A Copa de 2002 e a novela coreana

A Copa de 2002 foi interessante pra quem, como eu, trabalhava em rádio. Jogos de madrugada na Coréia-Japão significavam manchetes de manhã, pelo horário do Brasil. A gente deitava e rolava. E sem correr tanto.

Também teve a história da Jovem Pan não transmitir, o que nos deixou (eu era da Rádio Bandeirantes) com a faca, o estilete, a espada… tudo na mão. Principalmente à medida que o queijo aumentava – e só aumentava, porque o Brasil foi bem mais longe que muita gente – a Pan entre eles, acredito – esperava.

Naquele ano, o Grupo Bandeirantes todo mandou só 4 pessoas pra Copa: o pai do gol José Silvério (ouça ele aqui, narrando a final – é de matar de emoção), o repórter Leandro Quesada, o técnico João Bicev e o seu amigo aqui. Comparando, esse ano deve levar, por baixo, umas 150, somando rádio, TV, TV a cabo, etc.

Mas estar lá não bastava. Era preciso mostrar que estava – já que nem todos foram. E mostrar pelo rádio é colocar som.

Pois bem. Na Copa de 94, o cabeção Milton Neves gravou um gol narrado por um colombiano – um único gol – e repetiu aquilo à exaustão. Era legal mesmo. Bom, se um gol fez todo aquele barulho, muitos gols fariam bem mais. E foi o que eu fiz.

Durante os jogos, ia à rádio ou TV das seleções que estavam jogando. Ouvia o jogo lá, ligado na Bandeirantes pelo microfone e escuta sem fio. quando saía gol, o Bicev gravava direto, separava o som e, minutos depois, eu entrava na transmissão e soltava o gol, por exemplo, da Turquia, narrado pela TV turca. Teve um pênalti que o Mendieta bateu e o locutor espanhol gritou gol exatas 85 vezes. Se alguém tiver a gravação… eu, claro, não tenho mais.

Mas só jogo não bastava, precisava encontrar algo que mostrasse que nós estávamos vivendo a vida da Coréia e do Japão. Que estávamos lá. Quebrando a cabeça com isso, abri o jornal (em inglês) e li um editorial metendo o pau numa novela na KBS, emissora pública coreana. Dizia que era um atentado à família, um absurdo, tal. Mas não relatava exatamente qual era o caso. Fiquei intrigado.

Chegando ao café, duas atendente discutiam em coreano. Em inglês, perguntei o motivo. “É a novela”, disse a mocinha. Pronto. Tinha alguém pra me explicar qual era o problema: a professora se apaixonou pelo aluno adolescente. E o romance dos dois era proibido. Aliás, esse era o título da novela: “Romance”, que ia ao ar, lá na Coréia, exatamente na hora em que entrávamos ao vivo no programa Esporte Notícia.

Foi assim que comecei a colocar no ar, no fim do Esporte Notícia, pílulas da novela “Romance”. Roberto Avallone apresentava o programa. Depois de uns dias, entrou na brincadeira: “e aí, Castro, o aluno já beijou a professora?” “Ainda não! Vamos ouvir o capítulo de hoje”. E eu falava 30 segundos sobre o capítulo, com o som da TV por baixo.

A novela teve final feliz. Pra mim, ao menos. Recebi um monte de mensagens de gente que curtiu a história e queria saber quando o mocinho iria beijar a professora. Foi no último capítulo (oh!!!!!), sábado, um dia antes da final Brasil e Alemanha.

E um segredo, que guardei pro fim – como todo bom autor de novela. O capítulo que eu descrevia era sempre o da véspera. Afinal, meu coreano não era “tão” fluente assim, pra pegar a história ali, ao vivo. Aliás, nem dos ouvintes, porque ninguém ligou reclamando que os diálogos que eu descrevia não tinham nada a ver com o que eles falavam em coreano. Tinham sido os do capítulo anterior, que as meninas do café me resumiam animadamente, logo que eu chegava ao centro de imprensa, pela manhã.

PS: lembra do Avalone na Rádio Bandeirantes? 2002, 2003, por aí. Na Copa, chamava o Quesada de “Espadachim de Sevilha”. Eduardo Affonso era o “Rei de Portugal”. E eu era o “Monstro de Seul”. Grande Ávalos.

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Um comentário em “A Copa de 2002 e a novela coreana

  1. As fontes certas não têm (não concordo com a nova ortografia rsss) preço não é mesmo? Até eu fiquei curiosa com essa novela hahaha.. Abs
    Lucia Agapito

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