter Brasil.

Aliás, até agora, a única palavra que aprendi em kinyarwnada é do “dicionário eleitoral”: “tora”, que quer dizer “vote”. E que, sempre que a vi, veio acompanhada do nome do presidente: “Tora Kagame”!

Desnecessário dizer que a língua nativa deles aqui é tão complicada que nem o nome dela eu consigo falar.